Oração não é placebo

Alexandre Agostinho
Nov 4 · 5 min read

Tiago, o irmão do Senhor, foi um dos líderes da igreja em Jerusalém, ao lado de Pedro e João. Seu ministério foi dirigido aos judeus, tanto os de Jerusalém como os da diáspora, os quais são os destinatários da carta que leva o seu nome nas escrituras. Um dos temas que ele aborda nesta carta é a oração.

Em sua carta, ele nos apresenta a um Deus compassivo, misericordioso, imutável e constante, que abençoa a todos com liberalidade e boa vontade. Ele não é um pai bipolar, de quem você só recebe se estiver de bom humor, ou que diz sim para um filho e não para o outro.

A carta é sem dúvidas um estímulo à oração. O incauto peça sabedoria, o enfermo peça a cura, o sofredor peça alívio. Segundo Tiago o cristão se desgasta e contende por muitas coisas… que Deus nos daria se pedíssemos. “Não têm, porque não pedem”, sentencia ele.

[Este ensino ecoa outros das escrituras, como o de que todo aquele que pede recebe. Explica porque o irmão do filho pródigo nunca teve uma festa como a do irmão. Explica também porque Deus se irou com o pecado de Davi, porque se todas as dádivas não fossem suficiente, Deus lhe teria dado mais.]

Devemos orar em nosso próprio benefício — para pedir sabedoria ou por alívio do nosso sofrimento — , mas também devemos orar uns pelos outros, para sermos curados. Devemos buscar a Deus diretamente, mas também devemos buscar os presbíteros da igreja para que orem por nós.

A oração de um justo é poderosa e eficaz, segundo Tiago (ou seja, ela produz resultados). Não existe senões, na carta do apóstolo. Todo aquele que pedir sabedoria, receberá. Todo aquele que pedir cura, assim lhe será feito. Seja o que for, Deus fará [desde que não seja para gastar em paixões mundanas].

Quando as orações não produzem resultados, as pessoas tendem a lhe atribuir um valor místico e “mais elevado”. Tiago busca desmistificar a oração e os oradores, a petição e os pedintes. “Elias era humano como nós”, diz ele. “Ele orou fervorosamente para que não chovesse, e não choveu sobre a terra durante três anos e meio.”

Daqui vem a expressão “oração fervorosa”, que é um modo apaixonado e entusiasmado de orar. Uma oração fervorosa é uma oração em ebulição, uma oração quente e cheia autoridade. Não significa gritar, como os profetas de Baal no monte Carmelo, mas orar com vigor e convicção como Elias orou.

“Peça porém com fé, sem duvidar”, escreveu Tiago. “Pois aquele que duvida é semelhante à onda do mar, levada e agitada pelo vento.” Na sequência segue-se uma das frases mais inflexíveis, contundentes e inegociáveis das escrituras. “Não pense tal pessoa que receberá coisa alguma do Senhor.”

É necessário muito contorcionismo teológico para justificar as nossas orações ineficazes, como sendo por qualquer outro motivo que não a falta de fé, especialmente na carta de Tiago, todavia as pessoas preferem mudar inclusive o caráter de Deus do que reconhecer seus pecados.

Transformaram um Deus que a todos dá livremente em um Deus mesquinho, ainda que utilizando palavras mais elegantes.

Pessoas sem fé são como ondas levadas e agitadas pelo vento. Ou seja, andam ao sabor das circunstâncias. O problema com os ventos é que eles são instáveis e mudam de direção repentinamente. Quando os ventos são favoráveis, tudo bem, mas e quando forem desfavoráveis? Neste momento, as ondas são agitadas.

“Não pense tal pessoa [a que duvida; a que é como as ondas levadas e agitadas pelo vento] que receberá coisa alguma do Senhor, pois tem mente dividida e é instável em tudo o que faz.” [Mente dividida aqui é uma tradução do termo grego dipsychos que significa literalmente duas mentes].

Existem duas formas de diagnosticar este pecado chamado dipsichos. A primeira é pelo comportamento, porque a pessoa com duas mentes é instável em tudo o que faz. Ela começa a caminhar sobre as águas toda cheio de fé, mas naufraga quando repara no vento forte.

A outra forma é pelo resultado da oração, porque esta pessoa instável não consegue receber coisa alguma do Senhor. Sua oração é desprovida de poder, de fervor e não produz resultados. Não nos enganemos, o problema é maior do que se pensa. Orações sem efeito são o mal do nosso século.

Um cristão é tão eficaz quanto a sua oração; uma igreja é tão eficaz quanto a oração dos seus membros.

Considere este texto: “Entre vocês há alguém que está doente? Que ele mande chamar os presbíteros da igreja, para que estes orem sobre ele e o unjam com óleo, em nome do Senhor. A oração feita com fé curará o doente; o Senhor o levantará.”

Pode-se justificar como sendo a vontade do Senhor que uma ou outra pessoa não seja curada, mas não é possível que o Senhor não queira curar ninguém. Não adianta tapar o sol com a peneira, existe um problema aqui que definitivamente não está em Deus.

Supõe-se que este termo dipsichos tenha sido cunhado por Tiago, porque não é usado em nenhuma outra parte das escrituras ou fora dela, e o apóstolo a utiliza duas vezes na sua carta. A primeira para descrever o doença, a segunda para descrever o remédio… e nisto a carta de Tiago é especialmente útil e inovadora.

“Aproximem-se de Deus, e ele se aproximará de vocês! Pecadores, limpem as mãos, e vocês, que têm a mente dividida [dipsychos], purifiquem o coração. Entristeçam-se, lamentem-se e chorem. Troquem o riso por lamento e a alegria por tristeza. Humilhem-se diante do Senhor, e ele os exaltará.”

Em tempos de exaltação da dúvida, inclusive na literatura cristã, este texto de Tiago deixa especialmente claro que a dúvida é pecado. Não existe nenhum mérito na dúvida, nada digno de louvor nela. Duvidar não é normal, a dúvida é vil, é diabólica e seus efeitos são devastadores.

A dúvida tem privado os homens de Deus e das suas promessas. Tem privado o homem de receberem genuína transformação, de receberem o Espírito Santo, de provarem o dom celestial, de experimentarem os poderes da era que há de vir e de alcançarem resposta para suas orações.

Usando uma expressão popular, não podemos passar pano pra dúvida. Não podemos negociar com ela, aceitá-la em nosso meio ou dentro de nós, porque a dúvida torna o coração impuro… e não existe bem aventurança para o coração impuro. Muito pelo contrário, só os puros de coração verão a Deus.

E o remédio para a dúvida passa primeiro pelo bom e velho arrependimento, tão presente no Antigo Testamento. “Vocês, que têm a mente dividida [dipsychos], purifiquem o coração. Entristeçam-se, lamentem-se e chorem. Troquem o riso por lamento e a alegria por tristeza. Humilhem-se diante do Senhor, e ele os exaltará.”

Quando oramos por um enfermo e a cura não acontece, não é o caso de lavarmos as mãos, como se não fosse a vontade de Deus curar. Cada oração não respondida clama por arrependimento, cada oração ineficaz clama por lamento e choro e cada oração sem poder clama por humilhação diante do Senhor.

Que a nossa oração seja como a de Davi:

“Cria em mim um coração puro, ó Deus, e renova dentro de mim um espírito estável.”

    Alexandre Agostinho

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