Eduardo Cunha inaugura um orelhão

Então uma lembrança de trabalho dos anos 90.

Eu era um jovem chefe de jornal, empolgado com a minha chegada precoce ao cargo, mas todo sábado me irritava tendo de perder um repórter para cobrir a mesma pauta irrisória: o presidente da Telerj (a antiga empresa telefônica do Rio) ia inaugurar um orelhão.

Era um bairro por vez, sempre distante, sempre um lugar onde não tinha nada e centenas de pessoas apareciam para ver o presidente da Telerj, cercado pelo pior da política local, inaugurar o maldito orelhão.

Fora achar aquilo uma exploração da pobreza, comandava uma equipe pequena e um assunto irrelevante significava algo relevante não feito. Tenho até hoje flashbacks horrendos de sábados à tarde com páginas abertas em branco, mas sem nada para publicar.

O dono do jornal, todavia, exigia a cobertura. Não interessava, são as relações de interesses que atravessam o dia a dia de um jornal pequeno até hoje. Visitas de políticos são documentadas em busca de simpatias futuras e seus correligionários compravam depois uns exemplares a mais com a notícia da visita para distribuir de graça. Já no caso do presidente da Telerj, uma estatal, havia um claro plano de se tornar conhecido.

Saía sempre o mesmo texto, laudatório e irrelevante, com o tal presidente da Telerj ao lado do telefone público inaugurado.

Nome do presidente da Telerj: Eduardo Cunha.

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