Hoje Eu Não Tive Uma Epifania

Alexandre Sérvio
Sep 9, 2018 · 2 min read

Hoje eu não tive uma epifania. Não concluí nada de novo, não encontrei a ordem na minha vida. Não avancei o processo mental da humanidade rumo à pergunta fundamental sobre a vida ou o universo. O mesmo turbilhão em que minha mente se encontrava quando eu acordei ainda estará comigo quando eu repousar minha cabeça. Minhas ilusões, meus pesadelos continuarão me fazendo companhia; meus momentos vergonhosos não terão sido vistos sob uma nova perspectiva. A panacéia não veio.

Hoje eu não tive uma epifania: continuo não sendo o herói da minha história. Ainda sou a segunda opção dos meus amigos, meus amores. Ainda dou menos valor do que deveria a todos eles, deixo de lado quem me ladeia por todo o caminho. Não demonstro todo meu carinho. Não aprendo minha lição em três atos ou 24 episódios. Minha carta de Hogwarts nunca chegou.

Não foi hoje que eu encontrei essa tal epifania: continuo sendo idiossincrático. Me acho menos do que sou; me sinto superior a quem não sou. Me alegra o que deveria entristecer. Me aborrece o detalhezinho, a pedra no meio do caminho. Faço tempestade para depois desbravá-la. Sou vilão de mim mesmo, mas muitas vezes me derroto. A tristeza que eu carregava ontem não foi solucionada por uma conversa franca com um amigo querido. E ainda assim eu estou feliz. Não faço o mínimo sentido.

Ontem não tive epifanias, hoje estou ontem, e não há indícios de que amanhã as encontrarei. Espero há muito tempo um motivo para escrever um texto descrevendo minha jornada ao aconchego de saber meu lugar no mundo. Quem sabe assim alguém leia e me entenda. Quem sabe aí eu seja completo. Mas conscientemente eu sei que o completo não é humano.

Continuo sem ter A Epifania. Sou o cinza: às vezes tudo fica mais claro na minha cabeça, às vezes eu me sinto no limiar de uma reviravolta. Encontro mil narrativas para a minha vida, para que em seguida a vida me desminta. Em todo quebra-cabeças sempre falta uma peça, exceto pelas exceções da regra: nesses faltam duas.

Talvez a epifania que eu preciso é descobrir que eu gosto dessa confusão. Que não entender o que Nietzsche ou Hegel ou Heidegger queriam dizer é mais feliz do que ser Nietzsche ou Hegel ou Heidegger. Eu quero ficar intrigado, eu nunca quis ser o dono da verdade. Eu amo cada uma das minhas incertezas e as facadas que elas dão no meu ego. Eu vou ser feliz e depois eu serei triste para poder ser feliz de novo.

Hoje eu não tive uma epifania. Ainda bem.

    Alexandre Sérvio

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    Eu escrevo vez ou outra