Train of Thought

Eles vão estar sempre lá, o problema é quando a gente entra neles e se deixa levar para algum lugar sem conseguir descer.

Às vezes eu tenho dificuldade pra dormir porque fico pensando em um monte de bobagem que eu preciso fazer ou resolver. Eu não vou me levantar da cama pra fazer nada disso à meia-noite, afinal de contas, tem coisas que eu estou postergando há dois meses, seria muito otimismo ou amadorismo achar que eu resolveria tudo ou algo na madrugada de sábado.

Algumas dessas pendências nem dependem de mim, e seria de pouca polidez entrar em contato com os responsáveis nesse horário. Apesar de estar entre a geração X e os Millenials, eu ainda sou educado e respeito alguns protocolos.

Lembrei então do que um amigo me falou sobre pensamentos serem como trens em uma estação. Eles vão estar sempre lá, o problema é quando a gente entra neles e se deixa levar para algum lugar sem conseguir descer. Pior ainda é tentar contrariar todas as leis da física e subir em todos os trens ao mesmo tempo e ficar pulando de um pro outro. Se até Indiana Jones já se machucou fazendo isso, não sou eu que vou ter sucesso, ainda mais com a minha coordenação.

Solução: sentar-se num banco confortável no meio da estação e ver os trens chegando e partindo. Não se levantar, apenas admirar a paisagem e os trens. Vamos para St. Pancras então, de onde saem trens de Londres pra tudo que é lugar. Imaginar a estação. OK. Passar as catracas. OK. Sentar num banco de um café na frente das plataformas. OK. Pedir uma Orangina pro garçom do café. OK. Apagar as pessoas da estação pra elas não se meterem nos pensamentos. OK.

Trem com destino à conta de luz que eu esqueci de pagar. Olha ele lá esperando que eu embarque. Vai sair em dois minutos. Eu posso entrar no site da companhia de energia elétrica amanhã e pegar a segunda via. Partiu.

Na plataforma ao lado tem um expresso com vagão restaurante com destino ao futuro acadêmico. Faz quase quinze anos que eu entro nesse trem e fico saltando de um vagão pro outro durante a noite. Hoje ele vai embora sem mim. A comida nem é tão boa lá dentro, e a viagem que era pra ser expressa sempre vira pinga-pinga, parando em qualquer povoado pra largar gente chata e barulhenta.

Plataforma três: aquele tapete puxado há dois anos. Hoje não é dia de planejar vingança. É dia de dormir. Vingança é um prato que se come frio, tem tempo pra planejar, e se eu levar tempo o bastante talvez nem precise fazer nada. Gente tosca se dá mal sem ajuda.

Plataforma quatro: chegou um trem cheio de traumas de infância. Eles estão desembarcando e vindo na minha direção. Baixa a cabeça. Toma um gole de Orangina e finge que não é contigo. Esse trem era pra ser só de ida, não de volta. Eu já estou tão diferente hoje que eles nem vão me reconhecer. Dito e feito, passaram reto por mim.

Plataforma cinco: uma ida lenta e tumultuada ao supermercado pra fazer compras. Tá faltando leite em casa. Eu preciso comprar mais Ovomaltine. Sempre me esqueço. O mercado não está aberto agora, e eu posso almoçar fora amanhã. De fome não vou morrer.

A plataforma seis tá bem longe de mim, mas eu vejo no placar que vai sair um trem pro meu próximo emprego. Tá na hora de mudar de vida, mas pode ser que dê tudo errado no meio do caminho. E eu tenho alguns compromissos profissionais até o Carnaval. Vamos pensar nisso depois da praia e do bronzeado.

Voltou na plataforma três o trem da vida acadêmica. O maquinista tá tocando o apito. Dessa vez eu nem comprei a passagem. Vão ter que ir embora sem mim mesmo.

Já tá vindo o sono. Vou procurar um hotel aqui perto. Eu já dormi numa estação ferroviária, e não foi legal. Amanhã vou tomar sol no Hyde Park. Vai ser um dia bom.