P O N T O D E F U G A
Eu queria ser arquiteto. Não sei bem o porquê, nem desenhar eu sei. Só de olhar pro alto eu já tenho vertigem, essa é das últimas profissões para a qual eu nasci. É um mistério da vida o porquê eu botei isso na cabeça, mas botei, por um tempo.
Fui lá, prestei a prova, entrei na ducentésima terceira chamada. Passei vergonha, eu mesmo despreparado pra vida com um lápis e uma borracha enquanto meus colegas de prova levavam transferidor. Esse eu de hoje acha engraçado. Mas aquele menino que eu fui queria mesmo ser arquiteto, vai entender.
Eu tenho minhas teorias, talvez eu sinta nas construções que existe algo maior que eu. Como se fosse uma religiosidade concreta, que combina mais comigo. Igrejas me fascinam de uma maneira tamanha… Elas são de uma complexidade, uma beleza rara (que tem a cada esquina).
Acho que eu nem queria projetar nada. Eu só queria ler, e ver, e sentir tudo aquilo. Nossa imaginação às vezes faz cada jornada fantástica… A minha costuma dar asas de águia pra uma galinha. Na minha cabeça eu ia longe, sem esforço algum. Toda luta seria uma satisfação.
Eu penso nesse meu eu arquiteto agora, querendo olhar pra cima como profissão. Admirar as vistas de São Paulo, incorporar um prédio à paisagem. Eu penso em todos os problemas que ele ia ter… Será que ele seria um eu tão diferente? Ele passaria por quais experiências? Eu sou muito apegado a tudo o que eu passei, mas eu sou suspeito. Ele seria uma pessoa melhor?
Ele talvez tivesse mais amores, talvez pecasse menos com eles, talvez tivesse menos medo da rejeição e do ridículo ou da rotina. São mil “talvezes” que só Deus sabe. Deus, dentro das suas catedrais…
Eu amo igrejas, mas eu não sonho em me casar; eu amo pessoas mas eu não me entrego a elas. Eu sou o morno. E sabe, as minhas pernas cansam, mas eu estou aqui.
Eu não sei resposta nenhuma pra isso. Eu nem sei o porquê de começar a pôr essas insanidades em palavras. É fútil, e provavelmente é mesquinho. Mas às vezes a gente dá o primeiro passo e só nos resta seguir, até o lugar onde nossas linhas paralelas se cruzam.
