No olho do furacão

Alexandre Boide
Nov 4 · 6 min read

O que esperar de uma ficção? Normalmente tendemos a relativizar a resposta, e de verdade há uma série de fatores a ser levados em conta: quais são as premissas da obra, suas ambições a respeito do que deseja comunicar e construir em termos de linguagem, seu público alvo etc. Antes disso, porém, existe um ponto de partida que pode ser muito mais interessante — a ausência de expectativa. Dar uma espiada rápida e distraída na sinopse, não levar em conta o que a pessoa já escreveu antes, ignorar a orelha, pular o texto de apresentação, e simplesmente começar a ler. Sem saber para onde estamos indo. Sentar no banco do passageiro e deixar o(a) autor(a) guiar a jornada sem saber no que vai dar.

O primeiro obstáculo não vai demorar a surgir, e é um oponente poderoso. Sempre que sentamos e abrimos um livro para ler, despertamos dentro de nós — por falta de um nome melhor — um ego que quer sempre ser agradado. E o livro que se vire para isso. Mesmo quando dizemos que gostamos de ler justamente aquelas narrativas que desafiam nossas noções pré-concebidas, estamos só agradando ao nosso ego de outra forma, oferecendo um elemento contraditório para ele se ocupar, digerir e assimilar, em vez de um mero reforço daquilo que já está consolidado. Seja como for, estamos a serviço do mesmo monstrinho, e ele não gosta de ser conduzido. Caso contrário, quando entramos em um carro e sentamos no banco do passageiro (seja pegando uma carona, um uber, um táxi), não perderíamos nosso tempo pensando que o motorista está indo devagar demais, ou depressa demais; que está na faixa mais congestionada da avenida; que nós conhecemos um caminho muito melhor para chegar ao destino que aquela porcaria de GPS; que a música que está tocando no rádio é um lixo; que se a gente tivesse pegado outro motorista já teria chegado faz tempo…

Nas nossas leituras, entra em funcionamento esse mesmo mecanismo de procurar defeitos naquilo que alheio em busca de autoafirmação. Nós lemos para ser agradados. Afinal, quando encontramos uma leitura que nos desagrada, o que fazemos? Descemos a lenha no livro. A obra simplesmente não se mostrou à altura do nosso padrão de exigência forjado no contraste com milhares de páginas tão superiores àquelas.

Em certo sentido, porém, quando já lemos livros suficientes, a leitura ganha um aspecto complementar de exercício de observação da própria mente. Quando o nosso ego começa a rejeitar o caminho proposto pela obra, põe em andamento um jogo de gato-e-rato em que o nosso repertório pessoal se transforma em um labirinto de espelhos cheio de cantos escuros e ilusões de óptica. Quando entramos nesse jogo — o que acontece a cada vez que abrimos um livro — , precisamos ao menos tomar o cuidado de lembrar que no território do ego nem tudo é o que parece. O incômodo com a condução de um enredo pode esconder uma contrariedade ideológica; uma suposta deficiência no aspecto da inventividade da linguagem pode mascarar um preconceito contra o fato de o livo ter um público alvo mais específico, e que não nos inclui.

O ego não admite a ausência de expectativas. Cria um ruído constante ao longo da leitura, e quando vemos já estamos examinando com mais detalhes a sinopse, passamos a levar em conta o que a pessoa já escreveu antes, esquadrinhamos a orelha, o texto de apresentação. De repente, quem está conduzindo a jornada não é mais o autor, e sim o ego. E o movimento aparentemente contrário — a aceitação pelo ego do caminho proposto pela obra — também nos joga no mesmo labirinto em que nada é o que parece. Uma eventual admiração pela condução de uma narrativa pode ser sinal de uma consonância ideológica; a aparente reverência a um alto nível de elaboração linguística pode ser uma evidência da suscetibilidade do ego à posição do(a) autora(a) como uma autoridade do fazer literário. Quando vemos, estamos indo atrás de diferentes resenhas e análises sobre a obra, e a iluminação daquele canto do labirinto de espelhos vem de fora para dentro, de um holofote que joga luz de cima para baixo. E lá está o ego de novo conduzindo a jornada.

Para nós, como leitores, esse embate constante é inevitável. O máximo que podemos fazer talvez seja nos tornamos observadores mais atentos, e impedir o máximo possível a contaminação da leitura. Dessa forma, todo livro lido acaba meio que abrindo um caminho que se bifurca: de um lado está o autor e a maneira como pretende conduzir nosso trajeto pela obra; pelo outro vai o ego, tentando transformar nosso repertório em um labirinto de espelhos (e tantas vezes conseguindo, e nos fazendo abandonar inúmeras leituras pela metade). Ao fim do(s) caminho(s), porém, sentimos que precisamos nos integrar com a obra de alguma forma. Podemos repisar o caminho do ego que quer ser agradado e criticar enredo, linguagem e a feitura da obra como um todo usando nosso repertório como espelho (com tudo o que pode ter de distorcido e labiríntico). Ou então podemos tentar refletir sobre a jornada proposta pelo autor a partir daquilo que nosso repertório tem de melhor para nossa defesa contra o ego: sua natureza adaptável como um arquivo de informações e sensações — amplo, não-hierarquizado e em constante mutação.

O processo de leitura do romance Tudo que morde pede socorro, de Cinthia Kriemler, o primeiro depois de um hiato como leitor de ficção, naturalmente me jogou nessa mesma encruzilhada, como qualquer obra considerada com alguma atenção. A manipulação egocêntrica do repertório não demorou a tentar assumir o controle: o livro é narrado em primeira pessoa no presente, o que costuma gerar narrativas instáveis, em que os acontecimentos contados ainda não foram propriamente digeridos e racionalizados, e a sensação visada é a de um certo atordoamento. A narradora do livro, porém, apesar de descrita como uma pessoa mutilada física e emocionalmente em busca de exílio, não se mostra aturdida, pelo contrário: tem uma voz segura, que não estremece diante de situações com um potencial imenso para reviver antigos traumas. O enredo a princípio parece ser cômodo demais em termos narrativos: uma vítima de violência física e sexual que abandona um relacionamento abusivo e se volta para a cidade de origem da mãe, onde conhece novas vítimas do mesmo tipo de crime doméstico (o que leva a discussões sobre maridos violentos, cumplicidade feminina, religiosidade popular, costumes engessados, aborto, suicídio), encontra uma literatura que reflete a respeito (na forma da obra da autora feminista que é contratada para traduzir), e até escava elementos históricos da perpetuação das atrocidades em questão (que se estende desde registros sobre mulheres escravizadas da cidade no século XIX até a presença de relatos sobre abuso sexual infantil no Afeganistão). Os acontecimentos trágicos se sucedem de forma quase apressada, e são encarados pela narradora (apresentada de início como uma mulher destroçada) de forma combativa e até militante. No confuso labirinto de espelhos em que o repertório é transformado pela presença do ego, a obra chega a ganhar o aspecto de um catálogo de tragédias pautado pela timeline das redes sociais, com o tom de indignação perene que lhe é característico.

Mas em algum momento é preciso sair do labirinto do ego e buscar a jornada conforme apresentada pela autora. E o que ficou da leitura é que Tudo que morde pede socorro é uma narrativa impregnada pelo tempo. O tempo das personagens que passam pela narrativa é o da urgência, de vidas ameaçadas por turbilhões de abandono e violência. Como pessoas desprovidas de poder, seu campo de ação é mínimo, e seu prazo está sempre esgotando. E o tempo aqui também faz o papel de um evento climático invisível e subjacente à trama: parece haver um vento a arrastá-las inexoravelmente para o abismo. A trajetória da protagonista, inclusive, pode ser descrita como a de alguém que, para fugir de uma tormenta, acaba no centro de uma tempestade perfeita.

No olho do furacão, a impressão pode ser de calmaria, mas a pessoa está no meio do caos, e não vai demorar a ser sugada pela turbulência. É na verdade nesse ponto que encontramos a narradora do romance. Se ela parece incongruentemente serena, é por estar envolta pela calmaria que antecede a destruição. Se parece surpreendentemente combativa, é porque seu mundo já foi destruído e não lhe resta muito pelo que temer. Se tudo parece parece acelerado demais, e as pessoas entram e saem de sua vida como clarões de relâmpago, é porque existe um ciclone ao seu redor, levando tudo de roldão. E no fim nada poderia ser mais condizente com os nossos tempos de tragédias sucessivas e julgamentos apressados, em que o atordoamento parece generalizado e se torna tão difícil encontrar um ponto de calmaria, mesmo que seja o olho de um furacão.

Título: Tudo que morde pede socorro

Autor: Cinthia Kriemler

Editora: Patuá (2019, 164 págs.)

Alexandre Boide
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