O Homem-Seta

Ossos do Ofício #1

Quando Rodrigo chegou à capital, sabia que o dinheiro dado por seu pai não duraria muito tempo. Ele precisaria arrumar algum serviço para faturar um extra. Pensava em alguma coisa pequena mesmo, um bico qualquer, para fazer durante a tarde e ajudar a bancar algumas cervejinhas com os colegas que estava prestes a fazer na faculdade.

Andando pelo Centro, logo quem chamou sua atenção foi um homem-placa. Um senhorzinho daqueles que meio que veste uma placa onde lê-se, nos dois lados, “COMPRO OURO”. Era um trabalho fácil, exatamente como Rodrigo queria. Mas parecia muito chato ficar o dia inteiro ali, parado em frente a uma galeria.

Observou então os entregadores de panfletos. Esses ainda se movimentavam um pouco mais, andando de um lado pro outro e batendo um dos panfletos no bolinho com o restante para chamar a atenção dos transeuntes. Imaginou se o ritmo das batidas dos panfletos influenciava alguma coisa e fazia mais gente pegar esse ou aquele papel. Mas mesmo assim, não estava disposto a tirar essa dúvida na prática. Ainda não era o que Rodrigo queria.

E acabou que foi em um bairro emergente que ele se encontrou. Com uma série de empreendimentos em construção, Rodrigo conseguiu um emprego de homem-seta. Sua função era atrair o olhar de pedestres e motoristas para que fossem até o stand de um condomínio novo ver um apartamento decorado e, consequentemente, entrarem em uma dívida de trinta anos para comprar uma unidade. Ser homem-seta tinha toda a facilidade do ofício de homem-placa ou entregador de panfleto, mas era muito mais divertido porque Rodrigo tinha que ficar girando e rodando a seta das maneiras mais chamativas que pudesse, como jogando para o alto ou passando por baixo de uma de suas pernas. Era um desafio e, ainda por cima, um bom exercício físico.

Ele sabia que esse negócio de jogar a seta de um lado para o outro não fazia muito sentido, já que ela acabava apontando para tudo quanto é canto e não apenas para o stand da imobiliária, mas preferia não comentar com seu chefe para não correr o risco de ver sua função sendo extinta.

Rodrigo se sentia realizado como homem-seta, mas como acontece frequentemente, sua alegria durou pouco. Se antes ele passava com nariz em pé perto de homens-placa e entregadores de panfleto, sua soberba foi por água abaixo no dia em que um novo stand surgiu na rua em que ele trabalhava e Rodrigo viu o seu concorrente: um sujeito vestido de lobisomem com uma seta com bordas iluminadas em neon. Além de uma seta melhor que a sua, o cara ainda tinha uma fantasia?!

Rodrigo ficou desolado, com o ego no chão. E tudo ficou ainda pior quando o lobisomen-seta puxou um mini-system, ligou o som e começou a dançar break. Rodrigo largou sua seta no chão e foi embora. Aquilo já era covardia.

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