A Explosão Criativa dos Jogos Independentes


As pessoas um dia chegaram a definir seu legado com coisas como plantar árvores e escrever livros. A cada era da mídia, surgiram novas formas de expressão que foram sendo incorporadadas a essa idéia do legado: música, fotografia, filme, blogs e hoje, cada dia mais, video-games. O jovem que era videomaker nos anos 80 e 90 agora quer fazer seu jogo. E publicar na App, na Play, na Kindle Store.

Já está acontecendo. Os cursos de criação de jogos (game design) estão se proliferando e a produção de jogos criativos, inesperados e revolucionários vem ganhando volume nos últimos anos. Mas o que pode ser qualificado como um ponto de inflexão á a chegada às lojas americanas do Ouya, um console para a geração faça você mesmo.

Quem está acostumado com Playstation, Wii e Xbox já deve ter notado o crescimento nos últimos anos da venda de jogos e conteúdos especiais via download nas lojas digitais. Mas ali o investimento de criação é alto e o controle está sempre nas mãos de Sony, Nintendo e Microsoft. No caso do Ouya, a equação muda para um modelo mais próximo do que foi extabelecido por Apple e Google em suas app stores.

O produto foi apresentado no site de crowdfunding Kickstarter como uma idéia que precisava de US$ 950 mil para sair do papel. Arrecadou US$ 8,6 milhões e causou enorme expectativa por conta de suas características: é um console de arquitetura aberta que roda uma versão adaptada do sistema Android (disponibilizado pelo Google para rodar em celulares e tablets) e cujos games são vendidos via uma loja digital nos moldes das app stores da Apple, Google e Amazon. Em resumo, qualquer desenvolvedor capaz de criar um jogo para um celular Android poderia, com um pouco mais de trabalho, portá-lo para rodar um console Ouya. Por fim, enquanto os outros consoles custam de US$ 250 a US$ 500, o novo aparelho sai por apenas US$ 99. Uma máquina feita tanto para jogar quanto para receber jogos criados pela comunidade. E, claro, qualquer grande publisher de jogos pode colocar seus produtos no Ouya também. Desde que o console seja popular a ponto de justificar o investimento, por que não?

As mídias explodem como ferramentas criativas quando o preço de aquisição dos instrumentos básicos cai vertiginosamente e o custo de produzir os conteúdos se torna viável. Foi assim que os curtas-metragens definiram uma geração de cineastas com a chegada primeiro do Super 8 e, depois, das câmeras de vídeo. Os computadores popularizaram ao mesmo tempo diversas ferramentas criativas e a internet virou do avesso a equação da distribuição. O resultado disso pode ser conferido nos ótimos documentários Indie Game eMinecraft — The Story of of Mojang, que mostra a luta dessa turma para elevar os jogos ao patamar de arte.

Alguns gêneros que antes eram dominados por grandes empresas são hoje feitos por desenvolvedores independentes. Os games de aventura (que eram feitos brilhantemente pela Lucas Arts) marcaram jogadores nos anos 90 que estão trazendo o gênero de volta como indies. A grande indústria de video-games, enquanto isso, se concentra em jogos de tiro caríssimos, feitos por centenas de pessoas.

O resultado de escolas e fontes de informação baratas, ferramentas criativas e canais de venda e distribuição acessíveis é uma geração de jogos que não só serão criativas como consistentemente divertidos. O próximo passo? Produtos cujas fronteiras entre mídias não são mais tão claras. Vai ficar mais e mais difícil dizer se é somente um jogo, ou um filme ou um livro. Onde acaba um tipo de mídia e começa outro. Mais, mais importante, cultura pop de ponta. Feita por qualquer um que tenha uma boa idéia, força criativa e disciplina.

Veja alguns exemplos bacanas de jogos experimentais:

Argument Champion — A mecânica da argumentação é dissecada nesse jogo em que você tenta tanto conectar seu artumento a algo que a audiência gosta ou o argumento do seu oponente a algo que a audiência odeia.

Manichi — Um dos jogos experimentais mais malucos que eu já vi. É uma espécie de dia da marmota em que o personagem fica revivendo o mesmo dia com pequenas alterações.

E entre os indies mais comerciais, também existe coisa muito boa.

1. Cognition: An Erica Reed Thriller — Um sensacional jogo de aventura em episódios. Para quem gosta de investigação e mistério.

2. Resonance — Outro jogo de aventura. Aqui você controla quatro personagens na tentativa de impedir que uma tecnologia caia em mãos erradas.

3. FTL: Faster Than Light — Um simulador de nave espacial impressionante.

E, por fim, os indies mais bem sucedidos:

1. Minecraft — De uma tacada só, um criador de mundos virtuais que podem ser compartilhados em servidores abertos e uma espécie de Lego digital irresistível. Um jogo marcante que será citado por décadas.

2. Braid — Uma espécie de padrão ouro do que deveria ser um jogo indie. Música, arte e jogabilidade impecáveis.

(Publicado originalmente em 1 de julho de 2013, no site da Galileu)

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