E depois disso eles dormiram

Os dois antes costumavam ser amigos. Agora, quando se aproximaram e pediram uma cerveja, o dono do bar olhou desconfiado. Serviu a mesa e voltou para trás do balcão, vendo cada um encher a boca de salgadinhos e depois o próprio copo e então beber sem brindar.

Não era bem um bar, não havia uma porta ou mesas do lado de dentro. Era um caixote de cimento com um balcão para vender bebidas, principalmente cerveja, salgados e doces, do lado de fora. O ponto mais brilhante da praça àquela hora, O restante das casas estava tão escuro, iluminado só pela luz fraca dos postes, que podia fingir que não existiam. Passavam das onze, ele consultou no relógio. Os dois continuaram a beber tranquilamente. O céu nublado e a noite sem lua obscureciam a favela que começava logo atrás.

Pegou o dinheiro do dia no caixa. Ia começar a contar, mas notou que os dois olhavam na sua direção, então desistiu e pôs no bolso. Os três continuavam em silêncio. Podia ouvir os grilos e também de algum mosquito eventual girar em torno da sua cabeça.

Quando pediram uma segunda cerveja, acabou ouvindo o começo da conversa:

— Cara, eu não quero, mas se continuar assim, vou ter que te matar.

— Quem disse que você consegue me matar?

— Eu disse.

— Com o quê?

A arma surgiu antes que o outro pudesse reagir. Copos e garrafas voaram e se espatifaram no chão.

— Vim resolver a parada feito homem e fica querendo chinelear? Te levanta.

O que estava armado revistou o outro, que estava desarmado. Sem guardar a pistola, pegou a carteira no bolso de trás dele e, tirando de dentro duas notas, pôs em cima do balcão.

— Isso é pelo prejuízo.

O que estava armado não pareceu se importar. Continuou de cabeça baixa. O de trás bateu com a coronha da pistola nas suas costas.

— Te mexe.

Ele ficou vendo os dois se afastarem, homens se tornando sombras indistintas até que a escuridão os devorou. Ficou à espera de um tiro, que não veio. Depois de cinco minutos, foi até o lado de fora. Desmontou a mesa e as cadeiras antes de guardar dentro do bar. Recolheu também os cacos de vidro com uma pá. Foi então que avistou a carteira.

Estava caída aberta, voltada para o chão, no lugar onde o que estava armado tirou o dinheiro. Conseguia ver a ponta das outras notas. Não parecia pouco dinheiro. Ao aprumar o corpo, examinou a escuridão. Nada se mexeu em lugar algum. Exceto pelos grilos (os mosquitos deram um tempo), nada mais vivo parecia existir à sua volta. Observou um pouco mais, parado no mesmo lugar antes de voltar silencioso para o balcão. Foi quando o homenzinho apareceu.

Saído da escuridão, carregava algo na mão. Ao se aproximar notou que se tratava de uma metralhadora. Apesar de parecer andar na sua direção, primeiro o ignorou e, indo direto até a carteira, apanhou-a e botou no bolso, só depois se voltou para ele.

— Sorte tua, tio — disse e depois retornou para a escuridão.

Um cão surgiu quando terminava de fechar. Todo branco, balançou empolgado o rabo ao receber carinho na cabeça. Tentou pular na sua direção, mas o rechaçou. Depois de um instante de mágoa e confusão, o cão compreendeu e passou a apanas balançar o rabo de longe.

Dava a impressão de que iria atrás dele quando se afastou, mas depois de apenas alguns metros desistiu. Na esquina, ao olhar para trás, permanecia sentado no meio do caminho. Nada mais merecia sua atenção do que algo que se passava no quintal de uma das casas.

Um único disparo, distante, soou nessa hora.

Voltou a caminhar. Sozinho, passou pelos fundos do cemitério de inhaúma e o outro cemitério, o menor, acompanhado da orquestra de rãs e sapos que vive com os mortos do lado de dentro. O muro demorou a terminar até que finalmente começaram as casas A Rua José dos Reis também vazia. As luzes do carro da PM a toda na Linha Amarela. A sirene cada vez mais distante. Olhou o relógio, quase meia-noite.

Ele atravessou a pé o viaduto de Pilares. Na Avenida Suburbana, os carros não estavam interessados nos caminhante solitário. Passavam tão rápido que só ouvia um pedaço das músicas. Quando foi que todo mundo começou a ouvir funk?

Ao entrar em casa, ela o esperava acordada:

— Tem comida no fogão.

Jantou sozinho. Arroz, feijão, bife, farofa e salada.

— Não quer mesmo que esquente?

— Prefiro assim — respondeu.

Foram direto para a cama.

— Como foi o dia?

— Normal.

Ela o abraçou:

— Não acha que é hora de vender?

— Acho que aguento mais uma semana.

E depois disso eles dormiram.