Da vivência ao Deus mercado, vivemos uma era de conceitos que impedem o avanço e não resolvem nossos maiores problemas.

Quando nós paramos de conversar, e tentar convencer o próximo com argumentos racionais a radicalização começa. E a radicalização de nosso tempo vem da falta de disposição ao diálogo causada pelas bases dos pensamentos dos extremos.

O debate político não está sendo feito por pessoas moderadas e dispostas a ouvir por que essas simplesmente preferiram se abster de lidar com os radicais. O problema é que as únicas vozes que sobraram são as dos que não estão dispostos a ouvir outros pontos de vista.

Tanto direita e esquerda tem culpa no cartório (sim, ainda interpreto o mundo desse jeito, acho um modelo robusto). A direita aceita em seu bojo argumentos dogmáticos pró mercado que não tem base em observação da realidade e não levam em consideração a necessidade de ética e justiça para nossas vidas, tentam reduzir o ser humano a um ser de motivações puramente econômicas e ignoram os impactos negativos de determinadas políticas, como se a única coisa a ser perseguida nessa vida fosse o PIB, sem levar em consideração coisas como sua distribuição. Adicione o aceite de moralistas conservadores nesse grupo e temos uma receita para o ódio.

A esquerda, por seu lado, abre mão do debate sobre os aspectos morais da atividade econômica, aceita os paradigmas econômicos impostos pela direita na busca de aceitação da mídia e da academia, e, principalmente na américa latina, se agarra infantil e pateticamente a figuras de liderança, sem perceber gastando energia e munição na defesa de pessoas e estruturas de poder que não mais servem a um ideal, e sim a um conjunto de pessoas que nunca teve por objetivo mudar o sistema (a briga Lula FHC é icônica para mostrar como está baixo o nível do debate). A própria existência dessas pessoas é mais o resultado da escolha da elite econômica de um grupo para “acalmar” os ânimos da população do que uma força popular espontânea. Juntamente a isso boa parte do debate da extrema esquerda vai aceitando a tese individualista e se torna obcecada por bandeiras identitárias (e veja que aqui não estou dizendo que elas não tem seu valor) de maneira a ignorar o debate econômico quase que totalmente, tratando esse assunto como coisa de “técnicos e especialistas”. Chegam ao extremo de dizer que “no case de não ter vivência você não pode sequer falar sobre algo”, abolem a liberdade de expressão por decreto e sem perceber propõe uma maneira de ver o mundo que é um convite ao radicalismo ao criar uma estrutura teórica que parte do pressuposto de que não é possível o diálogo entre pessoas diferentes.

Veja que esse debate não reverbera na maior parte da população exatamente por não lidar com os problemas que a maior parte da população vive. Esses seriam o preço da comida, o acesso a educação, transporte, o genocídio contra a população negra na periferia, a brutal diferença de acesso. Uma pessoa com menos fé na humanidade diria que a academia (historicamente branca e de classe média) criou uma estrutura teórica que lhe permite discutir a ululante pobreza sem tocar em suas causas reais. Afirmando que se trata de uma simples questão de representatividade (mesmo que essa seja essencial).

Isso gera um problema sério pois a sociedade em geral, ao não ver nem ao menos propostas de soluções para seus problemas diretos sendo criadas por grupos populares cai no canto da sereia reacionário, que oferece respostas fáceis e objetivas, respostas essas reverberadas pelos preconceitos instalados por anos em nossas mentes por instituições religiosas e pela mídia.

Um debate político que pretenda mudanças reais deve se focar em problemas que afligem a maior parte da população de maneira não dogmática e humanista sem deixar de lado a observação de indicadores do mundo real. A “conta” pela não promoção desse debate vai ser uma sociedade cada vez mais radicalizada e disposta ao debate e um crescente cinismo em relação à política na população que só pode acabar mal.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Alexandre Becker’s story.