A PORTA


Acordar, olhar pela porta de vidro da varanda: chuva. Abrir a porta, sentir o frio e o vento, ouvir o Milton e então se lembrar do passado. Nostalgia é um sentimento que, fazendo bem ou mal, eu gosto de manter por perto. Eu penso, penso, penso e coço a cabeça querendo achar a razão de escolher ter a nostalgia por perto. Essa nostalgia, essa saudade que me anima e me entristece não tem razão de ser nem de sumir, apenas é. A saudade é uma dor cega, tropeçando por dentro da gente.

Chronos parece um gigante feroz comendo tudo ao redor, mas ele não é um monstro estúpido. É violento, mas é também dissimulado, cínico, manipulador. Ele confunde, inebria, ilude. Volta e meia ele “vomita” lembranças bem na minha frente. Então, caminho no presente com esses “hologramas” do passado, como se estivesse entre um mundo e outro, entre universos paralelos.

Sempre que visito Cavalcante (bairro da Zona Norte do Rio, onde passei minha primeira infância) para visitar meu pai, sou acometido por essa nostalgia que ainda não consegui catalogar dentre a minha vasta coleção de nostalgias. É como se eu tivesse entrado num daqueles snow globes com miniaturas de cidades dentro. Chegar ali é mais que um deslocamento geográfico, é uma viagem no tempo, uma visita às memórias mais primárias.

Um bairro muito simples, residencial, com tênis pendurados pelos cadarços nos fios dos postes, caminhões de gás, som de trem passando, som dos sinos da igreja que batem toda tarde. É como uma sinfonia de sons e texturas. Sinto as lembranças me puxando pra dançar no meio da rua.

Aquele lugar era um mundo inteiro pra mim, um universo colossal, incomensurável. Vejo o prédio onde minha avó morava, caminho um pouco mais e vejo o prédio onde nós morávamos. Abro o portão, são poucos passos pelo pátio onde eu corria até cansar, subo as escadas e paro frente ao apartamento onde cresci. Fico alguns minutos encarando aquela porta. Moradores passam por mim e estranham, mas eu ignoro e continuo ali encarando a porta. Sinto o coração apertar no peito. Não mudou nada! Tudo está como sempre foi, só que menor. De repente um garotinho sai pela porta, acompanhado pela mãe com sua mochila e uma lancheirinha. Eles olham para mim e seguem seu caminho. Eu passo a segui-los discretamente.

Percebo como eles conversam. Existe uma leveza, uma paz. O menino corre chutando pedrinhas, esmagando folhas secas pelo caminho, sentindo-se maior do que é com os seus “kichutes” novos. Eles chegam à Escola Municipal Frei Leopoldo, uma escola primária que fica ao lado de outra escola, a Escola Municipal Espírito Santo, para crianças maiores. Os dois se despedem. O menino entra e a mãe segue para o trabalho. Eu me sento num banquinho em frente às duas escolas. Meio-dia bate o sinal e o menino, visivelmente maior sai agora da Escola Municipal Espírito Santo. Ele vai em direção ao prédio da avó passar a tarde até seus pais chegarem do trabalho. Ele adora essas tardes depois da escola. Ouvir a máquina de costura da avó funcionando a todo vapor, comprar doces depois do almoço no armazém do Saulo, ler gibis trazidos pela tia Dulce e brincar de Comandos em Ação com o Jonathan. Essa criança que saiu de manhã pela porta daquele apartamento é incorrigivelmente curiosa e observadora, mas ainda não entende muito do mundo. O mundo para ela é grande e incrivelmente misterioso, as pessoas são grandes, as ações dessas pessoas são dramaticamente impactantes e tudo o impressiona e o marca. Ele ainda não tem muitas ambições (a não ser a ambição de ser o Homem-Aranha), também não tem muitas frustrações (a não ser pelo brinquedo sem graça que veio no Kinder Ovo), nem complexos, mas a criança eventualmente cresce. Os pais se separam, algumas pessoas que ele amava demais se vão. Mudanças passam a ser uma constante. Mudança de casa, de cidade, de escola, mudança de amigos, de ambientes, de vida. A essa altura aquela criança já é uma represa de complexos e frustrações e medos bem mais palpáveis.

A incongruência entre suas questões mais íntimas e a realidade que vive estabelece uma zona de guerra dentro de si. Sexualidade, família, fé... Tudo está relativo de repente, tudo se contradiz, tudo causa medo, angústia e dor. Aquela criança que de manhã era simples de coração não existe mais a essa hora do dia. Essa criança que cresceu aprendendo crenças absolutas está agora aprendendo a desaprender. Pela experiência das porradas que levou durante o dia, ela entende que o mais coerente é aceitar as contradições e os acasos. As contradições do mundo e as suas mesmas.

Está agora apoderando-se de si, hesitando menos, se camuflando menos, se entregando mais, desbravando mais, errando mais, amando mais. Guarda, porém, muita saudade de quando saiu de casa pela manhã. Toma um ônibus, caminha pelas ruas. Cada passo uma cura. Tudo está menor, não só fisicamente. Abre o portão, caminha pelo pátio, sobe as escadas e para frente à porta de onde saiu de manhã.