Em busca de Lemúria
(capitulo 1 — A carta de Pedro Teixeira)

Prólogo:
Portugal, um pequeno reino situado no extremo Sul da Europa, lançava-se à conquista dos mundos, transpondo barreiras físicas e psicológicas até então intransponíveis. A idade dos mundos fechados, dominado por medos e mitos à idade do mundo em movimento, Portugal esteve na vanguarda. Os Portugueses souberam criar e adaptar as melhores embarcações. Dominando ventos e marés, foram os primeiros a chegar a Africa, India, Brasil e Japão, formando um enorme império espalhado pelo mundo.
Destas epopeias colossais, nasceram também grandes navegadores e líderes de embarcações, cujos feitos ficaram gravados nas páginas da história Universal.
Contudo, nem sempre devemos acreditar em tudo o que lemos nos livros, por isso, deixo-vos aqui a narrativa de um grande e genial navegador, cujos feitos, nem sempre ortodoxos, são dignos da minha homenagem, pela sua coragem e mestria e bravura, que são atributos dignos de um povo genuíno como o nosso.
Alexandre cthulhu
Capitulo I — A carta de Pedro Teixeira
Tripulação:
Capitão: Alexandre O ruivo
Mestre: Joaquim
Contra mestre: Gaspar
Mestre bombardeiro/ condestável: Afonso
Piloto: Manuel
Sota Piloto: Pedro
Homem do leme: António
Homem da ampulheta: Simão
O Santo Espíritu perfurava as ondas do oceano com todas as suas velas despregadas ao altíssimo vento, à velocidade alucinante de nove nós.
A bordo seguia simplesmente a tripulação jamais temida em toda a vastidão dos mares — Os Enviados da morte.
Tratava-se de uma quadrilha de salteadores que atacavam sem pudor ou compaixão, todas e quaisquer embarcações que navegassem ao largo do seu quadrante. Eram cem homens a bordo, todos com uma folha de serviço mais suja do que as sapatilhas de um pajem.
O recrutamento para a Índia, África e Brasil era feito de um modo atroz. Cada freguesia tinha de ceder homens, que por vezes nem dez anos tinham. Havia poucos voluntários, e na falta destes, incorporavam-se pessoas de diversas ascendências: Vagabundos, criminosos, e até presidiários. A bordo, havia apenas um lugar para beliche na tolda. Marujos mais experientes, recebiam o pagamento de mil reis por mês, mais uma caixa de liberdades (*) no valor de cento e vinte mil reis.
(*) Espaço a bordo com o direito a embarcar qualquer produto, è excepção de pimenta.
Assim podem perceber de que estirpe era constituída a tripulação do Santo Espíritu. A maioria era oriunda de Portugal, tinham-se amotinado na nau que os enviara para o exílio, na Índia, por serem acusados de traição ao Rei Filipe IV a quem anteriormente tinham prestado juramento. Depois tomaram o comando do navio, seguiram um novo rumo. O mentor do motim fora Alexandre “o ruivo”, o temível capitão, que apesar de aparentar ser um lobo dos mares, ele tinha apenas… Quinze anos!
Sim, era apenas um jovem, mas tinha mais conhecimentos da arte de marear, do que o que se aprendia nas aulas do cosmógrafo Mor, de Pedro Nunes. Além disso era um terrível lutador e um excelente estratega de combate. Todos lhe tinham um respeito inquestionável.
A bordo do Santo Espíritu, era conversa corrente entre os marujos, que Alexandre possuía um mapa valioso e secreto que tinha roubado a Pedro Teixeira, e que a nau navegava por mares nunca antes navegados, com rumo a uma terra tenebrosa, povoada por seres de outro mundo, de onde ninguém sairia com vida.
O cartógrafo estava ao serviço do Rei Espanhol que na época governou Portugal, recebendo inclusivé o título de Cosmógrafo Real, em 1622.
Pedro tinha partido para a guerra, onde mais tarde viria a fizer parte de algumas tripulações de navios piratas. Com esta experiência, tornou-se um excelente cartógrafo militar e especialista em pirataria militar. Mais tarde, desenhou uma carta que continha descrições secretas, mas ultra valiosas.
Mas nem sempre a sorte estava do seu lado, e fora denunciado ao rei pelo seu próprio ajudante. Assim, teve de improvisar uma solução de forma a esconder a informação de Filipe IV. Pedro estava prestes a dar a fuga de Madrid, pois sabia que ia ser assaltado por alguém a mando do Rei, quando se gerou o tumulto que precedeu a revolução que levaria Portugal à restauração da independência espanhola. Algo que só viria a ocorrer no ano 640, mas iria trazer nefastas consequências e provavelmente o afastamento do Rei Espanhol.
Depois desses acontecimentos, nunca mais se soube dessa carta, que desaparecera de forma misteriosa da casa do cartógrafo, em Madrid.
Nenhum membro da tripulação conhecia o conteúdo do documento, mas sabiam que Alexandre perseguia algo sofisticado e altamente valioso. — Uma riqueza única, perdida algures no meio do pacífico.
A bordo, os alimentos eram distribuídos crus aos marujos e cada um tinha que se desenrascar com os seus cozinhados.
Contudo, o capitão e os homens que lhe estavam mais próximos, gostavam de repastos regados com muito vinho e guarnecidos de carnes.
As viagens eram grandes, por isso havia animais vivos a bordo. Tinham galinhas, alguns coelhos e uma xibita, de nome Chica.
Nessas ocasiões, o ruivo costumava narrar algumas epopeias que deliciavam os marinheiros do navio. Eram histórias centenárias sobre terras ancestrais, onde tinham sido erigidos grandes monumentos e outros feitos épicos, alguns deles, eram tão monumentais que se duvidava serem obra de mãos humanas.
Dessas civilizações pouco se sabia. Apenas memórias e relatos, vindas da boca dos mais antigos. Umas foram dizimadas por terramotos e dilúvios dantescos, outras sofreram, segundo diziam, “castigos divinos”. Uma dessas terras desaparecidas, era a mais extraordinária de todas, e quando ele pronunciava o seu nome, os seus olhos cintilavam como safiras — Lemúria!
(continua)