Minecraft: O mundo da minha sobrinha de sete anos

Ela tem sete anos, está trocando os dentinhos da frente, curte ver desenhos na TV e brincar de boneca. Minha sobrinha adora Minecraft também. E por meses, pacientemente, ela vem construindo um mundo gigante. Eu não tinha entrado lá ainda, só tinha visto pedacinhos. Ontem, resolvi brincar com ela e o que eu vi foi… Incrível.

Minecraft faz parte de uma linhagem de video-games chamados caixas de areia (sandbox em inglês). O nome é uma alusão àqueles ambientes dos parques onde as crianças podem brincar livremente, construir e destruir castelos de areia. É um segmento importante no mundo dos games, porque por muito tempo, por limitações tecnológicas, o jogador foi obrigado a seguir um roteiro, sem muito espaço para tomar decisões. No caso de Minecraft, a simplicidade é franciscana. Não há uma história, apenas um cenário digital que pode ser totalmente modificado pelo jogador, bloco a bloco. Suas ferramentas de construção permitem que uma pessoa crie um mundo. Seu mundo. Foi desenvolvido por um grupo pequeno de programadores, sem o apoio de grandes corporações, e virou uma mania mundial. Minha sobrinha, crescida em uma família de geeks, acabou se apaixonando pelas possibilidades do jogo. Está sempre discutindo coisas que quer construir.

Você pode entrar no quarto de uma criança e dizer que mergulhou no mundo dela. Mas não é uma verdade total. Quartos são moldados pelos pais, pelos limites do dinheiro e de seus gostos pessoais. Também não é o mesmo que brincar com Lego ou com cartolina, isopor e cola. Esses materiais têm limites de tamanho, consistência, resistência, preço das peças e o próprio construtor está limitado pelo espaço disponível. E a minha sobrinha adora brincar com tudo isso também. Mas num ambiente criado no Minecraft, uma criança pode, efetivamente, fazer quase qualquer coisa. Ela pode errar, fazer de novo, apagar e reconstruir sem medo.

No Minecraft, você pode usar o modo Criativo e construir sem limites materiais. Foi o que a minha sobrinha fez. Ela foi abrindo buracos e empilhando blocos pacientemente, numa obra que ainda está longe de acabar.

Enquanto eu estava ligando o computador, baixando o programa e criando minha conta, ela construiu uma casa pra mim. Quando eu apareci no mundo dela, minha sobrinha me recebeu efusivamente. Levantou vôo e me pediu que a seguisse. Iniciamos um tour em que ela ia mostrando as coisas que construiu. “Vou te levar no metrô!”. É.

Ela entrou num canyon e me mostrou uma “mina abandonada”. Entramos por um labirinto de túneis e ela chegou a me mostrar uma espécie de quartinho que ela tinha construído lá uma vez porque tinha se perdido e não sabia como sair. Eu, metido a esperto, perguntei por que ela não tinha simplesmente cavado um buraco para cima, até achar a superfície. “E se eu passar por um rio e a água toda escorrer para a mina?”, ela me devolveu uma pergunta.

Depois de alguns minutos de hesitação, pensei que valia o risco. Comecei a abrir caminho e achamos uma caverna mais acima que nos levou a uma área nevada. Enquanto passeamos, ela fala dos materiais que funcionam melhor. Tal bloco gera construções mais bonitas neste ou naquele ambiente. E o vidro é muito legal, porque é um material transparente. Iluminação, ela logo notou, é crucial. Afinal, o mundo de Minecraft tem dia e noite. Quem não quer suas obras bem iluminadas e valorizadas quando o sol se põe? Levantamos vôo e fomos até a esfinge que ela tinha construído. Isso. Esfinge. O que você fez nas suas horas vagas mesmo?

Em 2002, escrevi aqui na Galileu sobre a ascensão dos mundos virtuais criados por pessoas comuns, numa reportagem chamada Bem-Vindo ao Meu Mundo. Naquela época, estávamos falando de algumas ferramentas de criação de mapas para jogos como Neverwinter Nights e Counter Strike e do sucesso do EverQuest. Minecraft é um fenômeno ainda mais impressionante, porque virou mais que um jogo, um movimento criativo com um “guru” chamado Markus “Notch” Persson. Milhões de pessoas criam seus mundos usando a estética brilhantemente simples do produto idealizado por Persson. É como se você recebesse uma caixa de legos infinitos e tivesse um espaço sem limites para ir construindo o que quisesse. Não por acaso, a Lego licenciou o Minecraft para criar kits.

Construir coisas é criar conteúdo também. E é fascinante ver que ferramentas como Minecraft fazem emergir novas formas de expressão que serão consumidas de formas diferentes de um filme ou um texto. Instalações digitais sem limites, servindo a quem tem a visão e a ambição. Meses atrás, um grupo de fãs usou o Minecraft para construir uma réplica de Westeros, o mundo de Game of Thrones, série da HBO. Fico imaginando o que uma geração criada com essas ferramentas vai ser capaz de fazer. Um grupo de pessoas que não conhece limites ou medo do fracasso e que entende que, quando você concebe um objeto, uma idéia, é possível torna-la real, desde que você consiga dedicar horas e horas a construir aquilo. Tijolo por tijolo.

Surge daí uma questão legítima. Quanto tempo dedicado a isso é tempo demais para uma criança de sete anos? Numa idade em que é importantíssimo mostrar as opções quase infinitas a uma criança, é preciso que ela seja exposta a coisa legais para que vá moldando suas preferências. A presença dos pais é imprescinvível para equilibrar pequenas obsessões e manter a criança em uma “dieta” saudável de atividades. É difícil também escapar de preconceitos e clichês sobre a oposição entre diversões analógicas e digitais. Mas é importante ficar atento e ajustar as coisas quando necessário.

Entrar no mundo da minha sobrinha foi algo que me deixou mais humilde, também. Por toda a minha vida, eu tenho sido o espertinho um passo à frente com o último gadget, a novidade do momento. Como antes eu só tinha brincado com Minecraft no tablet e no celular, quem estava ensinando a brincadeira era a menininha de sete anos. Me enrolei com um comando, pedi ajuda pra ela e brinquei dizendo que eu era meio “burrinho” mesmo.

Com uma mistura de condescendência e compaixão, minha sobrinha me consolou: “Que nada, tio. É que você está começando a brincar. Um dia eu também tive que ensinar tudo pro meu pai”.

(Publicado originalmente no site da revista Galileu em novembro de 2013)

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