“Por que?!”

Ossos do Ofício #5

Não importa o quanto eu seja bem sucedido, não existe uma reunião de família ou encontro com antigos colegas de escola onde alguém não pergunte por que eu resolvi virar proctologista. E sempre fujo do assunto, porque uma resposta sempre levaria a alguma outra pergunta.

É claro que não entrei na faculdade de medicina sonhando em fazer exames de toque, e acabei nessa área apenas por ver mais oportunidades de carreira e de grana na época. Aposto que a maioria dos meus companheiros de especialização teve trajetória parecida. Ninguém passa a vida enfiando o dedo no rabo de outros caras por vocação.

Mas se tem uma coisa da qual não posso reclamar é da falta de histórias curiosas com os pacientes, sejam engraçadas ou até mesmo assustadoras. Afinal, se eu já estou numa situação estranha sendo o dedo dessa relação, imagine como é para eles, que são o cu.

Já teve um senhor, mal encarado, que entrou no meu consultório, pôs um revólver na mesa e falou:

- O negócio é o seguinte: o senhor e eu vamos ficar aqui falando de futebol por uns dez minutos. Sentados, sem essa história de tirar a calça nem de colocar dedo em lugar nenhum. Depois a gente vai sair, você vai dizer pra minha esposa que fez o exame e que está tudo certo, entendido?

Não preciso dizer que nem considerei a ideia de discordar de alguém armado, né? Esse foi o caso mais tenso para mim, mas jamais vou esquecer do paciente que mais se desesperou na minha mão, coitado. Aconteceu quando eu ainda estava em começo de carreira e trabalhava na clínica de um ex-professor.

Era uma segunda-feira. Chovia. Lembro desses detalhes porque eles ajudaram a tornar o cenário do meu paciente — vamos chamá-lo de Carlos (não lembro o nome real dele) — ainda mais tenebroso. Mesmo naquele tempo, eu já tinha visto muitos tipos de homens chegando ao consultório. Dos mais broncos e esquentadinhos, como o sujeito da arma, até os mais resignados, já acostumados a receber aquele indesejado toque a cada seis meses. Mas os piores eram os medrosos, os pacientes de primeira viagem. Ou melhor dizendo, de primeira dedada. Carlos era um desses.

Carlos entrou no consultório reticente, e precisei conversar um pouco com ele até que se sentisse à vontade, ou pelo menos mais conformado, para realizar o procedimento.

Enquanto eu colocava a luva de látex na mão direita, meu ex-professor que era dono da clínica entrou silenciosamente no consultório para ver se eu estava fazendo tudo certo. O Carlos, a essa altura em sua posição ingrata, sem calça e de bruços, nem percebeu a sua chegada.

O exame era rápido e logo o Carlos estaria vestido se recuperando do trauma. Mas mesmo lembrando a ele disso o tempo todo, não foi suficiente. Quando comecei a examiná-lo, quando pus o dedo lá, Carlos choramingou.

Para ser justo, era algo que acontecia com certa frequência, até mesmo com alguns dos valentões homofóbicos estavam sendo atendidos. Eu via os caras no momento mais vulnerável de suas vidas, pelo menos na cabeça deles. Por isso, não custava nada mostrar uma certa empatia e, sentindo pena do Carlos, dei um tapinha em seu ombro com a minha mão livre.

O problema é que, na mesma hora, meu ex-professor, proctologista experiente, mas que Carlos não fazia ideia de que também estava no consultório, sentiu a mesma onda de piedade e deu um tapinha em seu outro ombro.

Carlos soltou um gemidinho de agonia. Pois, sem saber que havia outra pessoa no consultório além de nós dois, fez as contas: uma mão dando um tapinha em seu ombro direito, outra dando um tapinha no esquerdo e algo entrando em seu cu.

O gemido na mesma hora se transformou num choro baixo e, quase sem forças, Carlos me perguntou com a voz mais infeliz do mundo:

- Por que, doutor? Por que?!

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