O violino no rock: apontamentos para uma playlist

Alex Antunes
Aug 29, 2018 · 11 min read
(sobre foto de Eddie Jobson)

Meu primeiro contato com o violino num contexto pop, ainda criança, foi com os belgas do Wallace Collection, que em 1970 fizeram uma apresentação muito empolgante no V Festival Internacional da Canção. Dividindo minha fascinação com “BR3”, a “Who Can Tell Me My Name” do quinteto incluía dois músicos eruditos nos violinos, Raymond Vincent e Sergio Ghazarian (que tinha substituído o fundador Jacques Namotte), mas com uma performance bastante vigorosa, como se vê neste vídeo. Eu não tinha a noção de que o grupo tinha sido influenciado pelos arranjos de cordas dos Beatles, e que seu hit “Daydream” era baseado em trechos de Tchaikovsky. A novidade em relação aos Beatles é que o grupo belga usava violino e cello, depois o violino alto de Ghazarian, como instrumentos solistas, junto à guitarra, baixo, bateria e piano. Antecipando assim em uns dois anos a Electric Light Orchestra, e ao tempo em que os grupos menos conhecidos It’s A Beautiful Day (com David Laflamme) e East Of Eden (com Dave Arbus, o mesmo que depois gravaria em “Baba O’Riley”, do Who) também davam protagonismo ao instrumento. Uma nota de pé de página é a aparição do violinista erudito Ivry Gitlis sendo assombrado por Yoko Ono no Rock And Roll Circus dos Stones, em 1968.

Num Death Disco Machine anterior eu acabei deixando de fora uma faixa do violinista Walter Steading, da cena no wave de Nova York, que foi para os bônus da playlist do programa. Em função do instrumento de Walter, não muito usual no rock, comecei a lembrar dos usos de violinos e violas, com suas ressonâncias clássicas e étnicas, na música elétrica. O primeiro nome que vem à mente é o do grande John Cale, que já no Velvet Underground, em 1966, tinha a viola em seu arsenal. Cale é um multiinstrumenista de treinamento erudito, e certamente a viola chamava a atenção no contexto de uma música decadentista, provocativa e experimental do grupo. Um outro precursor no violino no rock é Simon House, lembrado como uma das várias idiossincrasias do grupo de space rock Hawkwind. Mas, antes do Hawkwind, House esteve na Third Ear Band e no High Tide. No primeiro disco dessa banda, também de 1969, como o do Wallace Collection, há a surpreendente faixa instrumental “Death Warmed Up”, num enfoque já bem mais agressivo.

Com sua presença anterior no jazz e no folk, desde as primeiras décadas do século 20, por extensão o violino começou a ter um papel maior no jazz rock e no progressivo, atingindo seu ápice com os instrumentos eletrificados de Jean-Luc Ponty, como o que ele ajudou a desenvolver com a Barcus-Berry (um barítono elétrico). Esse músico francês, de origem no jazz e com passagens com Zappa e com a Mahavishnu Orchestra de John McLaughlin, fez grande sucesso com sua própria banda em meados dos anos 1970. De Ponty, mestre da combinação entre truques habilidosos de execução e processamentos eletrônicos, escolhi para a playlist uma faixa de sua fase intermediária, do ótimo álbum ao vivo de 1979, chamada “Egocentric Molecules”. Outros nomes franceses do instrumento são o veterano Stéphane Grapelli, do Hot Club de France, ao lado de Django Reinhardt, e Didier Lockwood (bom artista da fusion). Grapelli tem uma história interessante com o rock: gravou na suíte “Shine On You Crazy Diamond”, do Pink Floyd, em 1975, mas sua contribuição acabou não sendo utilizada (o que me lembra um pouco a história do trumpete de Miles descartado do Album, do PiL). Essas gravações alternativas só viriam a público nesta década.

Pinçando algumas faixas dessa ascendente da popularidade do instrumento, indico “Birds of Fire”, do álbum homônimo de 1973 da Mahavishnu Orchestra, que tinha entre seus membros originais o violinista Jerry Goodman. Goodman vinha do The Flock, da escola americana do violino roqueiro, entre o progressivo, o hard e o folk, que inclui bandas como o Kansas e os Dixie Drags. Mas McLaughlin, um dos discípulos prediletos de Miles Davis, concebia uma relação mais conceitual entre a guitarra e a sonoridade fluida e flexível do violino — simbiose que está presente em outras músicas do gênero, como o improviso “Alta Loma Five Till Nine”, do grupo italiano Premiata Forneria Marconi (co o violinista Mauro Pagani), de um álbum gravado ao vivo nos EUA em 1974. Ou, para citar outra banda italiana, o Arti+Mestieri (com Giovanni Vigliar), de “Mirafiori”. Ainda nesse território, uma das grandes bandas do prog mais experimental, o Van der Graaf Generator, não costumava ter o violino entre seus instrumentos. Mas, em seu disco de 1977, com um David Hammill já sob um certo impacto do punk, volta à banda o baixista Nick Potter, e estreia o violinista Graham Smith, que tem origem no folk e na música erudita escocesa, e que é o co-compositor da faixa “Cat’s Eye — Yellow Fever (Running)”.

Também o Soft Machine traz um violinista, Rick Sanders (que depois integraria o grupo folk Fairport Convention) em um único álbum oficial, Alive And Well — Recorded In Paris, de 1978. A faixa “Huffin” é um daqueles ostinatos obsessivos que Karl Jenkins trouxe para o Soft Machine da linguagem do Nucleus. Outra banda essencial do prog mais experimental, o Gentle Giant, também tinha um de seus músicos, Ray Shulman, se alternando entre guitarras, baixos e o violino. Outros nomes ainda a serem citado são o de Darrl Way, do Curved Air; de Urban Blitz (Geoffrey Hickman), dos Doctors Of Madness; do argentino Jorge Pinchevsky, que depois de uma carreira local foi para a Europa, onde tocou com o Gong; e do canadense Nash The Slash (Jeff Plewman), vindo do grupo prog FM, e cuja carreira se estendeu anos 1980 adiante, incluindo colaborações com Gary Numan.

O UK foi a última formação importante da fase original do rock progressivo, durando até a virada da década de 1980. Foi formado por músicos do King Crimson, que também se notabilizou por uma fase com a presença do violinista David Cross. Na sua banda seguinte, a cozinha do Crimson, Bill Bruford e John Wetton, buscou o violino (além dos teclados) de Eddie Jobson, um músico muito interessante, que tinha tocado, entre outras bandas, com o Roxy Music. Na gravação ao vivo de “Caesar’s Palace Blues”. de 1979, Bruford já tinha sido substituído pelo baterista Terry Bozzio, que vinha da banda de Frank Zappa e montaria o grupo new wave Missing Persons. Curiosamente, o guitarrista Allan Holdsworth, que também passou pelo UK, usa brevemente um violino em seu primeiro disco solo; assim como o tecladista Manito, no Brasil, no primeiro disco do Som Nosso De Cada Dia.

Voltando um pouco no tempo, o quarteto clássico do King Crimson, nos anos 70, com Robert Fripp, Wetton, Bruford e o violinista David Cross, expandida pelo percussionista Jamie Muir no primeiro álbum de sua trilogia, Larks’ Tongues In Aspic, de 1973 — é um caso à parte. Ainda que sob o rótulo do progressivo, algumas peças se aproximam do que seria um “free rock”, bastante ousado e atemporal. A música “The Talking Drum”, daquele álbum, que tem um longo solo de violino, hipnoticamente entremeado com os outros instrumentos, é um dos momentos memoráveis do prog setentista. David Cross esteve recentemente no Brasil, tocando com Stick Men (de outro baixista do Crimson, Tony Levin) e com a banda nacional Dialeto, lançando o disco desta dedicado a adaptações de Bartok para o rock. Acabou registrando com eles um álbum ao vivo, onde além do repertório do disco anterior tocam músicas do King Crimson e uma composição da carreira solo de Cross, “Tonk” (1997), originalmente cantada por Peter Hammill. É interessante notar que a trindade mais radical do prog: Crimson, VDGG, Gentle Giant, passou pelo instrumento. Mas é na primeira banda que ele achou sua expressão mais sutil e inusitada (Cross conta que, na intimidade dos ensaios, o próprio Wetton arranhava um violino, coisa pouco sabida pelo público).

Frank Zappa, que eu mencionei, além de ter trabalhado com Ponty, e com o britânico Jobson, também teve em seu grupo de luminares o violinista americano Don “Sugar Cane” Harris, de acento blues. Do Harris solo, há uma versão simpática e encorpada de “Eleanor Rigby”. Já em 1979, Zappa produziu e lançou por seu próprio selo um disco do violinista indiano Shankar. É um disco estranho, que dispara em várias direções, desde sons zappeanos mais típicos até uma espécie de disco-rock, e o lamento sexy de “Touh Me There” (letra de poucas frases do próprio Zappa, cantada por uma voz feminina). Como é estranha, aliás, a própria carreira de Shankar, possivelmente o único homem que convenceu a ECM a lançar uma faixa com bateria eletrônica (em outro álbum solo seu). Shankar (com seu instrumento de dois braços) é lembrado pelos belos arranjos de cordas do disco Porcupine, do Echo and The Bunnymen, aquele do hit “The Cutter”, em que sua colaboração é essencial. Parente apenas indireto de Ravi, e irmão de outro importante violinista de fusões indianas, o Dr. L. Subramaniam, Shankar também tocou, entre outros, com McLaughlin e Peter Gabriel.

As bandas de McLaughlin, aliás, são outro celeiro de violinistas. Goodman, Ponty, Shankar, e Steve Kindler, de formação erudita. Esse seguiu o tecladista Jan Hammer no pós-Mahavishnu, vindo a duelar com Jeff Beck quando esse foi acompanhado pelo Jan Hammer Group. Um destaque deles é “Magical Dog”, Também é de Hammer a belíssima composição “”Thorn Of A White Rose”, de um disco de 1976 do saxofonista Charlie Mariano, em que o violino é tocado por Zbigniew Seifert. Seifert, e Michał Urbaniak, são os dois grandes nomes do violino fusion polonês. Bastante precoce no uso de processamentos eletrônicos em seu instrumento, chega a ser chocante o contraste entre o uso que ele faz do ring modulator com os timbres mais conservadores dos teclados de Wojciech Karolak em “Mollowe Koty (Minor Cats)” (do trio Urbaniak, Karolak & Bartkowski, Podróż Na Południe, 1973).

Dentro de sua formação multimídia, Laurie Anderson tem na execução do violino um de seus suportes musicais. Não deixa de estar conectada com o uso do violino elétrico na música erudita contemporânea — a peça de Charles Wuorinen “Concerto for Amplified Violin and Orchestra” já tinha causado um certo revuliço em seu lançamento, em 1972. Mas, em seu enfoque conceitual (sua primeira peça musical foi composta para buzinas de carros) ela criou uma performance em que o arco do violino era substituído por uma fita magnética, que passada na cabeça de leitura instalada no instrumento deixava ouvir uma gravação. Não deixa de ser uma espécie de versão cabeçuda do scratch executado pelos DJs. Mas, ao substituir esse componente de gravador por um dispositivo MIDI, ela antecipou uma possibilidade tecnológica hoje usual (a Zeta, com quem ela trabalhou seu instrumento, tem um modelo de violino comercializado com saída MIDI). Guardei uma peça de Laurie, sua primeira faixa lançada em disco, “Time To Go” (1977) para outro programa temático.

Luca Kézdy

Isso nos chama a questão da presença feminina no instrumento. Um nome notável presença é da canadense Lili Haydn, que já foi chamada por George Clinton de “Hendrix do violino”. Com uma extensa carreira como instrumentista de estúdio, executa a parte que era do guitarrista Eddie Hazel na faixa “Maggot Brain”, do Funkadelic, numa gravação de seu disco de 2008 — ela que, já em 1995, tinha gravado no Funckronomicon de Bill Laswell, álbum que homenageia Hazel e Hendrix. O Santa Diver é o trio de jazz da violinista húngara Luca Kézdy, que chamou minha atenção, inicialmente, tocando com o grupo de fusion de Janos Varga. Luca também já colaborou com artistas da cena soul, fusion e eletrônica. A faixa “Darko”, da qual fiz um edit, extraída do álbum do Santa Diver lançado em dezembro último, mostra a originalidade da linguagem da violinista e do grupo. Já o Hana Piranha, quarteto londrino de indie rock, tem à frente a cantora e vocalista Hana Maria. Ela tem chamado a atenção por ter entrado recentemente na vaga de violinista da extravagante banda de art rock Birdeatsbaby. Mas em seu próprio grupo, na sensacional faixa “Thin Air”, do seu EP de estréia de 2013, Hana faz seu grupo soar como uma espécie de Hole movido a violino.

O violino ganhou nas últimas décadas uma dimensão mais pop, com ídolos como o violinista Nigel Kennedy, que tem um viés mais erudito, mas colaborou com figuras como Kate Bush e o Talk Talk, e a chinesa Vanessa Mae, de certa forma violin stars de que Ponty foi o protótipo. No pós-punk, o violino teve uma presença na cena pós-punk com nomes (além do já citado Walter Steading, que teve uma breve colaboração com Robert Fripp na estada desse em Nova York) como o de Billy Currie e Blaine Reininger. O britânico Ultravox e o Tuxedomoon, de São Francisco, suas respectivas bandas, são duas formações das mais interessantes ao longo dos anos 1980. No caso da primeira, o tecladista Currie também usava o violino em algumas músicas — no nosso primeiro programa, sobre “punk progressivo”, falávamos como Currie brincava com o fato de, por tocar esse instrumento, ser um dos principais alvos das cusparadas da plateia nos inícios do Ultravox! (ainda com um ponto de exclamação), no final dos anos 1970. E de como, pressionado, buscou uma execução e uma timbrística agressivas.

No caso dos americanos, o multiinstrumentista e compositor Blaine Reininger, que tem no violino o seu instrumento principal, certamente se tornou, com a banda e em sua carreira-solo, uma referência nesse instrumento na década de 1980. Do Ultravox, destaco “The Wild, The Beautiful and The Damned”, música de 1977, de seu primeiro álbum, produzido por Brian Eno. E do Tuxedomoon, destaco a magnífica “Courante Marocaine”, de 1982. Nessa música de influência marroquina, a banda combina como sempre a bateria eletrônica e um baixo “duro” com melodias bastante sinuosas. E, e no caso específico, a original combinação de violino e uma levada de clavinete, o teclado característico do funk e da disco. Nas músicas da cena britânica oitentista que usavam eventualmente um violino no arranjo (Siouxsie, Soft Cell, Sex Gang Children, Peter Murphy, Coil, Nick Cave, Psychic TV, Bryan Ferry) era recorrente o nome de Gini Ball como convidada. Casada com Dave Ball do Soft Cell, cujo nome passou a usar em 1984 (antes assinava Gini Hewes), uma de suas gravações mais tocantes é a de “Love Lasts Forever”, dos Virgin Prunes. Nick Cave, acrescente-se, encontraria depois uma de suas parcerias mais consistentes com outro violinista, o australiano Warren Ellis (que se tornaria seu colega de Bad Seeds e Grinderman, e de composições em dupla). Um último nome interessante da cena pós-punk é o do japonês Akira Mitake, do Ippu-Do (incluí uma faixa dele na playlist de artistas japoneses, volume 1).

E chegamos assim à fase da música eletrônica. Para encerrarmos este painel, vamos ao violinista franco-argelino Djamel Ben Yelles. Esse colaborador de Jane Birkin chegou a se apresentar com ela no Brasil, em 2008. E era o encarregado, com um seu número instrumental, “She Left Home”, de fazer o intervalo em que ela trocava de roupa, no meio do show, com sua sonoridade pungente. De seu duo dance Djam and Fam, que fazia uma espécie de house-raï, vem a faixa “Msamha”, de 1997. Para acabar, quando estava procurando uma faixa climática do Can em que o guitarrista Michael Karoli usa o violino, como fazia às vezes, a magnífica “Animal Waves”, do álbum Saw Delight (1977), lembrei que ela tinha sido emulada pelo produtor de techno de Detroit Carl Craig, em seu projeto electrojazzy Innerzone Orchestra. Trata-se de “Blakula” (aparentemente um apelido do próprio Craig), para a qual ele convidou o violinista Michael Smith, da cena de vanguarda de Detroit. É com a intrigante “Blakula” que eu encerro esta seleta — do violino na música elétrica.

Death Disco Machine (ouça a playlist aqui)

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