Pensamentos sobre a fé de Pedro

Simão conheceu a Jesus por meio de seu irmão André, que era discípulo do profeta João Batista, certamente a melhor fonte da época a respeito do Cristo. A revelação que João recebera a respeito de Jesus, por meio do Espírito, era das mais completas, talvez por isso o próprio Jesus tenha se referido a ele como o maior profeta.

Ele predisse tanto o Jesus salvador — aquele que batizaria com o Espírito — quanto o Jesus escatológico, que queimaria a palha no inferno (o fogo que nunca se apaga). Ele claramente reconheceu a divindade de Jesus, quando disse que ele era o filho de Deus que desceu do céu, a quem o pai entregou tudo em suas mãos. E o que dizer da profundidade da sua afirmação de que Jesus era o “cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”? Esta única frase prenunciava não apenas a morte de Jesus, mas o propósito substitutivo que ela teria para nos purificar de todo pecado.

O ensino de João era divergente daquele que se ouvia nas sinagogas, onde a vinda do messias também era um assunto recorrente, embora por motivos diferentes. Se por um lado João, movido pelo Espírito, pregava um Messias que viria para nos purificar dos pecados, por outro lado, nas sinagogas, ensinava-se a vinda de um libertador, que libertaria a nação do jugo Romano.

Quando André soube, por meio de João, que Jesus era o Cristo, ou seja, quando ele ouviu a pregação do evangelho, ele foi até Jesus e passou o restante do dia com ele. Quando ele saiu de lá, o primeiro que ele encontrou foi Simão, seu irmão, e lhe disse: “Achamos o Messias” (isto é, o Cristo). E o levou a Jesus.

Podemos afirmar, com certeza, que, apesar das aparências, de modo algum aquele encontro foi fortuito, nem a escolha de Simão se eu por acaso. A exemplo do apóstolo Paulo, Pedro fora escolhido desde o ventre materno. Mas se por um lado aquele encontro fora arquitetado por Deus — quando vemos a cena de uma perspectiva cósmica — por outro lado, o encontro se baseou em escolhas de Pedro, se vermos a mesma cena de uma perspectiva humana. Ele escolheu ir até Jesus, quando seu irmão o convidou — ele poderia ter recusado.

E foi assim que os caminhos de Simão e de Cristo se cruzaram, em um encontro que deve ter sido marcante, uma vez que ele chegou lá como Simão, e saiu de lá como Pedro. Se neste primeiro encontro, Pedro fez escolhas simples, como ir ou não ir, no encontro seguinte — relatado na bíblia — , ele faria escolhas mais difíceis. Ele escolheu acolher Jesus em seu barco apesar de cansado, escolheu lançar as redes apesar de frustrado e, por fim, escolheu deixar tudo para trás, para seguir a Jesus.

Todas estas escolhas foram notáveis, mas será que Pedro merece crédito por alguma delas? Será que ele teria acolhido Jesus em seu barco, se não o tivesse encontrado antes e ouvido sobre quem ele era? Será que ele teria escolhido lançar as redes, se não tivesse ouvido o ensino de Jesus à multidão? Será que e ele teria largado tudo para seguir a Jesus, se não tivesse testemunhado a pesca milagrosa?

A verdade é que embora pareça que Pedro tenha seguido a Jesus por uma escolha pessoal, não foi ele quem escolheu a Deus, foi Deus que o escolheu, e Deus o escolheu de antemão não por causa das escolhas que ele faria, mas por que o amou. E porque o amou, Deus atuou nas circunstâncias [e no próprio Pedro] para que ele pudesse fazer as escolhas certas, no momento certo.

Deste modo, o chamado de Pedro não ocorreu de modo aleatório, mas houve toda uma série de acontecimentos pré-determinados que culminaram no seu “sim” ao chamado de Cristo, o que nos mostra que o Senhor utiliza as circunstâncias a seu favor, de modo a alcançar os seus propósitos, e alcança os seus propósitos por meio das circunstâncias.

Como escreveu o apóstolo Paulo, “Sabemos que Deus age em todas as coisas [circunstâncias] para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.” Este versículo nos permite afirmar que tudo o que aconteceu com Pedro fora planejado por Deus, para que Pedro pudesse vir a crer em Cristo; e Deus não falha em seus propósitos e planos.

Ou seja, era impossível que as coisas acontecessem de outra forma, que não a planejada e prevista por Deus. No entanto, todas as circunstâncias favoráveis seriam inúteis sem a ação do Espírito no coração dele, para afastar os efeitos do pecado e permitir que eles pudessem escolher livremente, ou seja, para que ele pudesse crer no evangelho.

No fim das contas, Deus não escolheu por ele, Deus conquistou a escolha dele — Deus os convenceu de que essa era a melhor escolha — e o libertou [dos efeitos da queda] para que pudesse escolher; e ele escolheu crer, como Deus já sabia de antemão que eles escolheriam. Esta capacitação para crer lida com o pecado no homem [é o Espírito agindo contra a carne], ao passo que o convencimento lida com o próprio homem, lida com o intelecto e as emoções.

O Senhor de modo algum subestima a nossa inteligência.