Pari cinco! Pronto, eis uma boa parte de quem sou. E olha que sem nenhum arrependimento significativo. Talvez de ter sorrido pouco quando podia sorrir muito, mas nada que me faça olhar para trás com qualquer ressentimento. Imagino que toda pessoa possui a mesma cota de energia. Todos possuímos uma quantidade fixa disponível, independentemente da era, do ano, da década. Penso que a diferença se dá, no proveito que se faz dessa energia, de quanto se busca no “armário”. Imagina que fui “mulher de um homem”, monogâmica parte significativa dos meus anos, no caso foram trinta e muitos, “amarrada” totalmente a vida do meu marido e aos meus filhos. Bem vividos. Tivemos cinco filhos que ainda hoje, consomem parte das minhas forças. Me causam preocupação pelo simples fato de eu respirar (risos). Nem sei explicar de onde vem, mas suponho que instinto materno deva ser irrenunciável. Trinta e tantos anos! Visto por uma mulher com esse tempo de vida, e não de casada, possivelmente ela dirá, baseada nos seus dias, que foram quase quatro décadas abdicando de mim mesma pela família. Olha que bobagem! Tenho quase setenta e tinha apenas dezenove anos quando engravidei e casei, nessa ordem. Hoje estou chegando nos quinze de viuvez. Me sinto jovem e bem mais sábia do que antes. Esse reconhecimento que me dou, me refiro ao título de sábia, simplesmente por gozar cada segundo da fase em que vivo. Principalmente quando começo a receber essas comparações do hoje com os meus tempos vividos. O processo de comparação que existe entre as gerações pode ser bem injusto. Parece, as vezes, desprezar contextos e principalmente escolhas.

No passado, viver em função de alguém nem sempre era uma escolha. Essa foi a vida que ganhei na minha geração. Também não fui criada pelo meu pai, todos os dias ausente, muito menos pela minha mãe que logo faleceu nos meus primeiros anos. Talvez por isso, não encarei o destino com protagonismo. As possibilidades pareciam poucas. Casar? Não casar? Titia? Independência? Veja só, que privilégio encarar a vida com ineditismo que o hoje proporciona as minhas jovens congêneres. Talvez por isso, que aproveitar o que a vida nos apresenta é antes de mais nada, a virtude mais ausente quando reflito, ao ouvir as jovens de hoje, queixarem-se da postura da sociedade e também masculina. Como assim? O machismo capaz de impactar a vida de uma mulher, vem morrendo a cada curva do tempo. Salvo é claro o crime de cárcere que independe de crenças matriarcais ou patriarcais, e sim do fato do indivíduo que faz isso, seja ele mulher ou homem, ser criminoso. Hoje o machismo mora apenas, em discursos cada dia mais solitários ou mesmo coexiste de forma velada no silêncio inseguro de muitos homens. Têm também aqueles e aquelas que desencavam o machismo o tempo todo, por vaidade, por alarde, as vezes também por zelo, bobo, mas zelo. E claro, existem as sociedades que o mantém por princípio religioso, mas isso é com eles, não vivo lá. Vivo aqui!

Entendo a confusão moral que se apresenta em mais intensidade claro, no colo das mulheres. Mas agora a questão é tempo. Ao meu ver o espaço da mulher logo será pleno. Não é do dia para a noite que a realidade muda. Muitos homens e mulheres precisam morrer, mesmo que de tempo, mas a conquista já está aceleradamente adquirida, paciência!! rsss.

Eita o tempo! Lá vamos nós pensarmos no tempo. As vezes pondero que todos os anos deveriam ser chamados por nomes diferentes. Assim como os meses, a horas, os instantes. Estes também nunca se repetem. Daí o clichê: “Cada momento é único! ” Não importa o quão relativo o tempo seja. Quer viver muito? Viva infeliz. O tempo trava quando queremos que ele passe. E voa quando surfamos na vida. Deixemos isso para os filósofos (risos). Voltando ao privilégio das jovens da atualidade, penso em como deve ser bom, mesmo com toda a informação que as cercam hoje em dia, desde do nascimento, poder errar, talvez embalada na eterna prerrogativa de que se é jovem. Recomeçar toda semana. Todo dia. Nos meus dias de juventude, pensávamos que tínhamos apenas um tiro. No máximo se, com muita sorte e estrutura familiar, dois. Deus, como somos abençoados por viver! Mesmo tentando encontrar “pelo em ovo”, como as jovens e sua eterna rebeldia repetente. No passado andar para frente não era escolha, era necessidade. Hoje acho que a juventude anda em círculos cada vez menores. São opiniões, atitudes, rebeldias que ficam se repetindo até que a juventude chega à velhice, e a fase adulta, procrastinada, se apresenta talvez no ínfimo de uma década, no máximo, antecedendo em pouco o peso do tempo. Antes, com toda certeza nossa rebeldia era muito temerosa. Temíamos muito, levávamos a vida muito mais a sério que talvez ela merecia, mas era assim. As escolhas me fizeram andar mais rápido, mastigar com mais calma cada experiência, ao ponto de agora olhar ao redor e sentir um profundo prazer em estar viva, de sorrir sozinha apenas por acordar! Que mulher louca, devem pensar! (rssss)

Às vezes me pego ponderando que a singularidade se encontra na ínfima capacidade que poucos tem de abnegação. Na sutileza. Na racionalidade sutil, simples e pura, sem a frieza matemática, mas com a emoção da descoberta altruísta. Após os anos que vivi, percebo a complexidade da vida sem misticismos, esoterismos, sem vaidades. Quem precisa ler seu signo, talvez queira de forma ingênua, driblar os caminhos traçados por si. Receber um rótulo do vento. Não querer de si o entendimento daquilo que se é. Não que a ingenuidade seja pecado, mas penso que se perde muito quando esta é uma escolha da vaidade. Parecer ingênua e não sê-la de fato. Para mim o belo está em enxergar o quão complexo pode ser pensar na vida, e ao mesmo tempo o quão simples é vivê-la, respeita-la sem os vícios do ego, sem rótulos, sem bobagens. Talvez nascer, crescer e morrer seja mesmo nosso melhor caminho, principalmente quando percebemos que a eterna juventude, mesmo etérea, encontra-se na humildade. Está em quando percebemos que o tempo não passa. Nós que optamos se morremos ou nos eternizamos…