Como é estar sozinho no palco de um genocídio?


O local de um genocídio provoca uma contrição involuntária. Você se envergonha de existir, se desculpa pelo resto da humanidade e se sente vazio. Junto disso, eu sofria uma estranha euforia, provocada pela endorfina. Havia subido sozinho, uma caminhada perigosa no gelo com escorregões e quase tombos constantes, e agora, após a maior façanha física da vida, tentava retomar o fôlego. Respirava o ar gelado. Por serem três da tarde, sabia que tinha uma hora para cair fora dali. Mas por enquanto o sol brilhava, refletido, junto com as montanhas cobertas de neve, no imenso lago à minha frente.

Estava no castelo de Van, uma fortaleza de pedra, de 1.400 anos, no topo de um morro na Anatólia, nordeste da Turquia, para uma reportagem. Ali, 80 mil armênios foram mortos pelas tropas do Império Otomano, turcos e curdos, entre 1915 e 1918. As mortes fizeram parte do genocídio armênio, cujo marco inicial completou um século na última sexta-feira. Foi no dia 24 de abril que o Império Otomano prendeu um grupo de intelectuais e jornalistas armênios em Istambul, o primeiro ato oficial da perseguição.

Nos anos seguintes um número estimado entre 650 mil e 1,5 milhão de armênios foram massacrados ou morreram de doenças depois de obrigados a marchar a pé até os campos de concentração na atual cidade de Deir ez-Zor, na Síria. Numa outra medida que mais tarde deu ideias ao nazismo, o governo baixou leis que tomavam as propriedade dos armênios e as entregava a muçulmanos.

Enquanto os armênios eram massacrados no resto do país, em Van decidiram resistir. Apesar da inferioridade de armamentos, com trincheiras e atirando de dentro do castelo, mantiveram os muçulmanos fora da cidade, sendo salvos um mês depois pela chegada das tropas da Rússia, aliada dos armênios, cristãos. Não impediram que naquele mês e nos anos seguintes quase todos os habitantes tenham sido mortos pelos otomanos e turcos e que, no fim, tenham todos sido expulsos da cidade ou obrigados a se converter à fé islâmica, mas salvaram a vida de outras 250 mil, que puderam fugir pela região.

Mesmo após 100 anos a Turquia ainda se nega a reconhecer que houve um genocídio. Admite as mortes, contestando o número (diz que foram 350 mil), mas alega que foram vítimas da dinâmica da Primeira Guerra Mundial e das vinganças de muçulmanos contra cristãos armênios e vice-versa. O governo turco usa a posição de membro da Otan, a aliança militar do Atlântico Norte, para ameaçar proibir as bases em seu território se os Estados Unidos reconhecerem o genocídio. Ainda assim, de maneira lenta, começa a rediscutir o papel do país na Primeira Guerra.

Mas a pressão armênia é cada vez mais forte. A corte europeia de Estrasburgo considera crime negar o genocídio dos armênios. O próprio Barack Obama, mesmo que hoje se recuse a fazer o mesmo, já usou a palavra “genocídio” sobre a questão armênia quando era só candidato à Casa Branca. Este ano, celebridades como a americana Kim Kardashian, descendente da diáspora armênia, exigiram que a Turquia reconheça o genocídio e se desculpe. O Brasil é um dos países que ainda se recusa a usar a palavra “genocídio” na questão armênia.

O centenário dos acontecimentos e a chance de ver preservado o local desses eventos eram o que me trazia ao topo do castelo. Depois que os armênios foram embora, os turcos decidiram construir uma nova cidade ao lado, deixando a antiga abandonada e intacta. Agora a olhava de cima. Era o único ocidental ali. Possivelmente o único esse ano todo. Mesmo conhecida como “a pérola do leste” por suas belezas e próxima do lendário Monte Ararat, onde a arca de Noé teria atracado, Van não é hoje uma atração turística. Ninguém fala inglês e há um clima hostil no ar. É um choque sair da acolhedora e turística Istambul para estar ali.

Não se trata de um monumento como Auschwitz, o campo de extermínio de judeus preservado pela Polônia após a Segunda Guerra como uma memória da barbárie. Van eliminou qualquer traço dos armênios. Mal reconhece que um dia viveram ali por 13 séculos.

A cidade hoje é parte do território dos curdos, povo que luta por um país. Florescem na região grupos terroristas como o PKK, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão, e o DHKP, que matou um promotor em Istambul em março e explodiu várias bombas no país nos últimos meses. Tudo já é tenso demais sem lembrar o passado.

Eu era um invasor. Estar em Van para contar a história dos armênios já seria fonte de problemas se alguns soubessem o que estava fazendo. Mesmo assim, com uma estranha compulsão, me pus a convencer Simone, minha mulher, de que a melhor maneira de entrar no Irã — nosso destino final — era ir de avião até uma cidade no meio do nada e lá embarcar em um trem. Excercendo seu lado aventureiro, ela aceitou.

Monumento a um gato. Achei correto

Chegamos à cidade na hora do almoço. Do taxista no aeroporto a praticamente todo mundo, não houve muitos sorrisos. Me disseram que não há mesmo muitos visitantes, por isso não deixei de simpatizar com o povo local quando o carro passou por um monumento em homenagem ao Van cat, um angorá branco e de olhos azuis surgido na região e famoso na Turquia. Quando chegamos ao hotel, um garoto, ao lado do pai, me apontou seu revólver de plástico no elevador: “Puf”, ele fez com a boca, disparando a arma. O pai sorriu.

“É melhor você ficar aqui. Volto às cinco”, prometi, deixando Simone no quarto.

Caminhei um pouco pelo centro, o amontoado de lojas comuns de qualquer local. Quando encontrei um táxi, disse o destino. Havia aprendido que Khaleesi é castelo, como o título de Daeneris Targaryen em “Game of Thrones”. Van Khaleesi então.

O castelo e o caminho coberto de neve

O táxi avançou por ruas com neve acumulada nas calçadas, percorreu algumas outras com prédios novos e vazios ou em construção, substituindo outros, derrubados por um terremoto quatro anos atrás, e, após passar ao lado de uma ponte com o formato de uma balança na lateral, seguiu por uma avenida com muitas casas em escombros.

No fim, chegamos à frente de um parque. Combinamos do taxista me esperar. Um grande painel anunciava as atrações de verão: windsurfe, vela e jetski no lago Van. Agora estava vazio. Não esperava pelo gelo. Cobria todo o caminho até o alto e circundava algumas pedras. O dia, no entanto, estava bonito. O sol brilhava. Não fazia sentido ir até ali e não subir.

O castelo é monumental. Arcos e passagens dão lugar a um pátio com vista para o lago, a cidade, as montanhas, tudo. Grande parte está fechada, impedindo a visita às inscrições deixada por visitantes em vários séculos. Há uma inscrição em sua base, feita por Xerxes, rei do Império Aquemênida, no atual Irã, que dominou parte do mundo antigo. “Eu sou Xerxes, o rei dos reis”, é como começa.

Não foi fácil, mas quinze minutos depois observava de cima as ruínas de uma mesquita e de uma igreja. No silêncio absoluto, uma bandeira da Turquia tremulava. Ainda é possível observar o caminho, vazio, das tropas invasoras e se aproximar das muralhas destruídas pelos tiros de canhão. Andar no meio dos escombros e nas ruas cobertas de vegetação na parte de baixo trouxe de volta o sentimento de culpa. Por ser humano. Por existir. Oitenta mil pessoas morreram ali. Céus…

Restava a descida, naturalmente, mais difícil do que a subida. “Você é um estúpido que veio morrer desse jeito ridículo”, dizia para mim. Por sorte, apareceu um local, que indicou como descer no gelo. Se chamava Mahmet, mas se parecia com um amigo, por isso passei a chamá-lo de Dante.

“Dante”, meu salvador curdo

O sol brilhava fraco quando cheguei de volta à entrada do parque. Dante se fora. Achava que tinha conseguido. Era só voltar. Mas o taxista havia sumido. Um homem velho e uma filha passaram por mim. Tentei me comunicar para pedir um táxi, mas ele apenas sorriu. Olhei a longa avenida e, antes de ficar noite de vez, comecei a caminhar.

Um adolescente me disse algo e ignorei.

Um carro passou com dois homens. Olhei para o banco de trás: formato de duas espingardas.

Mais ruínas. Pessoas vivendo em barracas no quintal, todas, possivelmente, vítimas do terremoto que destruiu parte da cidade há quatro anos.

Uma árvore coberta de corvos.

Quem eram aqueles curdos?

Um prédio. Parece um hotel. Me aproximo esperançoso, apesar das calçadas destruídas e dos terremos tomados de mato. É azul. Parece mesmo um hotel. Mas a recepção está vazia. Quando chego, o prédio não tem ninguém. O térreo destruído. Saqueado.

Os curdos vão voltar.

Anoiteceu.

Só meia hora depois, sem acreditar na experiência, avistei de novo a ponte. Luzes acendiam e apagavam para desenhar cada prato da balança. Foi onde a tarde terminou.

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