E o nosso voto? É de cabresto ou consciente?

Sobre votar em quem e no que realmente acreditamos

Hoje acordei um pouco nostálgico e dado ao fervor dos debates políticos que nós, de alguma forma, já presenciamos em todos os âmbitos da nossa vida cotidiana nesses dias anteriores às eleições. Seja em casa, no trabalho, no bar, na faculdade, e, principalmente, nas redes sociais; só se fala em política. Tudo isso é muito positivo, pois mostra que, de certa maneira, estamos desempenhando o nosso intrínseco papel no qual Aristóteles chamou de zoon politikon. E cá pra nós, nos preocuparmos com quem irá governar nosso País nos próximos quatro anos é o que há de mais urgente em nossas pautas.

Eu, menino do interior de Minas, comecei a rememorar algumas lembranças de infância das épocas eleitorais na minha pequena cidade de Capelinha. Era o tempo em que os coretos “sacudiam” (assim diziam as pessoas do partido A e do partido B). Os muros da cidade eram todos pichados com nomes e números de candidatos e, embaixo, um imperativo categórico que dizia: “vote consciente, vote em fulano de tal, nº tal, etc”.

Votar “consciente”, o que era aquilo? “É não vender o voto”, pensava comigo. Mas como alguém “venderia” esse tipo de coisa? Fui atrás e descobri que naquela época os votos eram trocados por dentaduras, eletrodomésticos, promessas de cargos comissionados para a família e todo o tipo de benesses que se possa imaginar. Há quem diga que, quando a mercadoria possuía duas partes (dentaduras, calçados, etc.), uma era entregue antes das eleições e a outra depois. Sendo assim, votar “consciente” talvez seria mais ou menos isso, ou seja, não vender o voto. Levando em conta também o modelo de desenvolvimento tipicamente agrícola ao qual a cidade se formou, há quem falava nos “votos de cabresto”, prática ao qual as pessoas eram submissas aos velhos coronéis e aos barões da elite cafeeira. E, assim sendo, votavam conforme os interesses de seus patrões sob risco de serem dispensados dos serviços domésticos ou braçais aos quais deviam suas sobrevivências. Modelo este onde vigorava a lei do mais forte e a ralé apenas seguia a procissão.


Nos dias atuais, diante do desuso da não mais estratégica coação física, continuamos ainda submetidos ao que Bourdieu denominou de violência simbólica e no qual Jessé Souza, em seu imperdível clássico “A tolice da inteligência brasileira” denominou da seguinte forma:

Não basta os endinheirados controlar todos os grandes jornais e redes de TV para legitimar seus próprios interesses. Hoje em dia esses interesses precisam ser “justificados” de modo que pareçam “razoáveis” a fim de “convencer” os que são feitos de tolos por essas falsas justificações. Os endinheirados e poderosos têm que ser inteligentes o bastante para criar uma “ciência de seus interesses […]” (Souza, p.11, 2015)

Atualmente, não estamos mais sob as miras de garruchas, pois nossa sociedade evoluiu em relação à cultura política, mas ainda continuamos sendo alvo das elites que ainda perpetuam sua hegemonia em detrimento da nossa fração enquanto trabalhadores e trabalhadoras. Ela ainda continua a nos render por meio dos diversos veículos de comunicação, nos fazendo acreditar que seus interesses são os mesmos que os nossos e, dessa forma, tomam de assalto o nosso País e as parcas migalhas que ainda nos restam. E desta forma seguimos vivendo da “caridade de quem nos detesta”.

Os poucos que controlam tudo precisam desses intelectuais e especialistas do mesmo modo que os coronéis de antigamente necessitavam de seu pequeno exército de cangaceiros. Eles são seu “exército de violência simbólica” assim como os coronéis do passado possuíam seu “exército de violência física” (Souza, p. 11, 2016).

Estamos vivenciando mais um período eleitoral, que carrega em si particularidades e elementos bastante diferentes do que aqueles das eleições de 2014. São novos interesses e, ao mesmo tempo, o País inteiro agoniza e clama por tempos melhores. Diante desse momento crucial em nossa história não é demais perguntar: E o nosso voto? É de cabresto ou consciente?


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