Construindo uma universidade livre: uma experiência japonesa (parte 3)

Foto: Facebook da Shure University.
A jornada rumo à construção de uma universidade livre continua. Estive na Finlândia para participar da IDEC@EUDEC 2016 e conheci mais a fundo um dos projetos mais inspiradores neste sentido: a Universidade Shure, no Japão.

Por Alex Bretas

Conversei em junho deste ano com Kageki Asakura, um dos idealizadores e professores da Universidade Shure. As outras duas partes da entrevista podem ser conferidas nos links a seguir:

Aqui vai a parte 3.


Alex: Quanto ao que é aprendido na universidade, os temas e assuntos, os alunos têm a possibilidade de também compartilhar seus conhecimentos, ou a tarefa de “ensinar” é reservada somente aos professores e mentores?

Kageki: Em algumas aulas, estudantes ensinam coisas a outros estudantes. Depende da aula.

Alex: Entrei no site da Shure e vi que vocês têm quatro tipos de atividades: cursos, projetos coletivos, projetos individuais e o curso “Criando seu próprio estilo de vida”. O que é exatamente o Criando seu próprio estilo de vida? É mesmo um curso ou é uma filosofia que embasa toda a universidade?

Kageki: Muitos estudantes da Universidade Shure tem uma grande vontade de encontrar seus próprios caminhos na vida quando vêm até nós. Nossos estudantes estão realmente interessados em duas coisas: uma delas é responder à pergunta “quem sou eu?”. Eles têm esse interesse em comum. Outra coisa que eles querem é criar seu próprio estilo de vida. Essas duas coisas são muito importantes para eles. Por isso, o nome de uma de nossas aulas é “Criando seu próprio estilo de vida”. Contudo, isso não se aplica somente a esse momento, mas também a outros projetos e atividades que temos. Ao participar dos diferentes tipos de atividades oferecidos na universidade, eles estão criando seu estilo de vida.

Alex: Então o “Criando seu próprio estilo de vida” é uma aula, um momento específico dentro da rotina da universidade?

Kageki: Sim. Toda semana nós oferecemos essa aula. Nós temos 40 estudantes no total e 20 deles estão inscritos na aula, o que nos mostra o quanto ela é popular. Não é obrigatório, então eles participam porque realmente é importante para eles.

Alex: Queria entender melhor o que acontece na aula de criação de estilo de vida. Que tipos de método vocês usam nessa aula?

Kageki: Há duas direções: uma é imaginar o futuro. A outra é refletir sobre o passado. Dividimos a discussão em duas partes: um estudante apresenta sua questão na primeira parte e outro na segunda. Cada aluno tem liberdade para fazer apresentações sobre quaisquer assuntos que eles quiserem falar. Então, uma pessoa pode falar sobre seus planos de futuro, o que é bom, e outra pessoa pode apresentar algo que aconteceu com ela no passado, o que também é bom.

Foto: Shure University.

Nós acreditamos que existem sete áreas ou aspectos da vida. O primeiro é comunicação interpessoal, outro é envolvimento na sociedade, o terceiro é o uso que fazemos do tempo, o quarto é como gerenciamos nosso dinheiro, o quinto é como nós pensamos o trabalho, o sexto é identidade de gênero e o último compreende as relações em família. Esses são os aspectos abordados quando eles estão criando seus estilos de vida. Neste sentido, os estudantes refletem sobre seus interesses dentro de cada área. Por exemplo, no campo das relações familiares, caso a direção escolhida seja o futuro, o estudante talvez refletirá sobre seu tipo de estrutura familiar e talvez reflita também sobre os diversos tipos de família existentes, dando sua percepção sobre eles. Outro exemplo: se uma aluna teve uma má experiência de trabalho, ela pode escolher a direção do passado e então refletir sobre os por quês de ter tido uma experiência ruim. Ela começa, então, a chegar nas causas do problema, e talvez essa reflexão a ajude a prevenir que isso aconteça novamente. É assim que funciona: uma pessoa apresenta sua questão e aí todos os estudantes discutem juntos. Esse é o conceito da aula.

Alex: Que incrível! Eu iria querer estar numa aula assim um dia. Pelo que você me disse, existem quatro professores na universidade e dezenas de mentores. Esses dois são os principais papéis dentro do staff da universidade, os professores e os mentores?

Kageki: Acho que não entendi sua pergunta, poderia repetir por favor?

Alex: Claro. Pelo que entendi, o papel dos professores é apoiar os estudantes em seus processos de aprendizagem, e o papel dos mentores é mais especializado, de modo que cada um deles possui uma expertise diferente. Existem outros papéis desempenhados pelo staff?

Kageki: Os professores ajudam os alunos em seus estudos e atividades. Se um estudante deseja ter uma mentoria com um de nossos mentores, nós ajudamos com a coordenação disso. Algumas pessoas, ainda que sejam especialistas em suas áreas de atuação, não compreendem a educação democrática, então às vezes os professores precisam explicar para eles o que fazemos e como fazemos. Essas tarefas também são levadas à cabo por nós, digo, pelos professores.

Alex: Você é um dos professores?

Kageki: Sim, sou.

Alex: Vamos falar um pouco mais sobre o papel dos professores. No programa Desaprender, do UnCollege, nós nos chamamos de facilitadores, mas acredito que o que fazemos é bem parecido com o que vocês fazem como professores. Os professores apoiam os estudantes durante seus percursos de aprendizagem, mas o que isso significa na prática? Você poderia compartilhar comigo alguns exemplos ou histórias em que esse apoio aconteceu?

Foto: Facebook Shure University.

Kageki: A tarefa mais importante do professor na Universidade Shure é apoiar os estudantes. Eles têm seus próprios interesses, claro, mas frequentemente eles dizem “estou interessado neste ou naquele tema”, “quero aprender a fotografar”, mas isso não é específico o suficiente. Por exemplo: cinema é algo que interessa muitos deles, documentários, filmes de ficção. Quando nós perguntamos aos que querem se desenvolver nessa área como eles pensam em fazer isso, eles dizem: “não sei”. Então, nosso apoio tem como um dos principais focos ajudá-los a clarear como eles querem aprofundar seus interesses. Todos eles têm suas preferências, mas frequentemente eles não sabem quais são. Nós os ajudamos a ter mais clareza.

Algumas vezes nós sugerimos coisas, e outras vezes eles já vêm com uma ideia. Mas nós nunca impomos nada. Assim, se uma pessoa quer fazer um filme, nós a perguntamos: que tipo de filme? Algumas vezes nós sugerimos, às vezes nós simplesmente a escutamos, fazemos perguntas, e tudo isso contribui para que a pessoa tenha mais clareza. Ou seja: os estudantes pensam por si mesmos e tentam responder a essas perguntas dos professores, e então eles conseguirão entender melhor seus próprios interesses.


Em breve postarei as demais partes da entrevista aqui. Continue acompanhando!

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