vinte e poucos anos

“O jovem de hoje é vazio”. É o que minha tia sempre fala, toda vez que discute sobre a juventude e os seus problemas, suas angústias e dilemas diários. Porém, não é só ela que pensa assim e sim muita gente, de vários tipos e arquétipos que vão construindo essa imagem do jovem que se encontra naquele limiar dos quinze aos vinte e poucos anos.

Fase essa em que justamente me encontro, na transição entre o que é ser adulto e o ser despreocupado com isso tudo.

Mas, se uma coisa é verdade é a forma como nós, jovens, sempre estamos tão cheios de incertezas, preocupações e conflitos existenciais que nos fazem (re)correr à terapia, tudo com o intuito de ter alguém que possa nos ouvir, nos ajudar com os nossos dramas cotidianos. Dramas que perpassam relacionamentos amorosos, dúvidas na carreira (ou no início dela), problemas com a família e/ou preocupações com o corpo, temas esses que mais escuto em conversas de amigos e de amigos de amigos.

“Eu sou feia, não é?”, me pergunta uma garota que acabo de conhecer. Durante um período de três horas, ela faz essa mesma pergunta pra mais duas pessoas, que de forma espantosa dizem que não, que ela é linda e maravilhosa. E ela realmente é. Mas a impressão que fica é dessa necessidade de reafirmação que muitas vezes precisamos, de nos sentir amados e admirados pelos outros. O ruim é quando isso atinge níveis catastróficos e se transforma em algo doentio.

Outra coisa que me assusta é a facilidade como as pessoas têm para falar sobre os remédios que consomem, todos os antidepressivos que compraram e tantas outras medicações que, por desconhecimento meu, não consigo dominar nem a nomenclatura e nem a posologia.

Por indicação de um amigo, comecei a terapia com o intuito de me próprio conhecer, de realmente querer colocar em mesa tudo aquilo que ainda me aflige, aquilo que ainda deixa a gente mordido por dentro. Nesse tempo comecei a ver o quanto os meus problemas são pequenos quando comparados com tanta coisa de ruim no mundo, como a intolerância religiosa, a violência contra à mulher, os milhares de bolsomitos que insistem em existir e as tragédias que deixam o nosso dia mais cinza.

Ainda assim, meus problemas continuam aqui no meu peito e na minha mente.

Prestes a fazer vinte quatro anos, eu me questiono se sou uma pessoa interessante. E é nessas horas que me vejo compactuando do mesmo discurso daquela garota: “será que sou feio?”. Meus conflitos são problemas que preciso resolver para me entender. Isso é algo certo.

Isso faz de mim um jovem vazio?