O poder da palavra

Eu acho que era uma tarde de quarta-feira. Tava um clima daora, e minha manhã já tinha sido bem produtiva. Eu me sentia leve.
Até que a Raissa virou para mim e disse — “Alê, você vai acompanhar o Emicida em estúdio hoje, tá bem?” — Pensei, “Daora. Acho muito louca a imersão que o Emicida têm no estúdio, vamo para mais uma aula!” 
E respondi que sim, sem problemas.

No caminho, como de costume em uma conversa com esse a̶r̶r̶o̶m̶b̶a̶d̶o̶ grande amigo, começamos falando de ódio aos boy, passamos pelo vazio existencial, e quando menos demos conta estávamos falando sobre ciência aplicada.

Aí chegamos, firmeza. Gravação de um samba que tem até o Zeca Pagodinho. 
Naquele momento, eu já estava chapando em tudo que acontecia. O mano chega, faz voz, dobra, caco, coro, intonação diferente, zoeira… E tudo em menos de dez minutos. 
Só ecoava aquele pensamento na mente: 
“caraio… cê é o bichão memo hein doido?”

E é óbvio, se o assunto é a astúcia desse mano, ninguém pode ficar moscando. Assim que finalizado o samba , ele virou e falou:

— Aê Jonas, salva esse projeto que agora vou fazer uma parada aqui.

Na hora ninguém entendeu nada. O Emicida trouxe o pendrive com a base, e voltou para o aquário de gravação. Todo mundo naquela sala se olhava como se pressentisse que ia começar um tiroteio. Foi foda.

Aí ele começou…

“Camuflados na noite…”

Quem colou na gravação do DVD tá ligado.

Foto: José de Holanda

Passaram-se uns minutos, o mano terminou o verso e todo mundo estava se olhando tipo… Caraiooooo, cê viu o que ele fez mano? Ele não fez isso não. Séééloko.

Foram horas, dias e semanas, e o verso que me arrepiou na hora continuou preso na minha mente.

“E eu com um boot branco, tão branco,
Que eu chamo de elenco da Globo”

vishhhhhhhhhh


Até então firmeza, tempo passou e noiz seguiu trampando em rotinas exaustivas para que o DVD acontecesse. Todos nóiz. Até o exato momento que me deparei com o gatilho desse texto.

Eu tava na responsa do TP (aquela telinha que os artistas leem a letra, sabe?), então fiquei o show todo na ponta do palco. Vibrando e celebrando aquela noite com uma multidão de gente que nem eu. Sonhadores de todas as quebradas de SP. Era de sentir tanto, que meu coração acompanhava o BPM de cada som.

Até que chegou o grande momento.

Foto: José de Holanda

O mesmo som que ecoou nos monitores do Jonas, atravessou a ZN no carro do Moysah e principalmente permaneceu horas, dias e semanas no meu peito começou a tocar.

A reação das pessoas? É sobre essas coisas que a gente faz tudo isso. Sobre o agigantar de ser humano. As pessoas vibraram exatamente como nóiz naquele estúdio. Uma mistura de “nãaaao, ele não fez isso” com todo o delírio de ver dois pretos revolucionários no palco. Fazendo história e transformando um momento em magia.

Foto: José de Holanda

E o pensamento que ecoou na minha mente desde aquele momento foi:
Quanto pesa uma palavra? Qual o poder que ela tem?
A mesma que põe um dedo na ferida, sugere um caminho de evolução e melhoria. Ela arrepia e traz o anseio. Ela nos move.

Senhoras e senhores, eu sou suspeito para falar. Mas só posso dizer uma coisa:
Mantenham todos os olhos em nóiz. Façam isso meu amigos.

O zika voltou.

Foto: José de Holanda
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