O início da Era Trump

Discurso presidencial no Congresso marca o fim da transição e o início da Era Trump

Não há dúvidas para qualquer analista atento que o criador do programa O Aprendiz está aprendendo. Enquanto o Brasil se despedia do Carnaval, a América começava uma nova era com o primeiro discurso "presidencial" de Donald Trump, um marco de seu governo que atordoou completamente os adversários na política e na imprensa.

O discurso de posse raivoso de 20 de janeiro trazia a carga emocional de uma campanha brutal e sangrenta, mostrando um Trump ressentido, machucado e quase vingativo. O pronunciamento da última terça trouxe tudo que ficou faltando no anterior e muito mais.

JFK, em seu histórico discurso de posse em 1961, prometeu que o país chegaria à Lua, como chegou, até o final da década. O horizonte de Trump é também de uma década: a festa dos 250 anos da independência do país em 2026. A América de seus sonhos deve estar pronta até lá.

Trump conseguiu sua maior conquista política até agora ao dividir os membros do Partido Democrata na platéia do Congresso, atônitos ao perceber que tinham que decidir se aplaudiam ou não quando o discurso homenageava veteranos, prometia a criação de empregos ou exaltava a América, temas suprapartidários e patriotas. Alguns sequer aplaudiram quando Trump prometeu combater o terrorismo, uma imagem que o eleitor não deve esquecer e que cobrará um preço alto dos radicais nas próximas eleições.

O Partido Democrata vive seu pior momento em décadas, uma crise que ficou ainda mais clara depois da pior derrota eleitoral em quase 80 anos, perdendo não só a Casa Branca mas o controle do Congresso e da Suprema Corte.

"Clube dos Presidentes": a tradicional cordialidade e colaboração entre os ex-ocupantes da presidência e o atual que foi ignorada por Barack Obama

Barack Obama continua morando em Washington e conspira dia e noite para derrubar Trump e tentar salvar o que sobrou de seu legado em mais um ato sem precedentes de vaidade e egocentrismo.

Obama rasgou o protocolo de cordialidade que existe entre os ocupantes da Casa Branca desde sempre, uma tradição do chamado clube dos presidentes, o clube mais exclusivo do mundo e que simboliza o espírito de colaboração que é formado entre todos os ex-ocupantes do Salão Oval e o presidente atual, seja quem for.

A ala que representa a renovação do partido, composta pelos entusiasmados apoiadores de Bernie Sanders, Elizabeth Warren, Debbie Wasserman-Schultz e Keith Ellison, odeia visceralmente o capitalismo e tudo que a América e a civilização ocidental representam. É uma turma ideologicamente entre o PSOL e o PSTU e que está em conflito ideológico direto com a facção dos Clinton e seu capitalismo de quadrilha. O discurso de Trump tornou os problemas ainda maiores para a esquerda americana que perdeu o eixo.

"A new chapter of American Greatness is now beginning."

Como sempre defendo, a política é feita de narrativas e de histórias humanas com nomes, rostos e emoções verdadeiras que despertam empatia e identificação no eleitor. Quem não se emocionou com Jessica, filha do policial Michael Davis morto por um imigrante ilegal, ou com Carryn, viúva do marine William “Ryan” Owens, precisa checar o pulso.

Trump mostrou que sabe exatamente como fazer essa conexão emocional com a população, o que está tirando o sono da esquerda americana, das corporações globalistas que vivem do trabalho barato da imigração ilegal e dos lobistas que dependem de políticos abertos a criar regulações antiliberais, acordos de "livre comércio" e leis que beneficiam os mesmos doadores de campanha de sempre.

"Tonight, as I outline the next steps we must take as a country, we must honestly acknowledge the circumstances we inherited.
Ninety-four million Americans are out of the labor force.
Over 43 million people are now living in poverty, and over 43 million Americans are on food stamps.
More than 1 in 5 people in their prime working years are not working.
We have the worst financial recovery in 65 years.
In the last 8 years, the past Administration has put on more new debt than nearly all other Presidents combined."

Trump continua absolutamente fiel às promessas de campanha, outro ponto inatacável de seu governo. Ele foi claro sobre colocar os investimentos e empregos nos EUA como prioridade, citando até o pacotaço de US$ 1 trilhão em obras de infraestrutura que, segundo ele, virão de parcerias com a iniciativa privada.

Qualquer liberal alfabetizado em economia tem arrepios ao imaginar um volume astronômico de investimentos deste capitaneado pelo governo, mas o cálculo político é evidente: Trump quer repetir Franklin Roosevelt, o maior vencedor de eleições presidenciais americanas com quatro mandatos seguidos. O pacote lembra também o America Works, a grande marca do presidente democrata Frank Underwood na série House of Cards do Netflix, igualmente inspirado no New Deal.

Como dito em "O Homem Esquecido Voltou", Trump não deve ser colocado nas caixinhas tradicionais de esquerda e direita. Ele fez acenos para os dois principais partidos americanos e não perde uma única oportunidade de se colocar como um contraponto aos governos de George W. Bush e Barack Obama. Ele se vê como um presidente sem qualquer compromisso com os dois antecessores e um opositor claro ao legado de ambos.

W. Mark Felt (1913–2008), o "Garganta Profunda" que derrubou Nixon

Trump terá que lidar com grandes dificuldades e uma das maiores será a oposição do chamado deep state, formado pelos burocratas governamentais sem rosto que realmente comandam a máquina pública.

Os membros mais temidos do deep state são da comunidade de inteligência, muitos deles colocados em seus cargos por Barack Obama nos últimos anos e ainda ligados a ele.

Não há dúvida de que parte da oposição tem como objetivo não deixar que Trump termine seu mandato vazando informações secretas do governo para a imprensa repetindo Watergate, o escândalo ocorrido em 1974 que tirou Richard Nixon da presidência depois de uma das maiores vitórias eleitorais de todos os tempos.

Richard Nixon foi reeleito em 1972 vencendo em 49 dos 50 estados (fora Washington D.C.), conquistando 520 votos no colégio eleitoral. Nixon renunciou ao mandato em 1974.

Quem entregou as informações que derrubaram Richard Nixon para os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein do Washington Post foi o ex-vice-presidente do FBI W. Mark Felt, identificado como Garganta Profunda na época. Quando um presidente americano é visto como inimigo pelo deep state, seu mandato pode ter vida curta.

"Todos os Homens do Presidente" (1976), clássico do cinema que conta a história do escândalo Watergate

A recente queda do general Michael Flynn e a perseguição ao procurador-geral da república Jeff Sessions a partir de vazamentos de segredos de estado diretamente para a imprensa são duas amostras nada sutis de como parte do deep state está trabalhando para inviabilizar o governo Trump.

Se Trump mantiver o tom usado no discurso da última terça e conseguir vencer as punhaladas nas costas do deep state em conluio com a imprensa e com membros da oposição, dificilmente sairá da Casa Branca antes de 2024.