O Sonho de Harum Al-Raschid

Quando as coisas não vão bem, a nossa tendência é voltar no tempo, a uma época em que tudo funcionava com perfeição.

Claro que enquanto vivíamos tal época, não tínhamos a compreensão dessa “perfeição”. Peixe algum consegue falar da água com isenção e objetividade.

Diz-se que Harun al Rashid, o famoso califa fatímida, nascido no ano 786 da era cristã, foi certa vez consumido por dois profundos sentimentos.

O primeiro era o reconhecimento da majestade e da perfeição de Bagdad, na época a sede do califato, e capital de todo o império islâmico.

A cidade havia herdado parte do legado de riqueza material e sabedoria dos persas, árabes e antigos babilônicos.

Bagdad representava a confluência de vários povos, era governada com sabedoria e firmeza, e abrigava entre suas muralhas, milhares de bibliotecas, onde estava preservado todo o saber da humanidade de então.

Harun, sendo Califa, agradecia a Deus por conseguir perceber tanta beleza, e por ser merecedor de ser dela o guardião. Mas sua sabedoria alcançava dar-se conta da inevitável temporalidade.

Seus antepassados haviam derramado sangue, por aquela paz e aquela beleza. Ele mesmo havia lutado, fisicamente, para mantê-la, por mais de uma ocasião. Essa era a natureza da segunda, e sombria obssessão do Califa Harun Al Rashid.

O tempo, apelido dado aos homens ao fluxo mutante de tudo, iria destruir Bagdad. Harun tinha pesadelos com os majestosos minaretes desmoronando, as douradas cúpulas das mesquitas estilhaçadas ao chão coberto de cadáveres e sangue.

Bagdad, um dia, como tudo e todos, pereceria.

Tendo sido criado embalado nos versos do Corão, Harun acreditava firmemente em que sua alma sobreviveria a ele. Mas Bagdad pereceria. Bagdad não tinha alma.

Bagdad era um produto da alma. Era um tributo da alma humana ao seu Criador. Cada palácio, cada mesquita, cada tekkia era um testemunho de fé. As almas seriam reunidas no dia do Julgamento. Mas não a cidade.

Este pensamento tirava o sono de Harun al Rashid. Um dia, ele convocou um humilde artesão, que ele sabia ser um Sufi, e colocou-lhe sua preocupação.

“Realmente, sua Majestade”, replicou o Sufi, “sua avaliação das coisas é correta”.

“Mas que devo então fazer, ó sábio?” perguntou o califa.

“Encomenda-te a Deus”, disse, “E roga por uma resposta. Ela virá, mas nem sempre em uma forma que possas reconhecê-la à primeira vista”, e acrescentou: “essas coisas não são regidas pelo desejo, mas pela necessidade”.

O Califa, que havia cultivado alguma sabedoria, Seguiu o conselho do Sufi. Passou a rezar, no segredo do seu coração, por um alívio para aquela aflição, a aflição da temporalidade. O fato inescapável de que tudo se transforma, e nem sempre para melhor.

Um dia, sonhou com khidr, o guia arquetípico dos Sufis. Sem falar, a aparição lhe conduziu a uma certa casa, onde um velho enfermo, com o corpo coberto de pústulas, ardia em febre, e um jovem, que parecia ser seu filho, lhe aliviava o sofrimento com compressas de alfavaca.

Ao despertar pela manhã, o Califa chamou seu vizir, vestiram-se como cidadãos comuns, como era um lendário costume seu, e partiram a pé do palácio, para não despertar suspeitas sobre sua identidade.

Harun al Rashid foi capaz de identificar o caminho indicado pelo khidr, e chegou até a casa do velho enfermo. Era uma choupana simples, Feita de madeira,mas um ambiente acolhedor, deixando em cada detalhe transparecer o zelo de seus moradores.

O jovem, que no sonho do Califa estivera cuidando das chagas do pai, estava do lado de fora da casa, sem camisa, suado, empunhando um machado, que usava para cortar lenha. Harun reconheceu-o imediatamente.

“Meu jovem”, disse o Califa, “teria algo que oferecer para comer a dois pobres viajantes?”

O homem interrompeu sua atividade e os convidou para entrar. Serviu-lhes um chá, e estiveram a conversar sobre muitos assuntos diferentes, quando o Vizir perguntou: “você mora sozinho aqui?”

“Agora, moro,” respondeu o rapaz. “Meu pai morava comigo, mas faleceu, há alguns meses”.

Ao se despedirem, o Califa deu ao rapaz uma moeda de ouro, e agradeceu. O rapaz, com a moeda entre os dedos, disse: “Pensei que tivesse vindo tentar salvar meu pai, ó comendador dos Crentes!”

Ao ouvir o jovem proferir um de seus atributos, o califa estancou o passo e virou-se em sua direção. Foi então que, brevemente, viu a face de khidr, no lugar da do rapaz. Tão rápido como veio, se desvaneceu. E com khidr, desvaneceram-se o jovem, o vizir, e tudo o que estava vivo e verdejante em torno de Harun al-Rashid, tornou-se cinza e amarelado, cor de palha.

Toda a vida havia abandonado o cenário. A choupana era agora uma casa em ruínas. O Califa correu até umas colinas próximas, de onde era possível avistar os minaretes de sua amada Bagdad. E o que viu lhe fez brotarem lágrimas dos olhos insones.

Luzes, vindas do céu, deixando atrás de si um rastro de fumaça, explodiam ao tocar o solo. Minaretes majestosos deitavam seu peso ao chão ruidosamente. Crianças choravam. Cadáveres despedaçados cobriam o chão queimado.

Ao despertar, em seu palácio, Harun al-Rashid foi até a janela e percebeu que tudo havia sido um terrivel pesadelo. Após o desjejum, preparou seu cavalo e partiu em direção à casa do artesão que havia consultado sobre suas preocupações.

Assim que o viu, apesar da ausência das terríveis pústulas, reconheceu nele o velho de quem o jovem cuidava, em seu sonho.

“Tive um sonho estranho”, disse o Califa.
“Não”, replicou o velho. “Você está sonhando agora”. Bagdad, na verdade, está sob o ataque de artefatos militares com que jamais pudemos sonhar, em um futuro que não vimos acontecer.

Mas Allah, o todo-poderoso, em sua misericórdia, preservou essa maravilhosa cidade, que abriga tanta beleza e sabedoria, no mundo dos sonhos, onde agora habitamos, eu e você. Daqui, os homens tiram toda a sua inspiração, para continuar lutando, por uma vida melhor, e pelo que é justo e grandioso.

Aqui o Criador dos Mundos nos colocou, a salvo de todas as bombas, e ao alcance dos poetas, dos sufis e das crianças.

Harun sorriu, tomou as rédeas de seu cavalo, fez uma mesura e um sincero “Salam aleykum”, e tomou o caminho de volta a seu palácio, com um sorriso nos lábios.

Alexandre Costa e Silva
(livremente inspirado em um episódio de sandman)

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