Atividades Complementares

A antiga ideia de simpósio, onde amigos se reúnem de maneira informal em torno da mesa para comer e trocar conhecimento, foi abandonada pela academia atual.

É o último semestre da faculdade. Possivelmente da última faculdade que eu vou fazer. E nesse mês eu devo entregar os certificados das minhas atividades complementares.

Desde a última vez que eu fiz isso, quando estudava Medicina, eu tenho sentimentos ruins em relação às atividades complementares. Cada curso que eu já fiz tinha um critério particular sobre o que vale para complementar a minha formação.

Fato é que eu preciso entregar certificados. Alguém precisa afirmar: Alexandre esteve presente durante tantas horas no curso sobre tal assunto. Eu não preciso estar acordado, apenas presente. Eu não preciso ter entendido, preciso comparecer. Eu não preciso gostar, só tenho que fazer.

Concordo que a formação acadêmica não se dá apenas durante as disciplinas curriculares. Também estou de acordo que os alunos devem buscar mais, ir além do oferecido pela faculdade à qual estão vinculados. Mas comprovar isso tudo? É exagero. Além do mais, os critérios adotados para a validação das atividades não me parecem os mais justos.

Por exemplo, a universidade não parece se importar com a minha leitura. Eles não querem saber que eu li três livros inteiros de Bioquímica, um livro inteiro de Biologia Molecular, um livro todo de Fisiologia Humana. De capa à capa. Fora isso, eu com certeza li algumas dezenas de capítulos de outros livros didáticos de outras áreas. Se quisessem saber também eu não teria como comprovar, a não ser que me peçam pra fazer uma sustentação oral a respeito. Também não ligam para as centenas de artigos científicos que eu li nos últimos anos, mesmo sem exigência formal do ambiente acadêmico.

Além dessa leitura específica da área da saúde, a faculdade não quer saber que, desde 2013, eu tenho lido em torno de vinte livros literários por ano, além de contos e ensaios em páginas aleatórias da internet, e que muito do que eu aprendi ali pode ser usado profissionalmente. Teve também os poemas da Mary Oliver e do Reiner Maria Rilke, que, se não servirem pra minha profissão, certamente servirão pra minha existência.

Eu não posso atestar que fiz viagens para diversos lugares e conheci pessoas incríveis. Teve também aquela vez que eu resolvi passar três semanas escondido em uma praia apenas pensando sobre a minha vida e sobre o que eu deveria fazer a partir dali. Havia a possibilidade de eu largar a faculdade, que foi afastada com muita meditação durante aquele tempo. Se não fosse por isso, talvez eu nem precisasse comprovar qualquer atividade complementar.

As discussões científicas que eu tive com colegas e professores não entram como atividades complementares. Eu não posso dar um certificado de um jantar que fiz aqui em casa uma vez com minhas ex-colegas da Nutrição, com as quais eu discuti avidamente sobre evidências para o controle da quantidade de gordura na dieta. É improvável que queiram saber da vez que eu fiquei até a meia-noite falando sobre reforma curricular com uma antiga professora. Ah, teve também uma vez, num piquenique de outono, em que conversei, junto com um outro amigo, sobre o efeito do exercício físico em doenças autoimunes. E aquela vez quando eu conversei no carro, viajando pra Gramado, sobre periodização de treino com meus amigos. Ah, os brunches no final de semana, em que tudo é discutido e a troca de informações é maior do que em qualquer congresso multidisciplinar, não valem como atividade complementar. A antiga ideia de simpósio, onde amigos se reúnem de maneira informal em torno da mesa para comer e trocar conhecimento, foi abandonada pela academia atual.

Nesse último curso superior, eu aprendi que a música e o ritmo são importantes para o desenvolvimento cognitivo. Duvido que alguém de lá tenha interesse na minha playlist de músicas favoritas do Spotify.

Quando eu era adolescente, me disseram que era importante aprender línguas estrangeiras. Eu aprendi cinco. Contudo, existe um limite de cinquenta horas que eu posso aproveitar nessa modalidade. Com cinquenta horas uma pessoa não aprende nem a dizer onde estuda em outro idioma, mas esse é o limite.

Ah, quase me esqueci: minha atuação profissional. Eu vejo todos os dias no consultório o que a falta de exercício físico faz com as pessoas. Arrisco dizer que pelo menos a metade dos pacientes que eu atendo tem problemas causados pelo sedentarismo. Cada indivíduo vira um estudo de caso pra mim. Mas isso não é relevante e, mesmo que fosse, eu não poderia comprovar.

A questão é que o Ministério da Educação definiu que todos os cursos superiores devem ter uma carga horária mínima de atividades complementares, e os alunos precisam se virar pra conseguir elas, preferencialmente depois de terem entrado no curso. O que aconteceu antes não existiu e tudo precisa ser validado.

Definitivamente: última faculdade que eu vou fazer.

Alexandre Wahl Hennigen

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Pajé, cozinheiro, nadador, atilado, alfabetizado, conselheiro, plantador de oliveiras, catador de frutas, comilão, naturista, traficante, barbudo e cabeludo.

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