Sobre amor e homofobia

O sol se escondeu no horizonte, e ali no gramado a mão de Kaique tocou levemente a de Marcos Vinicius. Uma onda de calor parecia percorrer seus dedos e subindo pelo braço até o peito, inundando todo o corpo do garoto naquela sensação boa. Como uma batalha vencida, Marcos envolveu seus dedos nos do amigo, que aceitou num sorriso recém aberto. E um olhar vivo, brilhante.

Sem perceber, seu nervosismo exalou numa tremedeira sutil, mas suficiente para ser percebida. Kaique riu, tentando esconder a própria ansiedade em segurança. E então aproximou-se, agachado defronte aquele rosto atraente no qual fascinara no momento em que vira a foto de Marcos no Facebook.

E os últimos raios de sol formaram sombras avermelhadas nas faces coladas pela paixão que explodia em beijo.

O coração batia forte por baixo da camiseta. Era o primeiro de Kaique, o momento que dividiria sua vida e abriria caminho para novas descobertas. Não conteve a euforia e perdeu o equilíbrio. Ambos rolaram pela grama, caindo em cima do outro e rindo como nunca.

- Quando a gente vai se ver de novo? — perguntou Kaique algum tempo depois, admirando o céu sem estrelas de São Paulo. Acariciava os cabelos emaranhados de Marcos.

- Ei, eu ainda estou aqui. — respondeu Marcos, fechando os olhos de satisfação pelo carinho.

- Mas é que eu quero te ver. Eu gostei. Sei lá.

Marcos tocou a bochecha de Kaique, sorrindo, e desceu levemente pela linha do maxilar até o queixo. Kaique corou.

- O mais rápido possível, de preferência.

E um abraço. No gramado. O tempo parado. Como se nada mais houvesse a não ser o amor que nascia. O primeiro beijo de Kaique… E o último de

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Marcos Vinicius se despediu de Kaique na catraca do metrô e saiu para andar até o ponto de ônibus. Parecia levitar enquanto percorria os quarteirões dos Jardins Paulista. A lua guiava seu caminho por entre os altos prédios da Avenida Paulista, um pouco acima de onde estava. Sorrindo à toa, deu uma espiada no totem da Estação Trianon Masp, agora distante, onde se despedira do seu pretendente.

Três vultos andavam na quadra anterior. Por via das dúvidas, acelerou o passo e atravessou a rua. Um dos rapazes assim o fez também. Parecia balançar um objeto cilíndrico. Algo meio curvo… Que refletiu na luz do poste como se fosse feito de… ferro.

Correu. Mas teve que parar quando um carro passou em alta velocidade na rua.

- Ei, bixa. — disse o rapaz no pé do ouvido de Marcos. — Tá indo pra onde?

Uma mão pousou na sua cintura, na parte de trás da calça, e cavou levemente sob o cinto até encontrar o que procurava.

- Me deixa em…

- Shhh. — sibilou o rapaz, tapando sua boca com a outra mão. — Fica quieto aí seu viadinho de merda.

Os outros dois chegaram. Em poucos instantes estavam dentro do Parque Trianon.

A luz da lua brilhou por entre as árvores, mas foi logo oprimida por uma nuvem. Por trás da nuvem, a barra de ferro atingiu a cabeça de Marcos Vinicius, que pendeu para frente. Sentia que em breve perderia a consciência. Mas não antes de sentir a última dor da sua vida, que rasgou sua alma em duas e fez descer uma lágrima de impunidade.

O sol nasceu. A cidade continuou a ser o que sempre foi. E enquanto retiravam um corpo desfigurado de um Parque no centro financeiro, um menino acordou ansioso para encontrar um amigo que conhecera há pouco tempo.