Minha vida como
fazedor de chuva
Nunca contei, mas quando era pequeno tinha o absoluto controle sobre as nuvens. Foi algo que se manifestou nas primeiras tardes deitado na calçada com os amigos na Penha, olhando o céu azul. Ignorávamos os conselhos dos pais de que, deitados no cimento morno, viríamos a adquirir hemorróidas e gostávamos de conversar olhando preguiçosos para o céu e ao mesmo tempo sem nos olharmos. Era uma chatice quando uma nuvem se aproximava e cobria o sol, por isso dizíamos:
- Abracadabra, Ênio.
A nuvem então se deslocava e desaparecia. Não importa quantas vezes, se fosse o caso de apenas uma nuvem numa tarde de sol, funcionava. Foi assim que descobri que controlava o clima.
Não me perguntem por que Ênio. É a informação preciosa que desapareceu. Lembro no máximo de um nome possivelmente assoprado por algum de nós. Havia o Ênio, personagem da Vila Sésamo, e talvez a sonoridade de sua nomenclatura esteja ligada à escolha dos fonemas com que se manifestava nosso poder. Mas isso nunca vou saber.
Naqueles anos exerci bastante o meu poder. Ênio, fosse quem fosse, continuou dando combate às nuvens solitárias no céu azul da zona norte. Ainda que, a bem da verdade, seus feitos não tenham passado disso, eram o bastante na época como também são agora. Eu era o Senhor do Tempo e esse título, embora certamente acabasse questionado, servia para me sentir parte de uma ordem secreta.
Outro truque eu aprendi na idade adulta, mas esse não era bem um truque. Tinha um método perfeito para administrar a gestão das chuvas de modo a não perturbar a vida de ninguém. Choveria sempre nas segundas e nas terças, uma tempestade permitida de vez em quando para dar ao clima algum prazer, mas em geral nada que transtornasse a vida de todos. Não podia acabar com a chuva de uma vez por causa dos agricultores, mas alguma regulação era necessária. Eu tinha vinte anos e ainda acreditava em controle na vida, principalmente, que na vida, assim como nas cidades, deve prevalecer a ordem.
Nas quartas, haveria um misto de tempo bom e ruim. O dia não seria tão escuro e nem as pessoas tão tristes. Nas quintas, logo de manhã surgiriam os primeiros raios de sol da semana — uma batalha com as nuvens ao longo do dia até que, finalmente, as cigarras cantariam no fim de tarde, anunciando tempo bom no dia seguinte. Na sexta, no sábado e no domingo dias típicos do verão e todos seriam felizes. O clima, no entanto, insistia em estragar meus planos e a cada fim de semana chuvoso aumentava dentro de mim a convicção de estar certo.
A grande verdade é que desde então não usei mais meus poderes. Anos atrás, durante uma semana em que a umidade foi tanta que as paredes literalmente escorriam, pensei que seria necessário, mas logo no terceiro dia um sol inclemente apareceu. Em 2012, setembro, houve duas semanas seguidas de chuvas e, tomado de melancolia, li que nos países escandinavos os governos pagam a conta de luz de todos para que as lâmpadas fiquem sempre acesas e as pessoas, menos deprimidas.
Há cinco dias chove e a previsão do tempo é de mais dez. Olho a rua pelas janelas, as pessoas que caminham incomodadas. Me sinto realmente mal em semanas assim. Penso que poderia aliviar todo mundo, principalmente a mim, mas a incerteza me domina. E se foi tudo mentira, Ênio não existe e não sobreviver ao fim da ilusão? Talvez não resistisse e saísse questionando as demais certezas, inclusive se existo. Sou feito de hesitações e meus atos, sempre incompletos.
Ainda tenho amigos de infância. Muitos se casaram e tiveram famílias e se separaram e, se não foi assim por um longo tempo, nos últimos anos nos reaproximamos. Mas noto que alguns episódios do passado parecem existir somente na minha memória, esquecidos por todos. Temo que Ênio esteja nesse lugar e quando perguntar a respeito dele ocorra o mesma reação de quando trouxe outros fatos da época à baila — todos vão me olhar como se estivesse louco e me censurar e então criticar o meu modo de vida. Eles enquanto isso agora moram com os pais.