Feliz aniversário,
Dona Lúcia


Sacolejo o crachá de imprensa para a entrevista do ano. De um ano. Hoje, 366 dias após o Brilho Eterno do 7 x 1, aniversariam dois personagens igualmente tragicômicos: Dona Lúcia e sua afamada cartinha solidária. A CBF me decepciona ao dispensar festividades alusivas à data. Fantasiei Dona Lúcia, de casaquinho verde e amarelo, a despachar epístolas como Fernanda Montenegro em Central do Brasil, reescrevendo o 7 x 1 para nós, os analfabetos (futebolísticos, claro).

Mas que nada… Restou apenas uma coletiva. E meu surrado crachá se mostrou tão dispensável quanto Bernard. Nenhum jornalista se deu ao trabalho, e Dona Lúcia, ao mesmo tempo em que se escora na cadeira, afunda num fastio profundo, quando surjo atirando:

Eu: Perdoe-me a falta de modos, mas a senhora existe?
Dona Lúcia: Uma brasileira anônima, que não conhece muito de futebol.

Eu: Imagina, Lúcia, nada de aflição, afinal já faz um ano daquele e-mail. Embora o Parreira tenha confessado, dia desses, que se arrependeu de ter lido a cartinha…
Dona Lúcia: O ser humano, muitas vezes, é de uma crueldade sem limites.

Eu: Concordamos em algo: não há limites para a crueldade — Klose, Müller, Kroos, Khedira, Schürrle… Mas, diga lá, hoje, depois de um ano, a senhora sustenta opinião simpática ao “professor Felipão”, como gosta de chamá-lo?
Dona Lúcia: Um ser humano ímpar.

Eu: Verdade. Ímpar até no placar. Estamos começando a nos entender, finalmente. E eu, aqui, achando que a senhora não tinha qualquer ligação com a realidade…
Dona Lúcia: O senhor, sofrendo mais do que qualquer um, com toda humildade que lhe é peculiar…

Eu: Humildade não é meu forte, Lúcia, mas vamos em frente: já que a senhora, ao contrário de Parreira, não parece arrependida do e-mail, há alguma recôndita razão para ter enviado a tal carta? Hoje seria um bom dia para confidências…
Dona Lúcia: As mulheres não entendem de futebol, porém entendem de seres humanos.

Eu: Se me permite, a senhora não parece entender muito de seres humanos também, uma vez que ninguém acreditou na veracidade da carta…
Dona Lúcia: Fiquei muito triste ao constatar.

Eu: Um ano depois do 7 x 1, a indignação mais contundente até agora foi: “O que me angustia é a ideia de que o futebol brasileiro não entendeu o que aconteceu no Mineirão naquele dia. Vai passar muito tempo até processar o que aconteceu. Não se transformou como deveria depois daquele jogo.” Não é estranho que a frase tenha sido proferida por um ator global e não por um dirigente?
Dona Lúcia: Como eu, há várias pessoas que estão acompanhando essa seleção.

Eu: Não exatamente como a senhora, mas vá lá. Desde aquele 8 de julho, reconduziram Dunga ao cargo, o ex-presidente da CBF foi preso na Suíça, o Brasil acabou eliminado pelo Paraguai na Copa América, o mesmo Paraguai que engoliu 6 x 1 da Argentina na semifinal, e, como ficou comprovado, de uma Argentina que nem era a melhor equipe da Copa América… (começo a achar que Rodrigo Paiva, mesmo não trabalhando mais lá, vai aparecer a qualquer momento para me interromper…)
Dona Lúcia: Eu, como os demais brasileiros, gostaria de estar comemorando outro resultado.

Eu: Eu também, Lucy, mas, encerrada a Copa América, a CBF achou por bem arrolar ex-técnicos da própria Seleção para um convescote, incluindo Lazaroni, Candinho, seu Ernesto e até o Parreira, coordenador-técnico no mesmo 7 x 1 que se tornou a gênese da crise…
Dona Lúcia: Deu uma resposta muito coerente.

Eu: É, coerência e CBF sempre andaram de braços dados. Mas mudando de assunto: a senhora não considera um tanto caricato que, mesmo depois de vexame como o do Mineirão, a Seleção estivesse praticamente abandonada no Chile, sem a presença de nenhum vice e muito menos do presidente da entidade, Marco Polo Del Nero?
Dona Lúcia: Vi diante da câmera um homem íntegro e corajoso.

Eu: O Del Nero? A senhora parece ter perdido as recentes coconspirações do futebol brasileiro…
Dona Lúcia: Ninguém perde por vontade própria.

Eu: Não sei se entendi bem, mas continuemos. A senhora teria alguma recomendação aos dirigentes do futebol brasileiro?
Dona Lúcia: Lembre-se que o sonho pode durar uma noite, mas alegria vem ao amanhecer.

Eu: Isso não faz qualquer sentido…
Dona Lúcia: Quero dizer com essa citação que tudo vai passar e ficará bem.

Eu: Improvável, mas vai saber… A senhora acredita que a Seleção corre um risco real de ficar fora de uma Copa do Mundo pela primeira vez na história?
Dona Lúcia: Tive esse sentimento ao ouvir os jornalistas.

Eu: Bom, se até a senhora está preocupada, a calamidade se avizinha…
Dona Lúcia: Envio um abraço com todo carinho para o senhor e toda a sua equipe.

Eu: Certo, a equipe vai adorar, mas tenho mais uma pergunta…
Dona Lúcia: Fique com Deus.

Eu: Entendi o recado, dona Lúcia. A gente se vê em 2018. Se tudo der certo, claro.

Esta coluna é originalmente publicada às quintas no Correio Braziliense

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.