Desescolarizar para aprender

Como traçar uma jornada de aprendizado livre e em comunidade

Por Sabrina Coutinho, do Caindo no Brasil

Alex, Camila e Luísa descobriram certos incômodos em comum. Recentemente, uniram as inquietudes para criar o Desaprender, um programa de educação autodirigida para quem quer aprender em liberdade e com o apoio de uma comunidade. De predefinida essa iniciativa do UnCollege Brasil só tem tempo e espaço: serão 4 meses de uma jornada com 2 a 3 encontros semanais num coworking no bairro Paraíso, em São Paulo, além de duas viagens de imersão. Todo o resto está aberto para ser construído em conjunto. A primeira turma do Desaprender começa em maio.

O programa é “tipo um curso”, mas sem currículo rígido: por meio dos interesses e necessidades dos participantes é que serão construídas as trilhas de aprendizagem. “A partir da aprendizagem autônoma as pessoas podem desenvolver seu autoconhecimento, protagonismo, capacidade de articulação em comunidade e poderão desaprender (no sentido de desconstruir) antigas crenças, que darão espaço para outras novas”, conta Alex.

A trajetória antes da jornada

O mineiro Alex Bretas se formou em administração pública e foi gestor público no governo de Minas Gerais. “Aprendi muito, mas também me frustrei bastante com a baixa permeabilidade do setor público às novas ideias e à experimentação”, revela. Mudou-se para São Paulo, onde trabalhou com consultoria, se envolveu em diversos projetos e passou a pesquisar alternativas mais livres e democráticas de educação. Disso nasceu o projeto “Educação Fora da Caixa”, uma investigação que gerou dois livros, uma série de encontros pelo Brasil e que ainda está ativa. Durante sua pesquisa, Alex recebeu o convite para ser um dos mentores do UnCollege Brasil e, no fim do ano passado, tornou-se sócio da organização.

A partir do movimento em torno do doutorado informal, Alex conheceu Luísa Módena, com quem trocou cartas investigando as relações simbólicas entre o nascimento e a aprendizagem. Luísa nasceu e cresceu no interior de São Paulo, e desde pequena tinha uma grande curiosidade para olhar e querer cuidar da educação, da família, do bebê (desde a barriga) e da infância. Mas levou um tempo para perceber que esse era um caminho que ela poderia percorrer também como atuação profissional. “Já morando em São Paulo me aproximei dos estudos e trabalhos relacionados a esses temas, me entendendo hoje como educadora e doula, além de empreendedora e comunicadora nessas áreas”, conta.

Para completar o time, os dois se juntaram a Camila Haddad. Formada em administração pela FGV e com mestrado pela University College London, ela começou a perceber que os diplomas não diziam muito sobre ela. Trabalhando com sustentabilidade entrou no universo da colaboração e cofundou o Cinese, uma plataforma para estimular encontros presenciais de troca de conhecimentos. Sobre esse encontro de ideias, Alex conta: “Quando conversamos, a Cami disse sonhar com uma universidade livre, um espaço em que todos pudessem ir para aprender e se aprofundar no que quisessem, colaborando uns com os outros. Isso é justamente o que o Desaprender se propõe a ser”.

Onde nasce o questionamento

Questionamentos como os que Alex, Luísa e Camila nutrem podem começar bem cedo, e um exemplo disso vem de Dale J. Stephens, fundador do UnCollege. Com 11 anos, ele percebeu que a escola tradicional não fazia sentido e resolveu, com o apoio dos pais, ser desescolarizado. Para tanto, Dale começou a traçar suas trajetórias de aprendizado a partir de seus interesses. Aprendeu música, trabalhou na biblioteca, viajou para outros países, e cada passo foi movido por sua curiosidade viva sobre o mundo. Durante toda a jornada, Stephens pôde contar com o apoio de mentores e grupos aos quais se vinculava.

Após anos de desescolarizacão, Dale até tentou se enquadrar numa faculdade tradicional, mas logo percebeu que o modelo continuava não sendo favorável para o que pretendia. Disso nasceu o UnCollege, primeiro como um movimento de contestação do ensino superior norte-americano e depois como uma organização para estimular diferentes narrativas de aprendizagem. O Gap Year foi o primeiro programa do UnCollege a se consolidar, de modo a propor uma espécie de ano sabático “assistido” dedicado ao autoconhecimento, a projetos pessoais, a sair da zona de conforto e à construção das competências educativas do novo milênio. Para conhecer mais sobre a história de Dale, vale a pena assistir a sua participação no TEDxAshoka.

Experiências pensadas por quem as vive

O Desaprender surge com objetivos parecidos aos do Gap Year, mas com uma outra estratégia para se chegar até eles. Segundo Alex, “o Gap Year é um programa fantástico, mas requer das pessoas uma disponibilidade significativa de tempo e investimento. O Desaprender foi criado para quem quer ter uma experiência de aprendizagem autodirigida, mas quer ou precisa permanecer em suas atividades cotidianas”.

Sem currículo predeterminado, as demandas, temas de estudo, objetivos e projetos vão surgir ao longo dos encontros e a partir das conversas, atividades e provocações. A missão da equipe do Desaprender será apoiar e mediar esses processos de aprendizagem, entendendo os interesses e as necessidades de cada participante. Com seu contexto e interesses mapeados, o “desaprendente” terá a sua disposição um grupo de mentores com mais de 30 profissionais de diversas áreas para que juntos possam criar possibilidades de compartilhamento e troca de conhecimentos ao longo do programa.

“Na maioria dos cursos as experiências são pensadas antes de se conhecer as pessoas que vão viver aquelas experiências”, afirma Camila. No Cinese, ela se acostumou a frequentar encontros intensos e produtivos, porém de curta duração. “Como tudo que é explosivo, o encontro pode ser muito intenso e mudar a vida de quem está ali, mas esse impacto também parece ir embora rápido. Precisamos pensar em algo que seja mais duradouro”, completa.

Vamos imaginar que a Bruna é formada em publicidade, mas após trabalhar por anos em agências, percebeu que aquilo não era para ela. Quando jovem ela se interessava por questões ligadas à sustentabilidade e ao meio ambiente, mas acabou deixando essa curiosidade de lado para seguir sua carreira. No Desaprender ela tem a chance de retomar esse interesse, conhecer mais sobre o assunto e, caso se encontre mesmo nele, contar com ajuda de profissionais especializados para desenvolver uma pesquisa ou projeto na área que escolheu.

“Queremos ser uma universidade livre, ou melhor, uma comunidade de aprendizagem onde todos têm coisas para aprender e compartilhar”, resume Alex. E é de se esperar que uma universidade tenha um campus: o do Desaprender é a Casinha 161, um espaço de trabalho compartilhado com ambientes coletivos e salas individuais. A diferença é que para entrar nessa “universidade” não é preciso passar por processo seletivo: qualquer pessoa maior de 16 anos pode se inscrever. Segundo Luísa, “incômodos são ciclos, não importa a idade, as perguntas não param”.

Assim como a comunidade que estão criando, Alex, Camila e Luísa estão sempre abertos para uma boa conversa. Recentemente eles disponibilizaram um Hangout em que contam um pouco mais sobre uma das bases do programa — a ideia de comunidades de aprendizagem colaborativa. Assista ao vídeo da conversa abaixo:

Marque um bate-papo com eles para saber mais e, quem sabe, começar uma nova jornada.

Para saber mais:

Site e como se inscrever: https://desaprender.uncollegebrasil.org
Contato:
alex@uncollege.br; luisa@uncollege.br; camila@uncollege.br