Você quer conhecer a minha arte?

Além de ser vista, a arte quer ser sentida.

Henri Matisse — Dança I

Após o episódio em que o Santander Cultural, motivado por um grupo conservador que se diz defensor da liberdade, resolveu fechar uma exposição de arte em Porto Alegre, opiniões contra e a favor dessa atitude invadiram a mídia e as redes sociais. Através disso, pôde-se perceber como o conceito de arte é diferente para cada um e como grande parte da gente nunca parou para pensar sobre o que a arte representa para si.

Muita gente ignora a função da arte, reduzindo-a a consumo. É aquilo que pode ser comprado e levado para casa como objeto de decoração ou ostentação. É caridade feita com um menino que pinta azulejos na beira da praia ou com um senhor que desenha caricaturas no meio da rua. Isso pode ser arte, mas arte não é só isso.

É uma pena, mas não sou estudioso do assunto. Gostaria de ser. Quem sabe um dia eu tenha o embasamento necessário para me expressar da maneira adequada. Enquanto isso não acontece, vou jogar a carta do amadorismo e pedir desculpas antecipadas pelos meus erros nesse texto. Do pouco que eu aprendi a respeito, a definição de arte foi mudando ao longo da história até chegar à indefinição que é hoje. Pode servir a uma função ou ser inútil. Pode provocar questionamentos, revoltas, ou apenas divertir. Pode ser cara ou barata. Pode ser perene ou temporária. Simples ou rebuscada. Uma mesma obra pode ter significados diferentes para cada pessoa que a enxerga, gerando admiração ou repúdio, pelo que é ou pelo que tenta representar.

O que a arte não pode é ser negada, especialmente quando ela ousa. Quando um grupo nega a arte e tenta impedir a sua exibição para outras pessoas, julgando seu caráter como impróprio, está demonstrando sua ignorância. Se uma obra tem função, ela certamente ultrapassa o conformismo e o mero agrado. Seu significado deve ser procurado além da imagem, além das cores e das formas presentes no seu exterior.

Isso exige exercício de atenção.

Acredito que a maior parte das pessoas que protestaram contra a mostra do Santander Cultural tenham viajado para outros lugares do mundo. É provável que tenham ido a museus famosos, talvez tenham foto ao lado da Monalisa, depois de posarem junto às pirâmides do Louvre. Quem sabe tenham apreciado Guernica por pelo menos dez minutos, mesmo sem saber que é uma mensagem de despeito à ditadura de Franco e a destruição da Guerra. Se tiverem ido na exposição fotográfica de Sebastião Salgado, que ficou por semanas em Porto Alegre há alguns anos, teriam visto como a humanidade vive de forma diferente em cada lugar do planeta, como seus costumes e suas verdades podem ser diversas.

Saindo da arte e indo para o dia a dia, os defensores da liberdade devem ter percebido que existe pedofilia e prostituição infantil na Avenida Farrapos, que há travestis na Borges de Medeiros, que existem crianças com trejeitos dissociados do seu sexo biológico na escola dos seus filhos, que a iniciação sexual de alguns jovens no interior se dá com o gado. Devem ter visto tudo isso e virado a cara, sem deixarem-se tocar pela realidade do outro, preferindo o conforto da sua ignorância. A realidade alheia tocou-lhes apenas quando foi montada uma exposição na sua pacata cidade, que de pacata não tem nada, já que tudo isso acontece nela. Da próxima vez que reclamarem da violência, lembrem que não existe forma melhor de chamar atenção para os seus causadores do que através da arte.

Eu não me sinto em condições de fazer nenhum pedido, mas vou pedir assim mesmo. Da próxima vez que forem a um museu, seja aqui em Porto Alegre ou em Nova York, olhem as obras com atenção. Tentem ir além da dicotomia “gostei e não gostei” e fugir da desculpa “não entendo de arte, mas sei do que gosto” ou do binômio “isso é feio, isso é bonito”. Leiam a etiqueta que fala sobre o artista. Verifiquem o ano em que foi feita, tentem relacionar com o momento histórico. Perguntem pra alguém “o que você acha disso?” e depois perguntem “por que você acha isso?”.

Além de ser vista, a arte quer ser sentida. Se você não a entende, não tem problema. Eu não entendo você e não me importo que saia na rua.

Alexandre Wahl Hennigen

Written by

Pajé, cozinheiro, nadador, atilado, alfabetizado, conselheiro, plantador de oliveiras, catador de frutas, comilão, naturista, traficante, barbudo e cabeludo.

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