Uma ideia.
A cada nova tentativa de puxar dessa neblina do meu inconsciente uma ideia, eu passo por essa cesariana rudimentar; é tão picaresco quanto agarrar fumaça, mesmo. Nesse meu esforço de dar à luz essas sombras na parede, esses reflexos no espelho, eu me sinto pronto para uma maratona, e ainda inadequado pra caneta e papel. É um remar contra a maré no rio Esfige; mas a escolha tem a clareza que o rio não tem: é isso ou deixar uma parte de mim morrer.
Mas uma ideia nasceu, e junto o ano. As portas se abriram e eu sigo esse fluxo, acompanho a corrente. Eu conjuro uma emoção, e ela é quase tátil: é a memória dos seus beijos no banco de trás daquele táxi. Da noite terminando e das inconsequências das nossas aventuras. A nossa juventude pulsante iluminando nossos sorrisos enquanto a gente curtia o movimento do carro pelas ruas desertas.
Nada disso existe, nem o táxi, nem os beijos, tampouco a memória. Mas a emoção… Se ela não fosse real, que matéria-prima eu teria?
Eu sou feito desse mesmo material. Sou subproduto do que me vem à imaginação quando preciso de conforto. A fibra do meu ser é me observar na estrada, vendo pela janela as luzes, centenas delas, todas abstratas em minha mente. Nesse meu castelo mental, o trajeto é infinito e insignificante.
Eis o meu cerne: escapar para o meu pensamento, mergulhar num eu (que não sei se o meu ou o coletivo). E no fim voltar.
