A civilização de Kenneth Clark

Discurso final de “Civilisation”, clássica série de TV da BBC criada e apresentada por Kenneth Clark em 1969

Kenneth Clark (1903–1983)

Neste ponto, revelo totalmente quem eu sou: um conservador. Tenho crenças que são repudiadas pelas mentes brilhantes dos dias de hoje.

Acredito que ordem é melhor que caos, criação melhor que destruição.

Prefiro gentileza à violência, perdão à vingança.

Em geral, conhecimento é melhor que ignorância e tenho certeza de que empatia tem mais valor que ideologia.

Acredito que, a despeito dos recentes triunfos da ciência, o ser humano não mudou muito nos últimos 2.000 anos. E é por isso que devemos continuar aprendendo com a história. A história somos nós.

Eu tenho também algumas crenças difíceis de colocar em poucas palavras. Por exemplo, acredito na cortesia, o ritual de evitar ferir o sentimento alheio apenas para satisfazer nosso próprio ego. E também acredito que devemos lembrar que fazemos parte de algo maior que, por conveniência, chamamos de natureza. Todos os seres vivos são nossos irmãos e irmãs.

Acima de tudo, acredito no talento dado por Deus a certos indivíduos e valorizo o tipo de sociedade que torna a existência deles possível.

Kenneth Clark em "Civilisation"

Esta série está cheia de grandes trabalhos de gênio na arquitetura, escultura e pintura, em filosofia, poesia e música, em ciência e engenharia. Elas estão aí, você não pode descartar. E é só uma fração do que o homem ocidental conquistou nos últimos milhares de anos, com altos e baixos, erros de percurso tão destrutivos quanto os que vemos hoje.

A civilização ocidental teve vários renascimentos e isso deveria dar confiança a nós mesmos.

Como eu disse no começo, é a falta de autoconfiança, mais do que qualquer outra coisa, que mata uma civilização. Nós podemos nos destruir pelo cinismo e pela desilusão, tão devastadores quanto bombas.

Cinquenta anos atrás, W. B. Yeats, que é mais genial do que qualquer outro homem que eu tenha conhecido, escreveu esse famoso e profético poema:

“Tudo se parte, o centro não sustenta.
Mera anarquia avança sobre o mundo,
Marés sujas de sangue em toda parte
Os ritos da inocência sufocados.
Os melhores sem suas convicções,
Os piores com as mais fortes paixões.”

Bem, com certeza era verdade no período entre as grandes guerras que quase nos destruíram. É verdade hoje? Não muito, porque boas pessoas têm convicções, por mim haveria muito mais.

O problema é que falta o centro.

A falência moral e intelectual do marxismo nos deixou sem alternativas ao materialismo e ele não é suficiente. Você pode ser otimista, mas não dá para estar animado com o que parece estar na nossa frente.”

Kenneth Clark (1903–1983)

  • (N. do T.) Traduzi "stick in the mud" como "conservador", como poderia ter usado "retrógrado", "antiquado" ou "reacionário" dando uma conotação mais irônica. O termo não deve ser entendido literalmente no sentido político, Clark nunca deixou clara a sua preferência partidária. Ele era, sem dúvida, um conservador numa perspectiva filosófica e existencial, como o texto acima prova.

Why “Civilisation” matters by Drew Oliver — The New Criterion http://bit.ly/2m9MA4ZBBC Civilisation (1969)
Like what you read? Give Alexandre Borges a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.