Nenhum destino está selado
Algumas histórias da bíblia são bem contemporâneas e pertinentes. Uma das minhas preferidas começa com Gileade, um homem bem-sucedido e respeitado, que se tornou conhecido por causa de um erro que cometeu: ele teve um filho com uma prostituta.
Gileade assumiu o menino como filho, lhe deu o nome de Jefté e o levou para casa, para ser criado por sua mulher (o que ela deve ter feito à contragosto). Com o tempo, Gileade e sua mulher tiveram filhos legítimos, que cresceram aprendendo a odiar o irmão bastardo. Tanto que, anos mais tarde, quando o velho Gileade morreu, os irmãos de Jefté o expulsaram de casa.
A Lei divina também não era muito tolerante, no tocante aos filhos bastardos. Eles sequer poderiam comparecer na presença do Senhor. Moisés tinha sido claro: “nenhum bastardo poderá entrará na congregação do Senhor; nem os seus filhos entrarão na congregação do Senhor (Dt 23: 2)”. Não parecia muito justo, mas era assim. O filho acabava pagando pelo erro do pai.
Foi nesta ambiente de rejeição que Jefté cresceu (sofrendo mais bulling, na infância, que um nerd), tendo que conviver com olhares de desprezo, piadinhas infames e discriminação social. Não deve ter sido fácil! Ele era visto pela sociedade como um pária, um proscrito, um ser inferior, e talvez ele mesmo se visse assim (porque normalmente tendemos a aceitar os rótulos que nos impõem).
Eu imagino os filhos legítimos se arrumando, para irem ao templo, e penso no que se passava pela cabeça do garoto bastardo. Estou certo que, no seu íntimo, ele tinha o desejo de ir junto. Quantas vezes ele não deve ter ouvido esta frase: “Deus não quer saber de você!”. Por esta razão, Jefté daria tudo para ser um filho legítimo. Daria tudo para ser aceito por Deus.
O que eu acho mais curioso, nesta história, é que os filhos legítimos faziam pouco caso dos seus direitos. Tinham acesso à presença do Senhor, mas não compareciam perante ele. Tinham o direito de adorar, mas ficavam calados. Os direitos que tinham só serviam para se acharem o máximo, e para se considerarem superiores aos demais.
Estavam enganados. Em suas mentes legalistas, eles reclamavam para si o título de povo de Deus, de filhos legítimos, no entanto Deus os tinha rejeitado… e tinha escolhido Jefté, um filho bastardo, um proscrito. Mas não estava escrito que os bastardos não poderiam comparecer perante o Senhor? Sim, mas nunca duvide do poder de Deus.
Não existe ninguém distante demais, perdido demais, abandonado demais ou rejeitado demais, que ele não possa alcançar. Para Deus, nada é impossível. Nenhuma condição é irreversível. Nenhum coração é duro demais.
A fé não tem lógica. Ela é como uma flor, que brota nos lugares mais improváveis. É por isso que eu admiro a história de Jefté. As pessoas estavam contra ele. A lei de Deus era contra ele. Nunca apareceu um profeta, para dizer o quanto ele era especial. E mesmo assim, ele creu em Deus.
Ele não apenas creu, como se tornou um herói da fé. Seu nome figura na nobre galeria de heróis, no livro de Hebreus, ao lado de outros gigantes, como Davi, Samuel, Sansão e Gideão. Ele morreu há milhares de anos, mas sua história é lembrada até hoje.
É a história de um homem rejeitado, que foi escolhido por Deus para libertar as mesmas pessoas que o haviam abandonado. Escolhendo um “excluído” para salvar os “eleitos”, o Senhor os libertou não apenas do inimigo, mas também de si mesmos. Jefté teve que se esvaziar de todo sentimento de retaliação e vingança, para ajudar os seus irmãos, enquanto eles tiveram que engolir o orgulho e a religiosidade.
Existem duas lições importantes, nesta história.
1. A primeira é que ninguém deve se gabar da sua posição em Cristo. Não se orgulhe, mas tema. Pois, se Deus não poupou os filhos naturais, também não poupará a nós, que somos filhos bastardos.
2. A segunda é que nenhum destino está selado. Um bastardo pode se tornar um herói nacional. Uma escrava pode se tornar uma princesa. Uma prostituta pode fazer parte da linhagem de Cristo. Um assassino de cristãos pode se tornar um apóstolo.
E nós? Bem… Que ninguém nos descarte ainda, porque só Deus sabe as coisas incríveis que ele irá fazer por meio de nós.