Eu, Belo Monte, Petrobras e o número 13

Em 2008, durante alguns meses, estive empregado na empresa Neoenergia, que em 2010 se tornou uma das sócias da usina hidrelétrica de Belo Monte, um dos Projetos de Aceleração do Capitalismo (PAC) devastador, idealizado pelo governo Geisel na ditadura militar, e que foi preciso dois (em um) presidentes de “esquerda” para tirá-lo do papel.

No mesmo ano, 2008, prestei concurso para a Petrobras, e fui aprovado em 13º lugar. Pedi demissão da Neoenergia antes do esquema de “pagamento de dívida eleitoral” de Belo Monte, e fui para a maior empresa brasileira à época. Parecia uma forma de viver uma vida menos capitalista. Foi no máximo uma forma de viver menos tempo dentro de um escritório. Não sou muito superticioso com o 13, mas deu praticamente tudo errado para mim durante os quase 3 anos que estive na Petrobras.

No entanto, teve uma coisa que valeu muito a pena nesta passagem pela Petrobras, e aconteceu durante os primeiros 5 meses, no programa de formação da Universidade Corporativa da empresa, na turma que levava o apelido do número da sala, 631. Olha ai o “1" e “3" novamente. Foi no curso de Geopolítica do Petróleo onde iniciou uma profunda transformação de alguém (eu) muito limitado politicamente. Sim, devo muito ao PT, embora o curso fosse bem enviesado politicamente, o que certamente foi uma estratégia pensada em Brasília. Foi graças a este curso que intensifiquei meu processo de emancipação crítica e política. Textos e autores importantes me foram apresentados.

Resultado, nas eleições de 2010, pela primeira vez não votei em candidatos do PSDB, apertei o 13 na urna eletrônica, e a primeira mulher foi eleita presidente no Brasil. Compreendi a importância histórica dos programas sociais para a população, que embora tenham iniciado na era FHC, foram Lula e Dilma quem ampliaram consideravelmente as transferência de renda, o acesso ao ensino superior, e as cotas.

Em 2011 pedi demissão da Petrobras, e com o apoio incondicional da minha amada companheira e da minha família, vim para o Canadá estudar e seguir radicalmente (na raiz) o meu processo político baseado numa profunda auto-identificação de re-existência indígena. Tem sido um processo difícil, com perdas e ganhos, mas é para a vida toda. Tenho contado com o generoso suporte do povo Anishinaabe de Chi Aangiikeyang, mais conhecida como Toronto. E também fui generosamente recebido duas vezes pelas guerreiras e guerreiros da Aldeia Maraká’nà, que, desde 2007, seguem na resistência para demarcar o território ancestral ao lado do famoso estádio da final da Copa de 1950, que o Brasil perdeu para o Uruguai, e da final da Copa de 2014, que o Brasil nem participou, pois perdera para a Alemanha na semi-final por 7 a 1 no Mineirão. Para mim, a re-ocupação do antigo museu do índio pelos integrantes da Aldeia Maraká’nà fez parte das confluencias de movimentos que deram origem às manifestaçōes de 2013. E Dilma e sua equipe optaram por seguir desdenhando a importância de Junho de 2013 e seu ‘pós’ imediato. Conseqüência, #NãoTeveCopa.

Após tudo isso, no segundo turno das eleições de 2014, não podia votar em Dilma, a presidente que deu soco na mesa em reunião com ativistas que se posicionavam contra Belo Monte. E pela primeira vez anulei meu voto.

Hoje, estou cada vez mais alinhado com as miudezas políticas proporcionadas por ações diretas, olhando para um horizonte de saidas criativas para a crise generalizada. E os movimentos de ocupações de espaços públicos, como o das escolas por secundaristas, fazem com que continue firme na utopia.
Todas decisões políticas, miudas ou macros, institucionais ou não-institucionais, precisam ser pautadas tendo como base os limites da Mãe-Terra. Por isso é impresindível ter um olhar atento para a ecologia, a cultura, a arte, e as tecnologias em direção à necessária utopia-ponte do decrescimento radical, contra os interesses do poder hegemônico que nos manipula a todo momento. As mudanças climáticas são reais aqui-e-agora, e toda matriz energética à base de combustíveis fósseis e barramentos monstruosos de rios deve ser banida. Belo Monte já é um ecocídio real e a Petrobras está sendo lavada à jato, o que, ironicamente, é o que precisava acontecer mesmo, pois todo petróleo do mundo deve permanecer debaixo da terra.

Enfim, parece que no ano em que o PT (13) completa 13 anos no poder, o Brasil se tornará a única “democracia” do mundo a ter tido dois presidentes impedidos de completar seus mandatos. E mais do que ter um partido como o PMDB no poder, os atores que o lideram hoje são os ultra-sinistros Temer, Cunha e Calheiros.

O PT paga um preço muito alto pelo poder, e não adiantaram os agrado$ (i)lícitos dados aos marqueteiros fabricantes de mentiras, aos bancos, às mineradoras, às empreiteiras e ao agronegócio. Tudo, destruindo as florestas e a biodiversidade. Todos, acelerando mais do que nunca a desigualdade social.

Além disso, nada de reforma agrária, nada de reforma política, nada de reforma tributária, nada de política econômica decrescimentista anti-aquecimento-global. E ainda conseguiram demarcar menos territórios indígenas que o PSDB. E no apagar das luzes, a presidente sancionou uma lei “antiterrorismo” que, mais do que tudo, intensificará o genocídio indígena.

O 13 “está aniquilando” o PT. Como Sonia Guajajara disse olho-no-olho para Lula – em evento pró governo na Lapa-RJ, a pedido do povo indígena no Pará, onde o rio Xingu foi violentamente barrado por Belo Monte – “são as forças das águas e da natureza que estão reagindo contra” o PT. Perderam a janela histórica dos elevadíssimos índices de aprovação para ameaçar (e não abraçar) as neo-capitanias hereditárias dos oligarcas que assaltam até hoje o território do que chamam Brasil. Eu trocaria os 13 anos (e alguns meses) de poder por 13 meses de luta contra essas oligarquias. E hoje os oligarcas podem tomar o podre (poder) e não usarão mais o PT como escudo para suas maldades. E, mesmo que Dilma não seja impedida hoje, não haverá vitória a ser comemorada, só nos restará uma coisa a fazer, como já disse Renato Russo, “celebrar a estupidez humana”.

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