Times chatos


Marcelo Coelho é um gênio. E em português, o que caracteriza simpática surpresa. Está ali, perfeitamente acessível, sem barreira. (Se) todos lessem mais Marcelo Coelho, os dias — arrisquemos — seriam (bem) menos enfadonhos. José Mourinho também é gênio. Não que haja qualquer relação, claro. Coelho é quase um lorde; Mourinho, meio boçal. E apesar do português em comum, os dois definitivamente não falam a mesma língua.

Mas num daqueles alinhamentos de planetas, ou fenômeno que o valha, a dupla ensaia mimetismo improvável.

No início dos anos 1990, quando nem sequer fazia parte do conselho editorial do jornal Folha de S. Paulo, o sociólogo Marcelo Coelho escreveu um par de artigos brilhantes. Nesse caso, matematicamente um par. Filmes chatos e Quem teme dizer que um filme é chato discorriam, em essência, sobre a frivolidade de se reduzir aspectos da mediocridade social à aparvalhada tese de que “gosto não se discute”.

Vai entender como funciona a lógica planetária: José Mourinho, no fim de semana, invocou Marcelo Coelho, de certo modo, duas década mais tarde. Seria o futebol do virtual campeão Chelsea chato, como cantarolou a torcida do Arsenal?

“Chato é passar 10 anos sem ganhar um título.”

Piada (óbvia) de português à parte (o último título do Arsenal na liga, ora pois, se deu há 10 anos), Mourinho resgatou questão altercável: o que é um time chato? Dez pontos à frente do segundo colocado e campeão nacional no próximo fim de semana, o Chelsea representaria toda a chateação que há nessa vida? O Bayern, de Pep Guardiola, campeão no fim de semana, 15 pontos à frente do Wolfsburg, padeceria da mesma desonra? A Juve, campeã até sábado — pode cobrar — , os mesmos 15 pontos à frente do vice-líder no Italiano, la barenatura?

Imaginemos que a ausência de disputa pelo título tenha “chateado” o torneio — e, por consequência, todos os demais times que nem sentiram a brisa da primeira colocação. A premissa é questionável, mas o desfile monotemático faz de Chelsea, Bayern e Juve times chatos?

Na coleção de frases que a cartolagem nacional se pendura para desafiar a lógica e esticar a arrebentada corda do futebol brasileiro, diz-se que o Brasileirão é o mais disputado do mundo. A tese: ao menos 12 times brigam pelo título, argumenta a turma, referindo-se ao G-12 dos clubes do país. E eis duas falácias numa frase tão manjada: 1) Nunca 12 times disputaram o tal título. 2) Já está se tornando raro que os 12 estejam na mesma divisão (a última vez que isso ocorreu foi em 2012).

No próximo sábado, o Bayern, já campeão alemão, recebe o Augsburg diante de 70 mil chateadíssimos torcedores — público inexistente no Brasileirão — para festejar um título com 84,4% de aproveitamento. Na Inglaterra, provavelmente um dia depois, o mesmo ocorre com o Chelsea e seus 77,8%. A Juventus — menos chata do grupo — vai erguer troféu, mas com 76%.

No Mais Disputado do Mundo, e só pode ser essa razão para uma margem tão baixa, nossos campeões pelejam para se encaixar entre 62% e 68% de aproveitamento, com exceções positivas (Cruzeiro de 2003, com 72% na primeira edição dos pontos corridos) e negativas (Flamengo de 2009, que mal chegou a 59%). Qual desses times é verdadeiramente chato?

Em um dos artigos publicados nos anos 1990, Marcelo Coelho, lá pelas tantas, provavelmente aborrecido e já sem paciência com o agree to disagree, espezinha:

"Muitas pessoas são capazes de vestir um paletó abacate com camisa cor-de-rosa e gravata preta de crochê. Quem negará, exceto o infeliz portador dessas aberrações, que se trata de uma evidência de mau-gosto? O horror dessa combinação de cores não é, na verdade, uma questão de gosto pessoal, fruto de cuidadoso agenciamento estético; é uma questão de desinformação, de ignorância de critérios. Gosto não só se discute como também se aprende."

Ao menos, já começamos a discutir.

Esta coluna é originalmente publicada às terças no Correio Braziliense

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