Projeto Humanos — O podcast de storytelling como ferramenta jornalística

O designer, podcaster e professor Ivan Mizanzuk mistura, desde 2015, técnicas do jornalismo e da dramatização para divulgar histórias reais, sobre pessoas reais.

Alexandre Bueno
Nov 19, 2018 · 11 min read

Por Alexandre Bueno, David Pedra, Diego Souza, João Júnior e Victor Góis

O Trabalho Liberta. Reprodução/ Projeto Humanos

Projeto Humanos. Ao pronunciar esse nome, pode vir a nossa cabeça o título de alguma série da Netflix. Algo de memorável que nomes compostos têm. A realidade não é tão diferente. O podcast de storytelling visa, nas palavras do criador Ivan Mizanzuk, ao mesmo tempo informar e entreter. Desde 2015, Ivan usa técnicas de contação de histórias para explorar a fundo histórias reais sobre pessoas reais, navegando por fatos históricos e narrativas muito pessoais, buscando confeccionar uma teia que seja em partes iguais entretenimento e informação. Mas poderíamos considerar o Projeto Humanos uma ferramenta jornalística? Seriam os podcasts de storytelling uma resposta transmidiática ao jornalismo literário?

Foi com essas — e muitas outras — perguntas em mente que nós, cinco aspirantes a jornalistas, armados de fones de ouvido e smartphones com acesso à internet, nos propusemos a ouvir cada episódio do PH a fim de experienciá-los como espectadores das histórias, de forma que nos tornássemos íntimos com este formato midiático. A partir disso, pesquisamos sobre a história do formato de podcast no Brasil e do conceito de storytelling em suas múltiplas representações. O resultado da nossa pesquisa é esta reportagem que, além das abordagens já citadas, contém trechos das entrevistas realizadas com Ivan Mizanzuk e Diogo Braga, criador e colaborador do Projeto Humanos, respectivamente.


Ivan Mizanzuk. Foto: Reprodução/ Venâncio Filho

Graduado em Desenho Industrial — Programação Visual pela PUC-PR, com mestrado em Ciências da Religião (PUC-SP) e doutor em Tecnologia (UFTPR), Ivan é professor de História da Arte e Design na PUC-PR e UniBrasil, autor do romance Até o fim da queda, de 2015, e desde 2011 produz o AntiCast podcast voltado à história, à política e às artes — que tornou-se hoje um guarda-chuva que abriga diversos outros podcasts, dentre eles o Projeto Humanos.


Partindo de um modesto referencial teórico sobre a história do radiojornalismo e do podcast, a evolução da ferramenta no Brasil e seu potencial de narrativa e prática jornalística, uma das discussões com a qual frequentemente esbarrávamos era relativa ao conceito de infotainment — termo usado, por vezes de maneira pejorativa, para descrever os produtos midiáticos ditos soft news, que misturam informatividade e entretenimento na entrega de notícias que não possuem um caráter de urgência ou importância sumária, a exemplo de programas esportivos. Este conceito foi de suma importância à orientação de nosso olhar sobre o podcast e seu formato quasi literário de veiculação de informação.


Lili Jaffe no Programa do Jô, exibido dia 23/07/2013. Fonte: Rede Globo

Dedicamo-nos então à escuta de As Filhas da Guerra, a primeira temporada do Projeto Humanos, que estreou em agosto de 2015, cujo teaser pode ser conferido abaixo. A série, que nos serviu de base de análise para o podcast, relata em cinco episódios a história de Lili Jaffe, uma judia iugoslava que, na adolescência, experienciou na pele os horrores do Holocausto e hoje reside em São Paulo. A história já havia sido parcialmente divulgada em 2012 no livro O que os cegos estão sonhando?, de Noemi Jaffe, filha de Lili. A obra, baseada num diário escrito por Lili após seu resgate de Auschwitz, se debruça sobre os horrores da Segunda Grande Guerra dos pontos de vista de Lili, Noemi de sua filha Leda Cartum.

Imediatamente, o casamento objetivado por Ivan entre o jornalismo e a literatura transparecem pela narrativa. A dedicação à obtenção do relato o leva a empregar diversas técnicas comuns à prática jornalística. Num apartamento em São Paulo, o narrador entrevista Lili Jaffe, que oferece longos relatos sobre as situações nas quais se viu posta quando adolescente: seu passado como jovem judia na Iugoslávia, a chegada das tropas nazistas. O caminho até Auschwitz, a separação da família e a vida num campo de concentração do Terceiro Reich. A entrevista também conta com participações das filhas de Lili, Noemi e Stela.

Personagens da temporada As Filhas da Guerra. Da esquerda para a direita: Carlos Reiss, Noemi Jaffe, Filipe Figueiredo e Leda Cartum. Fotos: Reprodução/ Lucas Pfeuffer, Ninil Gonçalves e arquivos pessoais.

Outra constante do jornalismo são as entrevistas auxiliares com especialista nos temas abordados pela história, como a frequente participação, na primeira temporada, de Carlos Reiss, diretor do Museu do Holocausto em Curitiba, e posteriormente de Filipe Figueiredo, do podcast Xadrez Verbal, que oferecem excelente contextualização histórica e geopolítica do cenário europeu dos anos 40. Também são oferecidos comentários posteriores do próprio narrador como fontes de informação complementares, a fim de melhor contextualizar a linha narrativa oferecida por Lili.

Ao mesmo tempo, observamos o emprego de diversas técnicas de storytelling que envelopam o longo relato histórico numa narrativa que mantém o ouvinte entretido e emocionalmente investido. Domênica Mendes empresta sua voz ao narrar trechos do diário de Lili, reconstituindo os passos percorridos pela jovem iugoslava em sua adolescência. Trilhas sonoras acompanham as narrativas episódicas, que são construídas de forma dramatúrgica e estruturadas à semelhança das narrativas literárias ou televisivas, com três atos definidos e cliffhangers entre os episódios.


Com a possibilidade de uma viagem a Curitiba fora de questão, nosso próximo passo foi buscar uma entrevista virtual com Ivan. Através de diferentes redes sociais, buscamos contato com o podcaster com o objetivo de obtê-la — fosse ela via Skype, Hangouts ou mesmo por email. Passou-se uma semana sem que qualquer tipo de resposta chegasse até nós. Com os prazos se encurtando, já considerávamos opções de como prosseguir a investigação sem a entrevista, parte tão fundamental para o nosso entendimento do Humanos.

Quatro dias após nossa última tentativa, abro minha caixa de emails e me deparo com uma resposta.

Fala Alexandre! Tudo bom?
Cara, me manda uma mensagem no Whatsapp? Acho que talvez tenha um tempinho pra te dar uma entrevista na quarta-feira. Pode ser?
Abraço!
Ivan.

Acompanhando a resposta vinha o número de seu celular. Respirei aliviado e imediatamente comuniquei a meus colegas que havíamos conseguido a entrevista. Abri o aplicativo para adicionar o número e, para a minha surpresa, havia sido inserido num grupo chamado Entrevistas BH (a assinatura de meu email a Ivan continha meu número de telefone). Além de Ivan, participavam do grupo dois outros belo-horizontinos.

Minutos depois, o grupo recebe uma mensagem do professor, dizendo que estaria em Belo Horizonte na quinta-feira daquela semana, ofertando uma palestra e um workshop na PUC-MG — Ivan frequentemente viaja pelo país oferecendo oficinas, palestras e workshops de narrativa e storytelling em universidades e centros de ensino. Porém, chegaria à cidade no dia anterior, de forma que estaria disponível para ser entrevistado no hotel onde se hospedaria. Incrédulo diante da possibilidade, avisei meus companheiros de investigação, em especial Diego, fã e ouvinte assíduo dos podcasts.

Agendados horários individuais para os três solicitantes das entrevistas, Diego e João, munidos de um gravador e muita ansiedade, atravessaram a cidade com um entusiasmo quase paralisante. Sua primeira entrevista como jornalistas seria com um dos grandes nomes do podcast nacional.

Os dois chegam juntos ao hotel, cerca de trinta minutos até o horário marcado. Sentam-se em dois puffs em um canto do saguão. “Ele deve estar na outra entrevista”, diz Diego, enquanto manda uma mensagem para Ivan avisando que estão ali.

Após alguns minutos de conversa descompromissada, os dois se calam. Do outro lado da recepção, Ivan aparece se despedindo de outra pessoa e caminha em direção aos dois… E passa direto.

Ainda não está no horário, então vamos esperar ele ver a mensagem e vir falar com a gente”, sugere João. Mas não é necessário. “Vocês que são o Diego e o João?” pergunta a inconfundível voz de Mizanzuk que voltou ao visualizar a mensagem no celular. Os dois assentem e ele continua enquanto os cumprimenta. “Ué, que bom que já chegaram. Podemos começar então”.

Eles se direcionam para o mesmo canto do saguão do hotel onde antes esperavam, aproximam um pouco os dois puffs e posicionam o gravador mais próximo de Ivan. Diego se encarrega de realizar as perguntas, enquanto João fica responsável pelas fotos e vídeos da entrevista.

Diego Souza entrevista Ivan Mizanzuk. Fotos: João Júnior

Ivan conta sobre o processo que envolve a produção do Projeto Humanos. Segundo ele, após ter todo o material bruto (apuração, entrevistas, dramatizações, transcrições), a edição requer cerca de cinco horas de trabalho para cada quinze minutos de programa. Isso sem considerar o tempo de elaboração do roteiro, que não possui estimativa para ficar pronto. Quando perguntado se possui o próprio estúdio, ele ri: “Quem me dera”. Essa parte inteira é feita no escritório do seu apartamento, onde ele ostenta seu arsenal de equipamentos adquiridos ao longo dos vários anos como podcaster.

Para a realização do Projeto, uma série de podcasts estrangeiros foram usados como referências, tais como o This American Life e o Radiolab. Deles, o PH herdou o estilo de leitura textual do radiojornalismo americano, mais propício à narração de textos longos quando comparada à leitura cadenciada, usada com mais frequência no Brasil. Mas ele ainda se diz insatisfeito com a própria narração.

Quando é perguntado sobre o que é o Projeto Humanos, Ivan costuma responder que se trata de um documentário em formato sonoro. E apesar do audiovisual não ter sua estima, ele admite que existem conversas para levar o PH para as telas, ainda que sua participação se atenha aos bastidores. Ele também tem planos para um dia lançar uma série de livros sobre as temporadas.

Mas nem só de áudio é feito o Projeto Humanos. O site que hospeda o podcast disponibiliza a transcrição dos episódios e hiperlinks que direcionam para reportagens, páginas ou mesmo outros podcasts que estão relacionados ao tema. Uma verdadeira narrativa transmidiática visando contar cada história da forma mais completa e torná-la acessível a todas as pessoas.

Para O Caso Evandro, mais recente temporada do Humanos, foi criada uma wiki que é atualizada conforme os episódios vão sendo disponibilizados. Um trabalho que demanda bastante esforço e que demandaria ainda mais se ele não tivesse a ajuda da esposa, Anielle Casagrande, que é web designer.

A ausência de uma equipe que co-produza o programa foi uma preocupação que Mizanzuk demonstrou ter durante toda a entrevista, citando como a periodicidade, o planejamento e a produção seriam melhor ajustados caso não estivesse trabalhando sozinho. Atualmente o Projeto Humanos é produzido em formato de temporadas e por vezes entra em hiatos de intervalos muito grandes.

Após a produção de As Filhas da Guerra, Ivan chegou a fazer um recrutamento para tentar fazer do Humanos um programa mais recorrente. Inicialmente foram mais de cem interessados que, aos poucos, foram sendo cortados por meio de tarefas designadas por email. Ao fim do processo restaram treze pessoas que produziram a temporada Crônicas ao lado de Ivan. Quando chegou a hora de produzir as histórias para a terceira temporada, restavam apenas seis colaboradores.

Entrevistamos Diogo Braga, um desses colaboradores, para ouvir sua visão sobre o Projeto Humanos, o storytelling e o jornalismo. Ouça abaixo.


Quando Diego pergunta sobre o futuro do podcast no Brasil, Ivan mostra confiança. Cita o bom uso de equipe e recursos do Presidente da Semana, podcast produzido pela Folha de São Paulo. Afirma que realizações do tipo mostram que o campo só tem a melhorar e demonstra intenção de conversar com Rodrigo Vizeu, jornalista responsável pelo Presidentes, para entender como foi possível realizar esse projeto em um grande veículo nacional.

Para o Doutor Renato Essenfelder, autor do artigo Jornalismo e Subjetividade: a poética da grande reportagem, “reconhecer a dimensão narrativa do jornalismo, revendo desde seus manuais de redação mais técnicos até o ensino nas escolas de jornalismo, e aprender mais sobre ela não apenas enriquece nossa experiência como autores e leitores, mas valoriza e dignifica o próprio jornalismo”.

Contudo, no Brasil, essa é uma prática que não se dá muito intensamente. Ivan crê que a popularização do formato encontra empecilhos por demandar que o leitor invista tempo em uma leitura longa e alega que essa é uma vantagem do podcast.

No meio da resposta, Ivan se interrompe. Parece ter percebido que está deixando algo passar. Ele retoma salientando que, apesar de tudo, essa é uma prática que possui certo espaço dentro do meio jornalístico, ainda que a utilização das técnicas de storytelling não garanta a qualidade do produto ou o apreço do público.

Apesar do sucesso do Projeto Humanos e do Anticast, Ivan ainda depende de seu emprego como professor universitário para se sustentar. A melhor forma de conseguir uma renda extra é através do dinheiro adquirido com seus cursos de storytelling, que são ofertados conforme demanda popular. O dinheiro adquirido através das plataformas de financiamento coletivo é majoritariamente destinado ao próprio portal Anticast, com editores, contas profissionais no Soundcloud e servidores. Outra parte é, circunstancialmente, destinada a aquisição de equipamentos para colaboradores. O resto é o que Mizanzuk recebe como “lucro”.

Por fim, ele brinca: “Se eu fosse youtuber seria muito mais feliz. Ser podcaster é uma furada”.


Após realizarmos a escuta do Projeto Humanos em sua íntegra, analisarmos as práticas e metodologias envolvidas em sua produção e divulgação, embasados pelos referenciais teóricos adotados por nós e pela esclarecedora entrevista realizada com Ivan, compreendemos que o caráter de entretenimento fortemente presente no podcast não suprime, em momento algum, seu papel jornalístico. Diríamos, inclusive, o contrário.

Ao empregar extensa investigação, fontes especialistas de contextualização e clarificação e longas entrevistas, o podcaster mergulha fundo, semelhantemente a um jornalista investigativo, em histórias pessoais que, se não por ele, talvez pudessem não chegar ao conhecimento de seu público.

Porém, é graças às técnicas de narrativa empregadas, como a serialização e a emocionalização destas histórias pessoais através de um roteiro inteligente construído especificamente para manter o investimento emocional de seus ouvintes ao longo dos episódios, que o programa não apenas torna tais histórias fáceis de serem apreciadas e compreendidas, mas, graças à mídia exclusivamente sonora — e gratuita — na qual é veiculado, garante também acessibilidade e a possibilidade de que as narrativas sejam experimentadas numa gama muito mais ampla de oportunidades e momentos em que as mídias visuais e audiovisuais não se podem fazer presentes.

Se há uma coisa que podemos afirmar após estes cinco meses de investigação, é que o Projeto Humanos, através da inquestionável dedicação investigativa, da experiência e da atenção aos detalhes de seu criador, se tornou uma excelente plataforma para o storytelling.

E o que é, de fato, o jornalismo, senão uma profissão de contadores de histórias?


Esta reportagem foi produzida na disciplina Projetos B1–2018/2 do curso de Comunicação Social/Jornalismo da UFMG.

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