Pior é possível

Melvin Udall (Jack Nicholson) era um escritor com transtorno obsessivo compulsivo (TOC) que só comia no mesmo restaurante e era sempre servido pela garçonete Carol Connelly (Helen Hunt). Ele acaba se apaixonando por ela e resolve se meter na sua vida de alguma forma. Melvin descobre que o filho de Carol, Spencer, tem uma doença respiratória grave e que ocupa todo tempo livre da mãe. Ele envia um médico que cura Spencer e faz com que Carol perceba como sua vida era dominada pela doença do filho. Ao ver que ele está curado, sua primeira reação é entender que sua vida não tem um sentido fora dos cuidados com o filho, num dos melhores momentos de “Melhor É Impossível”, filme que deu um Oscar para Jack Nicholson e outro para Helen Hunt.

O impeachment de Dilma, que já se desenhava desde seu afastamento, tem criado um efeito parecido em parte da chamada “nova direita”. A “cura” do mal que ocupava a cabeça de muitos antipetistas e, de certa forma, unia a todos, está criando em alguns uma certa síndrome de abstinência da própria relevância, de ter dezenas ou centenas de cliques em textões contra Dilma, Lula et caterva.

Em tempos petistas, muitos direitistas recebiam comentários dizendo “quero ver do que você vai falar quando o Dilma cair”. A praga da falta de assunto, de norte e de sentido, parece se espalhar como uma epidemia cujos sintomas mais aparentes e constrangedores são ataques a outros direitistas, alguns por não serem tão radicais, outros por serem radicais demais, ou pelos motivos mais fúteis. No assustador e sombrio vácuo de pautas, sobram ataques a quem está no mesmo lado como se a eventual falta de cliques pudesse ser compensada alienando, rotulando ou exilando ideologicamente quem antes era parceiro de compartilhamentos, curtidas, trocas de informações e até favores.

Tirar Dilma do poder é apenas o começo, é um primeiro passo, mesmo que importantíssimo, na luta contra a esquerda que ainda é hegemônica na cultura, universidades, escolas, no jornalismo e entre analistas, escritores, intelectuais, palestrantes, consultores e, especialmente, no judiciário e na política. Quem acha que já é hora de relaxar com a esquerda e começar a fazer picuinhas com a direita, seja por vaidade, por cliques ou por dinheiro, não está prestando atenção. Já vimos este clima de já ganhou na queda do Muro de Berlim quando falávamos em “fim da história” e “Consenso de Washington” enquanto a esquerda se reagrupava e criava o mundo progressista, pós-modernista e esquizofrênico que temos hoje.

Cada comentário mesquinho, invejoso e fútil é mais energia desperdiçada que poderia ser usada contra os “Fora Temer”, um slogan que pegou e já começa a se mostrar um forte aglutinador das forças de esquerda para a eleição presidencial de 2018. Eles já estão pensando nela enquanto muitos de nós estão roendo unhas por conta de uma atualização do algoritmo do Facebook que tirou parte dos cliques das suas páginas e algumas horas de sono. Na falta de uma idéia do que falar, acabam destilando uma baba hidrófoba contra quem deveria, a despeito das pequenas diferenças, cerrar fileiras contra o verdadeiro inimigo.

Dilma está em Ipanema e esta é a única mudança significativa na esquerda, os outros continuam no mesmo lugar e construindo uma narrativa para eleger o próximo presidente num horizonte de apenas dois anos. Eles continuam pautando a imprensa, fazendo passeatas, roubando bilhões e enchendo o tanque de combustível ideológico dos órfãos do petismo.

É hora de parar de babaquice, antes de tarde do que nunca, e colocar mais estratégia, inteligência, maturidade e reflexão na ordem do dia. Numa guerra não existe neutralidade e todos estão de algum lado, queriam ou não. Escolha logo o seu antes que escolham por você.

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