Games clássicos: como e pra quê?

Sempre gostei de listas, principalmente daquelas bem trabalhadas a ponto de tentar se criar uma metalinguagem sobre o processo de escolha, ou ainda, de alguma maneira, argumentar e justificar o porquê deste ou daquele título ter entrado/saído da dança. Quando alguém conceitua — ou tenta minimamente tenta conceituar — coisas que parecem ser “impossíveis” de ser explicadas, ou indignas, já valeu a tentativa.
Na literatura, na música, e nos games — o objeto desse artigo — sempre existiu um tipo de lista muito mais clássica que “os dez mais fortes”, “os dez mais amados”, “as dez mais gostosas”, ou “os dez tons mais cinzentos”. Uma lista muito mais clássica que lista de ingredientes para bolo de fubá.
Ela mesma, por si só, é um clássico: a clássica lista “dos mais clássicos”.
Mesmo havendo divergências, percebo certa unidade nas opiniões sobre os títulos na hora de se compor esse tipo de ranking (clássico), onde quer que sejam avaliados.
Julgar algo como clássico — ou não! — nos serve como horizonte na construção de opiniões e críticas sobre determinados objetos que apreciamos, e serve também pra falar mal deles, seja na mesa do boteco, ou na hora de trocar uma ideia mais cabeça no café da universidade.
Por conta dessa atração que tenho por análises, e por conta da atração que tenho por games, quero desenhar uma ideia bem pessoal sobre essa lista tão recorrente, algo sobre separar o trigo do joio.

Os Clássicos. Pra quê?
Para tentar estabelecer um bom instrumental de escolha, baseei-me num capítulo lido há uns anos, do livro “Por que ler os clássicos”, (edição da Cia. das Letras) do crítico e romancista italiano Ítalo Calvino, o qual teoriza sobre 14 premissas para se avaliar uma obra literária e postular o quê a torna “clássica”.

O que simplesmente fiz foi um recorte de cinco dessas proposições de Ítalo, as quais considerei serem mais produtivas e menos fechadas para a criação desse instrumento para a escolha de uma lista sobre games clássicos.
Minha proposta, então é que, para se considerar um game como “clássico”, tão somente o será apenas aquele(s) que se encaixe(m), que satisfaça(m) todas as “regras” abaixo, ou seja, não somente a 1 e a 3, ou a 1, 2, 3, e mais ou menos 4 e 25% da 5. O game deve ser contemplado por todas os 5 pontos, entendido?
Então bora lá:
1. Os games clássicos são os quais, em geral, se ouve dizer “Estou jogando novamente…”, anos, décadas, séculos (!) após seu lançamento.
Essa primeira regra é, por si mesma, autoexplicativa e indubitável. Não quero citar nomes, mas conheço pessoas, homens, entre 25 e 30 anos, barbudos, pais de família, que até hoje rodam emuladores de Atari, Master-System, Mega-Drive e Super-Nintendo em seus pcs, e jogam horas a fio títulos como Mario, Rock’n Roll Racing, Streets of Rage, Final Fight, etc.

O detalhe é que eles não estão jogando pela primeira vez. Nem pela segunda. Nem pela trigésima.
Eles jogaram esses títulos quando crianças; enquanto adolescentes, eles bebiam, transavam (alguns) e ainda continuaram jogando esses mesmos títulos; e hoje continuam fazendo ad infinitum, permanecem jogando. A diferença é que a ordem das coisas apenas se inverteu: primeiro eles jogam, depois transam, depois bebem, etc…
Temos aí um clássico!
2. Os games clássicos são aqueles que exercem uma influência particular enquanto se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória individual e coletiva, mimetizando-se no inconsciente.
Alguém pode neste exato momento questionar, “como assim, um clássico é tão clássico que fica depositado em nosso inconsciente?”
Permita-me tomar a mim como exemplo e tentar elucidar essa segunda premissa.
Descobri a série Metal Gear em 2004, quando então comprei meu Playstation 2, e o primeiro título que joguei da franquia fora Metal Gear Solid 3 Snake Eater.
Foi amor e paixão à primeira vista. Naquela ocasião, quando tinha meus 23 anos, eu não possuía maturidade suficiente (se é que tenho hoje) para se perceber um detalhe “rico” nos encontros entre The Boss e Snake, detalhe este que me veio como um soco na mente só anos mais tarde, com meus já quase 30 anos, durante as aulas de linguística e discurso.
Veja: não eram aulas de Metal Gear.
Agora perceba: o game ficou nas entranhas da minha mente, do na minha memória mais profunda, e apenas anos mais tarde, durante uma aula da faculdade, algo como um “interruptor” se acendeu em minha mente e me dei conta de um aspecto da relação entre os personagens desse clássico.
Diante disso, é fácil acreditar que determinados games ficaram para sempre na memória de um grupo, um povo, ou quem sabe um país inteiro, depositados nesse “inconsciente coletivo”.

3. Toda vez que “re-jogamos” um game clássico, descobre-se “coisas” como na primeira vez.
Esta premissa é uma ponte com a segunda. Vou exemplificar novamente para tornar as coisas mais didáticas:
Certa vez, conversava com um colega da faculdade via MSN — wtf?! — e nesse papo ele dizia que Xenogears, do Playstation one, foi o maior jogo de todos os tempos, e talvez um dos maiores em toda a história dos jogos. Sempre que ele criava um novo save game, a sua empolgação, o seu desejo, e a releitura do jogo eram renovadas e atualizadas.
Assim, ainda que você saiba de cor aquele joguinho tal, os monstros continuam assustando, ou a cena em que a namoradinha do protagonista morre continua marejando seus olhos, ou aquele diálogo entre o personagem principal e o último vilão continua arrancando ímpeto e coragem das profundezas do seu espírito.
Se assim o for, portanto, eis mais uma característica do que é um clássico.

4. O game clássico serve para definir a si próprio em relação a outros jogos, e portanto, definir o que são outros jogos.
Um game clássico convida você, sem querer, a refletir sobre demais títulos, ou mesmo sobre uma categoria em si. Serve como um objeto de comparação e análise.
A série Gran Theft Auto, por exemplo, não me agrada, mas é ponto pacífico usá-lo como fita métrica para medir esse ou aquele título, afinal, ele é um dos jogos mais jogados, citados e bem feitos da história, e isso é indiscutível.
5. Um game clássico persiste e predomina mesmo que os tempos atuais sejam incompatíveis com o próprio jogo.
Exemplo rápido, prático e sucinto: Street Fighter 4.
Enumere quantos são os “total new comers” e quantos são dos títulos mais antigos: (ex: Hakan é um verdadeiro “total new comer”, já Gouken, não. Seu background vem sido construído desde SF II em termos de desenvolvimento narrativo).
Purismos à parte, esse título é uma releitura do clássico SF II e a grande maioria dos personagens faz parte de um contexto e um discurso do finalzinho da década de 80, começo de 90, e que continuam sustentando-se por si só, sem apelar para calças apertadas, implantes nanotecnológicos, alterações drásticas na jogabilidade, etc.
Cruzem os dados agora e pensem: Guile, Honda, Ryu e cia. são rumores perenes e indissociáveis da história dos games, e por mais uma pancada de tempo serão.
Estou esperando sentado pra ver quais desses atuais personagens de MOBA se tornaram lenda como um Ryu, um Link.
Street Fighter, creio, é um clássico.
Nota: os downloads feitos da Super Street Fighter HD Remix via PSN e Live, dois meses após seu lançamento (nov 2008/jan 2009) ultrapassaram mais de 250.000. Um jogo de 1994, com uma nova plástica, mas não novas roupas ou penteados.
Mil novecentos e noventa e quatro.
Enfim
Mesmo nos consoles de última geração — tomaremos aqui como geração passada Playstation 3, Xbox 360, Wii — títulos como Gears of War, Hallo, Assassins Creed, etc., são seríssimos candidatos a entrarem nesse panteão dos clássicos.
A coisa aqui é mais pra se fazer pensar antes de sair por aí como um InFantNerd (Infantil+fan+nerd) dizendo que o “melhor jogo de todos os tempos é o da última semana” como acontece com essa tal hype acerca de qualquer “coisa” que é lançada na main stream.
Dizer você pode.
Fazer hype também.
Cada um com seus problemas.
obs: artigo publicado originalmente em http://tartarugacosmica.com.br/site/games-classicos-como-e-pra-que/