//A Cabana, Deus-Mãe e a Geração Mimimi
Saleiro
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Guilherme,

Em seu texto, você diz que a ideia de usar Deus representado como uma mãe é compartilhar a perspectiva de um Deus sensível ao sofrimento humano, o que obviamente ficaria prejudicado se Deus fosse representado como pai. Este argumento aponta para uma diferença na imagem que a figura do pai e da mãe passam, no que se refere à sensibilidade.

Com base nisto, eu pergunto: E se Deus se revelou como pai na bíblia exatamente por essa razão: porque a imagem do pai representa melhor o seu caráter, especialmente o equilíbrio entre a sua justiça e o seu amor? Este é um argumento mais coerente, para mim, do que o argumento que você abraça, a saber, de que Deus não queria escandalizar.

Se esta for a razão, então a representação de Deus como mãe é problemática, porque se trata de uma tentativa de suavizar Deus, de mostrar apenas o seu lado amoroso, uma imagem que ele próprio não quis passar.

Na sequência, você utiliza o argumento cultural, tão em voga nos dias atuais, para justificar a ausência de uma manifestação feminina de Deus. Você diz claramente que a tradição cristã [inclusive a de 2000 anos atrás] foi fortemente influenciada pela cultura machista, androcêntrica e intolerante com as mulheres (não ficou claro, no seu texto, se isso incluir a própria bíblia).

Como diz o autor que você cita:

“Nossa mente, nossos olhos e nossos ouvidos jamais são neutros. Estão pré-condicionados por um determinado mundo experimental, que lhes determina a percepção.”

O problema com o argumento cultural é que ele acaba sendo um tiro no pé. Ele explica mais sobre você, do que sobre aqueles contra quem você argumenta. Você acusa a tradição cristã de interpretar a bíblia sob influência da cultura deles, como a sua nova interpretação fosse isenta culturalmente, quando na verdade é o oposto. É muito mais nítido o reflexo do pensamento moderno no seu texto, do que a influência da cultura machista na interpretação deles.

Você pergunta se eu, como leitor, nunca estranhei o fato de Jesus ser pintado de cabelos loiros e olhos azuis e a resposta é: “Sim, eu estranhei e estranho. Para mim, Jesus se parecia muito mais com um árabe, do que com um europeu.” Mas eu devolvo a pergunta: Você não estranha o seu texto estar tão alinhado com o pensamento moderno, de igualdade de gênero e anti-patriarcal?

Você diz que Jesus só não chamou Deus de mãe porque não quis afrontar o machismo, androcentrismo e a intolerância contra as mulheres de sua época. Você também diz que ele escandalizava a religião da época, mas escolhia bem os escândalos. Você percebe como este argumento soa absurdo? Se ele não chamou Jesus de mãe porque provavelmente teria antecipado a cruz, porque ele não o fez depois da cruz?

Como praticamente todo o seu argumento se baseia na influência cultural, só nos resta apelar para um momento da história em que a cultura não existia: o Éden. Eu pergunto: Por que Deus se revelou como homem e não como mulher para Adão, quando ainda não existia cultura, nem androcentrismo, nem preconceito contra as mulheres? Porque ele não agiu desde o começo, para não fomentar a cultura machista que veio depois?

Deus não tem gênero, você diz. De fato, mas ele criou os gêneros — dois, para ser mais exato, masculino e feminino — e, entre os dois gêneros que ele criou, ele sempre escolheu usar a forma masculina para se manifestar e, até mesmo, para encarnar.

Ele criou primeiro o homem e, a partir de uma costela do homem, a mulher, que foi criada com o propósito de que o homem não estivesse só, mas tivesse alguém que o auxiliasse e o correspondesse. A autoridade do homem sobre a mulher, em um casamento, existe desde antes de existir o pecado e a cultura, no Éden. O apóstolo Paulo dá duas razões para isso: primeiro, porque o homem foi criado primeiro; e, segundo, porque a mulher foi feita por causa do homem. As coisas são assim, porque Deus planejou que fossem assim e não por influência cultural.

Você usa o termo “machista” para se referir à cultura do tempo de Jesus, quando, na verdade, esse é um termo bem ambíguo. Segundo o Wikipédia, por exemplo, um conceito amplo de “machismo” inclui a ideia de que o homem, em uma relação, é o líder, protetor a autoridade em uma família. À luz deste conceito, o próprio Deus apresentado na bíblia seria machista. Tudo o que eu falei no parágrafo anterior, sobre a criação, é machismo.

Por último, é louvável a sua preocupação em tentar alcançar a algumas pessoas que, por causa de experiências frustrantes de paternidade, nunca puderam conhecer um Deus pessoal e cuidadoso. No entanto, eu pergunto: Não seria mais salutar usar o amor paternal de Deus para restaurar na vida dessa pessoa uma visão masculina e paternal correta? Deus não poderia ser para ela a referência de pai amoroso que a pessoa nunca teve?

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