É sozinho que se viaja.

Fingir quando se viaja sozinho é revigorante.

Sozinho no Farol do Fim do Mundo.

Eu não tenho certeza de quando foi a primeira vez que eu viajei sozinho.

Desde pequeno eu tive a necessidade de passar um tempo comigo mesmo, nem que fosse por algumas horas no final da tarde. O que pode soar pouco natural para quem me conhece é também verdade: eu sou tímido e introspectivo.

Acho que foi em 2002 que passei algumas semanas em Florianópolis e conheci a ilha inteira, grande parte a pé. Sim, eu pegava um ônibus, ia para alguma praia e me embrenhava por alguma trilha que dava acesso a outra praia. Muita carona peguei por lá naquela época e até hoje não sei o que se passava na minha cabeça. Ok, sejamos realistas: eu ainda não sei direito o que se passa na minha cabeça. De qualquer maneira, ir até a Lagoa do Peri e caminhar em direção à cachoeira — e desistir na metade porque faltava muito tempo, estava quente e eu já estava cansado de mim mesmo — é um exercício de autodescobrimento pelo qual qualquer pessoa deveria passar.

Mais elaborado do que isso foi o primeiro mochilão pela Europa. Alguns já leram sobre ele aqui. O ano mais feliz da minha vida por não ter nenhuma perspectiva começou com o mochilão. Mas eu não estava completamente sozinho: tinha colegas, parentes e amigos sempre por perto, ainda que não fossem as pessoas mais próximas da minha vida. O que também é bom. Às vezes tudo o que eu preciso é estar em contato com alguém que me conheceu em outra época, ficou longe, e, assim, pode me recordar de quem eu realmente sou. Não dizem por aí que a gente não muda na sua essência? Provavelmente não mude mesmo, e seja adequado de tempos em tempos alguém nos recordar de quem somos.

Semelhantes foram o segundo e o terceiro mochilões pelo mesmo continente, cada um deles com momentos bem planejados de solidão. Atravessar meia dúzia de países dentro de um trem, com a cabeça contra a janela, ouvindo música e escrevendo pensamentos em um caderno foi determinante para chegar aonde estou hoje. Veja bem, não é que eu esteja completamente satisfeito com a minha vida, mas também não posso reclamar. Resvalar no gelo e cair de bunda no chão, ficar enterrado até os ombros na neve com cara de otário por tentar tomar um atalho, afundar os pés na lama nojenta de um rio, conversar com estranhos que faziam piquenique no Trocadero.

E fingir. Fingir quando se viaja sozinho é revigorante. Ninguém me conhece, certo? Posso inventar o que eu quiser, que ninguém vai me contradizer, né? Eu posso ser brasileiro de Minas passeando pela Itália, posso ser alemão de Hessen pegando sol em Miami, posso até, se eu me esforçar bastante, ser um peregrino húngaro que se cansou do Caminho de Santiago e foi aproveitar a praia na Costa Brava. Quem é que vai tentar conversar em húngaro comigo pra me desmascarar? Então, por que não tentar? Honestidade a gente deve aos amigos. E nada disso é completamente mentira. Eu sou brasileiro, eu tenho ascendência alemã e parte da minha família originalmente veio da Hungria.

Digo tudo isso por quê? Porque em um mês eu serei um italiano bem relacionado com a máfia siciliana fugindo de inimigos em um paiseco da América Latina. E ninguém tem nada com isso.

Ciao a tutti.

Alexandre Wahl Hennigen

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Pajé, cozinheiro, nadador, atilado, alfabetizado, conselheiro, plantador de oliveiras, catador de frutas, comilão, naturista, traficante, barbudo e cabeludo.

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