Foto: https://singularityurome.com/

A tal da singularidade que tanto dizem, e que muitos temem, não é algo que devemos nos preocupar ou vislumbrar como realidade próxima, apesar das previsões do Ray Kurzweil em seu livro The Singularity Is Near: When Humans Transcend Biology.

Há um outro processo que já está fazendo parte da nossa realidade neste momento, no momento em que cientistas da computação ainda vislumbram a prematura evolução da consciência artificial. Enquanto a IA dá seus pitacos iniciais somente num futuro distante poderemos realmente levar a sério a confusão entre homem e máquina.

O Turing ainda pode descansar tranquilo até uma máquina realmente nos causar uma confusão mental sobre sua natureza humana.

Por que digo isso? Quem sou eu para ir contra o Ray Kurzweil?

Após ler a sua principal obra sobre o tema, How to Create a Mind: The Secret of Human Thought Revealed, ele aponta os princípios da chegada da singularidade, e até conjectura uma possível data em que o processamento das máquinas irá se igualar ao processamento cerebral. No entanto, após ler Homo Deus: A Brief History of Tomorrow, do Yuval Noah, pude ver outra perspectiva totalmente diferente e impactante de como vemos a relação homem-máquina muito mais próxima da nossa realidade atual e um futuro breve.

A inteligência está se separando da consciência

O fenômeno que de fato está acontecendo é a separação da inteligência da consciência, e isto sim está dando o poder às máquinas de realizar tarefas cada vez mais inteligentes. A era da automação mecânica controlada por computador está dando espaço para a interferência da inteligência artificial no nosso dia a dia, tornando a inteligência como um produto.

A inteligência como serviço

O que diferencia nossa inteligência das máquinas? Antes de responder, pense se o que você iria colocar na mesa como resposta é algo que realmente faz parte da inteligência, ou talvez seja um processo separado que chamamos de consciente. Precisamos antes de mais nada diferenciar inteligência de consciência e assim poderemos enxergar a inteligência como algo que as máquinas e a computação está se utilizando para favorecer não só nossas tarefas do dia a dia, como também tomar decisões inteligentes sem necessariamente estarem conscientes.

Estamos separando a inteligência da consciência e a máquina está cada vez mais inteligente neste aspecto, e até mais inteligente que nós. Ainda temos o fator consciência que dá uma imprevisibilidade e flexibilidade maior a nossa inteligência, mas em termos de capacidade de processamento ficamos para trás.

A inteligência de um serviço que nos diz o melhor caminho a percorrer numa estrada está interligado com outros serviços, e desta forma as máquinas sabem muito mais do que temos a capacidade de absorver num intervalo de tempo. Ela pode consultar todas as rotas possíveis e dados estatísticos do passado e “prever” o futuro pra dizer onde é o melhor caminho. No fim a gente toma a decisão consciente, mas já não precisamos mais usar tanto assim nossa inteligência.

O domínio das máquinas já está presente nestes casos e apesar de sermos ainda o dono da consciência, já existe na prática serviços em que contamos mais com a inteligência artificial do que com nós mesmos.

No fim não importa se o Deep Blue não é inteligente o suficiente para fazer outra coisa além de jogar Xadrez, ele cumpriu seu objetivo de vencer um humano, pois foi “treinado” para isto, e cada vez mais o machine learning vem tomando conta do processo de decisão e fazendo com que o humano tome apenas a decisão final. Os dados e dicas se originam das máquinas e não precisamos gastar mais nossos recursos cerebrais para isto.

O ser humano usa bastante de sua inteligência e lógica para jogar Xadrez e foi derrotado por uma máquina não consicente, capaz de processar muito mais informações que ele. Foto: Alexandre Magno

Pensando neste novo ponto de vista e colocando ele como foco, o que é mais valioso, a consciência ou a inteligência?

Num futuro não muito distante, como a sociedade vai agir e se adaptar e se governar quando os algoritmos cada vez mais inteligentes e interconectados nos conhecerem melhor?

O cenário aqui não é a máquina se rebelar e passar a questionar de forma consciente nossas ações, mas como o homo sapiens vai agir diante do domínio dos dados sobre nossas decisões ao ponto de conseguir nosso domínio sem mesmo precisar de uma consciência. A nossa própria consciência já fez por si só o trabalho de depositar a confiança na era digital.

foto: http://bit.ly/2y3qha9