Sobre dentes-de-leão e bicos de pato

“Fique atento aos detalhes”, dizia meu pai durante nossas caminhadas. “A imensidão do mundo pode se revelar de uma hora para a outra quando você sabe em que direção deve olhar”. Essas palavras não desapareceram da minha memória apesar da distância dos anos que me separam delas.
Poucas pessoas habitavam aquelas cercanias da igrejinha. Vivíamos sozinhos numa casa de dois cômodos e um banheiro, modesta e limpa. Móveis de madeira ocupavam o combinado de sala e cozinha onde eu dormia. Nenhum quadro enfeitava as paredes, apenas um crucifixo com nosso senhor pendurado em perturbadora expressão de agonia. Os raios de sol despontavam e, como não havia cortinas, eu despertava.
Meu pai era o próximo. Vinha fazer o café. Ainda no leito improvisado com cobertores sobre o sofá, eu ouvia deitado o barulho da água fervendo na panela e sentia o odor do pó que se transformaria em líquido preto e amargo no filtro de pano. Tão preto como eu. Tinha oito anos e, além de preto, era um pouco burro ou muito inocente para a idade. Não que isso me atrapalhasse. A burrice normalmente só incomoda os outros, a cor também, especialmente quando se é o único diferente da alemoada que, semelhante ao meu pai, caracterizava a população do vilarejo.
Talvez por isso não quisesse que eu fosse à escola. Dizia que por lá eu não aprenderia nada de útil. Hoje vejo que tinha razão: conhecimento formal não me fez falta até o final da adolescência. O que eu precisava aprender sobre o mundo ele me ensinava em casa quando retornava do seu trabalho de jardineiro da paróquia. Além das lições teóricas, saíamos para o descobrimento. Se na escola eu aprenderia pouco, entre paredes tampouco minha idiotice iria se transformar em inteligência.
Na primeira vez em que saímos a passear pelos morros ao redor da casa pastoral, o verão havia recém começado. Cactáceas brotavam suas flores delicadas que contrastavam com seus caules vulgares e espinhentos pelos caminhos arenosos até o cume. Essas foram as primeiras plantas cujo nome eu aprendi. Depois vieram as enormes coníferas, as gramíneas, as orquídeas e as minhas favoritas: os dentes-de-leão.
– Pai, eu nunca vi tantos mosquitos antes.
– Não são mosquitos, Horácio. Este campo está cheio de dentes-de-leão. São ervas que, depois de darem flores amarelas, soltam essas sementes pálidas que vão para longe.
– Mas como elas saem voando se não têm asas? — perguntei consternado. Para mim apenas pássaros podiam voar, obviamente porque tinham asas.
– Elas são leves o bastante para o vento levá-las embora — respondeu-me com sua voz sempre tranquila.
Cheio de cuidado, ele arrancou uma delas do chão e colocou-a em frente ao meu rosto:
– Sopra!
Soprei, e as sementes desprenderam-se e viajaram com leveza até onde eu não as podia mais acompanhar com os olhos do rosto, só com os do pensamento. Ao ver que o observava, meu pai afugentou da sua cabeça as lembranças trazidas pela cena e continuou falando:
– Elas se agarram a qualquer pedaço de terra, brotam, e crescem ali mesmo. São muito resistentes. Por isso se chamam dentes-de-leão.
Ainda não me deparei com um leão, mas já sei que seus dentes são afiados e fortes, tanto quanto o bico dos patos. Em outra das excursões, fui levado a um lago que existe além dos morros. Foi num final de semana, quando meu pai não estava trabalhando, e caminhamos por horas. Nem sempre íamos lado a lado. Eu gostava de explorar o mundo e andar pelos caminhos mais estreitos. Junto conosco chegou uma revoada de patos que aterrissaram na superfície do lago e puseram-se a pescoçar a água pra comer os peixes.
– Eles devem estar famintos depois da viagem. — observou meu pai, já esperando minha pergunta.
– De onde eles vieram?
– Creio que da América do Norte. Lá é inverno. Eles fogem do frio vindo para o sul. Como o verão está começando aqui, eles devem ter saído de lá há poucos meses, quando ainda era outono. Quando o outono chegar aqui, eles vão embora.
– Como eles sabem o caminho?
– Todos os animais conhecem ao menos uma forma de voltar para casa. Lembra quando esquecemos de amarrar o pangaré do pastor, e ele desapareceu durante a noite? Poucos dias depois ele voltou. Todos os seres gostam de ter liberdade para ir embora.
– Mas os patos voam! Não existe um caminho no céu! O céu é todo aberto! — desafiei.
– Horácio, Horácio… Não é porque você não enxerga um caminho que ele não existe. Lembra quando estudávamos Geografia e lemos que a Terra é um grande ímã com um polo norte e um polo sul? — ele me perguntou, olhando lá de cima para o meu rosto ali embaixo.
– Sim. É assim que funcionam as bússolas. — respondi, recordando a imagem do livro que comparava o globo com uma barra de metal imensa.
– Exatamente. Esses polos formam o campo magnético. É como se a Terra fosse envolvida por uma rede invisível. Os patos conseguem sentir essa rede e navegar por ela. Assim eles não se perdem: basta que sigam sempre a mesma corda.
Permanecemos nas redondezas do lago até o sol ensaiar o seu pôr. Conheci líquens que cresciam sobre as rochas. Vitórias-régias que, pasmem, não precisam de terra para sobreviver, basta-lhes a água, por mais desacompanhada que esteja. Compreendi que a água também tem um ciclo: é aquecida, sobe ao céu, forma as nuvens e volta a cair na terra quando é resfriada. Depois da chuva, nasciam os cogumelos no gramado. Mais tarde os biólogos decidiriam que os cogumelos não seriam vegetais, mas fungos. Para tudo existe uma classificação que eu na época desconhecia embora já me englobasse.
Quando a brisa começou a soprar, meu velho começou a falar sobre as massas de ar e como elas alteram o clima de cada região. O mesmo ar que se movia para espalhar as sementes dos dentes-de-leão. O ar que carregava o pólen para fecundar as flores. Aquele ar que também carregava as bactérias, diminutos organismos que podem conviver conosco ou viver às nossas custas.
Foram elas que, quando eu tinha dezessete anos, romperam nossa rotina, trazendo-lhe mal estar e tosse, aquela de pobre, que persiste e incomoda, mas não impede de trabalhar até ser tarde demais. Quando ele não conseguia mais se levantar da cama, coube a mim a tarefa de fazer o café. O pastor visitava-nos diariamente para saber da sua saúde e fazer companhia. Numa das ocasiões, quando a preocupação foi maior, trouxe um médico do vilarejo. Ele foi assertivo no prognóstico: não teria cura nem melhora.
Nossa última conversa girou em torno da minha mãe:
– Por onde ela anda? — enfim eu quis saber.
– Ah, Horácio… Sua mãe é como um dente-de-leão depois que as sementes se depreendem.
Após o falecimento, o pastor promoveu minha mudança para a cidade. Dizia que aquele fim de mundo não era lugar para jovens. Arranjou-me um emprego de jardineiro em uma igreja da capital, próxima a qual eu segui meus estudos numa escola de verdade. Tomei gosto. Entrei para a universidade onde sigo dando aulas e hoje observo da janela do escritório o lago do parque além da rua. Devo isso a meu pai, cuja vontade de ensinar foi tão forte quanto o bico de um pato.