E se a Mona Lisa fosse feita hoje?

Se Leonardo Da Vinci fosse nosso contemporâneo, exposto ao nosso universo midiático, e tivesse que decidir como criar a Mona Lisa, o que ele faria? Estamos falando de uma das obras de arte mais famosas, estudadas e discutidas da história. Um painel, uma gravura, uma instalação, uma série de vídeos no Youtube, um video-game? Ou uma tela?

Qual é a forma certa de comunicar uma mensagem? Não devia ser uma pergunta tão difícil, mas é. Em outras épocas, recebeu respostas diretas, quase sem muita reflexão. Houve tempo em que as mídias de massa foram surgindo e se alojando lado a lado como opções: teatro, livros, jornais, fotografia, gravações de áudio, cinema, rádio, TV… Elas, claro, podiam ser reinterpretadas de uma mídia para outra.

Se você olhar bem, o momento em que a ilustração (depois fotografia) saiu da parede e passou a ser uma ferramenta para contagem de histórias no meio impresso (as páginas), as fronteiras começaram a se romper. Era um salto conceitual importante.

Assim como, quando o cinema se popularizou, a questão de qual meio usar começou a atormentar dramaturgos que, antes, simplesmente pensavam suas obras para o teatro. Agora, havia uma nova opção de expressão audiovisual extremamente excitante. Por onde começar?

Note bem o salto de recompilações de algum séculos jogados em algumas linhas. Após milênios com o teatro, surgiu a impressão em série. Depois, foram criadas a fotografia (imagem estática), as gravações de áudio, as imagens em movimento (cinema). Aí, você junta imagem em movimento com sons gravados e tem o filme com som. Depois, você junta a transmissão das informações sonoras pelo ar (do rádio) com as imagens sonorizadas do cinema e tem… a TV.

As recompilações seguiram seu curso até a criação do computador. Em algumas décadas, a tecnologia digital recebeu a capacidade de interação em tempo real com o mundo exterior por meio da internet e criou-se uma máquina capaz de processar praticamente todo tipo de conteúdo e distribui-lo para qualquer lugar. Uma máquina capaz de entregar todos os meios anteriores.

Tudo que estava separado e que tinha papéis distintos ao longo do dia e da vida das pessoas começou a se recombinar internamente. Antes, se você era um jornal, um jornal você seria. No momento em que a internet e os computadores aconteceram juntos, essas verdades se desmontaram. Uma crise de identidade começou e ainda não está resolvida. A revolução deu mais uma pirueta quando tudo isso foi miniaturizado e jogado no bolso das pessoas, na forma dos smartphones.

Então, se você tem uma idéia de, digamos, uma história. Ela deveria virar um livro? Um filme? Um universo ficcional? Um conto? Uma novela de rádio? Um vídeo pro Youtube, canal pago, na TV aberta? O excesso de opções pode ser uma dádiva. Mas pode paralisar.

Em alguns casos, sua idéia pode estar em todos os lugares. Ela pode ir navegando de meio para meio e sendo reinterpretada, complementada, repetida. Em outros, ela deveria estar em apenas um ou dois meios. Saber quando fazer o que é algo valioso hoje em dia.

A Mona Lisa, por exemplo, citada lá no início deste texto, é resultado da sensibilidade de outra era. E é também de um tempo em que o artista tinha uma paleta limitada de opções. A forma como ela transbordou para o mundo foi por meio da curiosidade sobre sua origem, sua importância sendo explicadas para as pessoas. Qualquer que fosse a decisão de Da Vinci, será que a Mona Lisa conseguiria ser imortal se tivesse sido feita hoje?

A mesma questão colocada para um grande artista pode ser aplicada a coisas muito mundanas e banais como, por exemplo, uma coluna escrita em um website. Como esta aqui. Se estamos no papel, podemos discutir se a coluna não deveria ser uma história em quadrinhos, um cartum, um formato de entrevista desde que o colunista tivesse o talento para essas coisas. Mas estamos falando dos formatos que funcionam em um meio impresso. Num site, além de praticamente todas as opções do impresso, podemos adicionar formatos de audio, vídeo e interatividade. Sim. E se essa coluna virasse um podcast?

Ou podemos dizer que uma coluna poderia ser sempre um video-game semanal? Ah, video-games ainda são muito caros e trabalhosos para se encaixarem em uma coluna como essa. Mas daqui a pouco, quem sabe?

(Publicado originalmente no site da revista Galileu em dezembro de 2013)

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