A América Escondida

"Hidden Figures" foi esnobado no Oscar por sua maior qualidade: mostrar a América que a atual geração de Hollywood quer esconder

Mary Jackson (Janelle Monáe), Katherine Johnson (Taraji P. Henson) e Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) em "Hidden Figures"

Em tempos de Oscar aparelhado politicamente, mais preocupado em lacrar do que festejar a indústria do cinema, o grande vencedor do ano foi Moonlight, aplaudido pela crítica pela temática LGBT mas que só aparece no 100º lugar de público entre os lançamentos dos últimos 12 meses. É o Oscar premiando o que interessa ao Oscar.

A chance de um filme patriota, baseado em fatos reais, sobre três negras americanas que venceram por mérito, inteligência e trabalho duro, é zero. Como se não fosse politicamente incorreto o suficiente, Hidden Figures (“Estrelas Além do Tempo” no Brasil) ainda mostra que talento, responsabilidade individual, família, justiça, prudência, fé, temperança e resiliência são armas mais poderosas que a violência. Mesmo bastante premiado em outros festivais, no Oscar não levou nem prêmios técnicos.

Não se deixe enganar pelo trailer engajado: Hidden Figures é uma história humana de mérito, trabalho duro e talento individual

Baseado nas biografias de Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe), o filme se passa em 1961 e mostra como estas três heroínas americanas participaram da corrida espacial e ajudaram decisivamente o país a vencer os soviéticos, superando barreiras e conquistando seu lugar de honra na história.

O tema principal do filme é a superação pela inteligência, simbolizada pelos óculos de Katherine que são ajeitados no rosto nas cenas em que ela usa seu cérebro privilegiado para resolver os problemas matemáticos mais complexos. Ela mesmo diz, num momento marcante do filme, que não está na NASA porque usa saia mas porque usa óculos.

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Hidden Figures é construído com rara sagacidade para levar o leitor mais pedestre a achar que é um libelo feminista, o que garante boas manchetes e espaço na TV, mas é na verdade um forte argumento pelo feminismo "raiz" de mulheres que lutavam por direitos iguais e liberdade civil sem abrir mão da feminilidade.

Os personagens de Katherine, Dorothy e Mary são cuidadosamente construídos como os três pilares da retórica aristotélica. Katherine, a superdotada, é o logos, a razão, a capacidade de calcular e resolver problemas abstratos com números, equações e fórmulas matemáticas. Dorothy, a chefe, é o ethos, a ética, a norma, a ordem e a harmonia em busca do bem comum. Mary, jovem, vibrante e impetuosa, é o pathos, o sentimento, a emoção e a energia.

A trajetória das três personagens principais é naturalmente cheia de altos e baixos, avanços e retrocessos, mas nada que faça com que Katherine, Dorothy e Mary optem por qualquer tipo de atalho, discurso vitimista ou apologia da violência revolucionária. É exatamente o que fez Hidden Figures ser esnobado pelo Oscar e chamado de “conformista” ou conservador pelos críticos de extrema-esquerda que só aceitam a via revolucionária como meio de ação política.

O palco da trama é a NASA, a estatal americana que, quando desafiada pela concorrência soviética, começa a agir como uma empresa privada, focada num objetivo para além dos processos internos e da burocracia, premiando o mérito, quebrando protocolos e louvando o talento por sobre a hierarquia engessada e os empecilhos de carreira para mulheres e negros daquela época.

É a necessidade urgente da vitória sobre o concorrente direto na Guerra Fria que faz com que a NASA promova Katherine, Mary e Dorothy, acabe com banheiros separados para brancos e negros e abra as portas das reuniões que só homens podem participar. Mais um crime ideológico imperdoável para o apparatchik da indústria cultural americana atual.

Katherine Johnson (Taraji P. Henson)

O personagem principal de Hidden Figures é Katherine Johnson, mente matemática brilhante identificada logo na infância como superdotada. Única ainda viva do trio, ela compareceu à festa do Oscar no último domingo, foi aplaudida mas seu filme não levou qualquer estatueta.

Ela é uma jovem viúva com três filhas pequenas, ajudada pela mãe, trabalhando como "computador humano" na NASA. Ela realiza cálculos complexos manualmente numa época de transição para o mundo dos mainframes.

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Nada da sua mente racional e científica faz com que perca seu compromisso com o trabalho e com a criação das filhas, mesmo podendo contar com a mãe para uma vida menos espartana de jovem solteira. Ela acaba conhecendo o Cel. James Johnson (Mahershala Ali), que está num piquenique organizado pelos frequentadores da sua igreja. Johnson se aproxima sem pressa e cuidadosamente, frequenta sua casa, conquista suas filhas e só depois pede Katherine em casamento. Na vida real, Katherine e James ficaram mais de 50 anos casados. Mais família, impossível.

Mary Jackson (Janelle Monáe)

Mary Jackson, na primeira cena do filme, é abordada por um policial e sua reação automática é desafiadora. Katherine e Dorothy interrompem a conversa e convencem Mary que o melhor caminho para resolver a situação é mostrando sua credencial como funcionária da NASA.

Mary acaba sendo escoltada pelo policial para o trabalho, num momento que resume o argumento central e "conformista" do filme. Em cinco minutos, fica claro que Hidden Figures não vai se encaixar na narrativa dominante do Oscar, da imprensa e dos "justiceiros sociais". Na vida real, Mary foi a primeira engenheira negra da NASA.

Ainda mais relevante para o argumento central da trama é a relação de Mary com o marido Levi (Aldis Hodge), personagem que simboliza o espírito revolucionário que quer o confronto violento com o sistema: "nem sempre os direitos civis são civis", diz. Ele tenta doutrinar os filhos pequenos, mas Mary resiste e insiste no caminho da luta dentro da legalidade.

Quando Mary usa o judiciário e as leis dos direitos civis para conquistar sua vaga na sonhada escola de engenharia, Levi se ajoelha na frente dela e se rende: "nunca deixe ninguém ficar entre você e seus sonhos, nem eu". É talvez o momento mais politicamente conservador do filme.

Dorothy Vaughn (Octavia Spencer)

Dorothy Vaughn é a mais ambígua do trio. Enquanto tenta subir na carreira, é a menos otimista, cativante e grata. Em dois momentos marcantes, Dorothy se mostra pouco agradecida à chefe Vivian (Kirsten Dunst) pela promoção, sempre com uma atitude que revela uma raiva mal disfarçada. Ela chega a dizer para Vivian, numa conversa de banheiro, que Vivian pode até pensar que não tem nada contra ela, mas tem.

No pior momento de Dorothy e do filme, quando o roteiro tenta pagar um pedágio ideológico, ela rouba um livro de uma biblioteca pública ao ser retirada de lá por um policial e diz para os filhos que paga impostos e tudo que está lá foi pago por ela, justificando o roubo. É uma concessão lamentável que Hidden Figures faz a idéia de que quando o sistema é contra você o roubo é moralmente aceitável.

Hidden Figures foge de partidarismos e faz uma justa homenagem ao presidente John Kennedy, um dos principais responsáveis pelo protagonismo da NASA no início dos anos 60 e pela conquista da Lua no final da década. Toda trama se passa na Virgínia em 1961, estado que legalizou a segregação racial e que foi governado pelo Partido Democrata ininterruptamente de 1874 até 1966, quando o primeiro republicano venceu a eleição depois de quase 100 anos.

“Stick and Stones”, sucesso de Ray Charles (1960)

Hidden Figures celebra a América de heróis desconhecidos que venceram sem vitimismo, armados de inteligência, coragem, patriotismo e dos valores familiares e éticos que construíram o país mais livre e próspero da história. É também uma homenagem à América vigorosa, confiante e ambiciosa do início dos anos 60 que desapareceu em Woodstock no final da década.

"Sticks and stones may break my bones, but words will never harm me."

Não por coincidência, uma das músicas do filme é "Stick and Stones", clássico de 1960 de Ray Charles. A letra relembra uma cantiga de roda para crianças americanas do séc. XIX que ensina que não se deve levar a sério ofensas e xingamentos. É tudo que parece ter sido esquecido pela geração dos floquinhos de neve que pedem "safe spaces" e "trigger warnings" nas universidades.

Mais do que figuras esquecidas, Hidden Figures é o filme de lições esquecidas e da América que pode, aos poucos, estar voltando. A América "escondida" por anos de radicalismo ideológico retrógrado e divisionista que merecem ser superados junto com a mais abjeta e antiamericana geração que Hollywood produziu.


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