Estariam os smartphones nos deixando mais burros?

Recentemente, palestrei no seminário Aprendizagem em Tempos Exponenciais no Museu do Amanhã e conheci a professora e pesquisadora Marilia Zaluar Guimarães, do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ. Ela também se apresentou no evento.

Sua fala foi recheada de exemplos instigantes relacionando aprendizagem e neurociência. Adorei. Um dos estudos que ela compartilhou, no entanto, me chamou atenção. Eis o link de uma matéria a respeito:

Em síntese, a pesquisa analisou o desempenho de 800 pessoas em testes cognitivos quando na presença ou não do smartphone. O resultado, na visão dos autores do estudo, foi categórico e é o que intitula a matéria acima: “a mera presença do seu smartphone reduz o poder do cérebro”. Vale a pena dar uma olhada no texto completo. Agora, eu lhes pergunto: será mesmo?

É muito comum, hoje, nós dirigirmos carros utilizando óculos ou lentes de contato. Obviamente, uma pessoa com debilidade visual significativa não deve sair por aí dirigindo qualquer veículo que seja. Pelo menos, não sem a tecnologia que a humanidade inventou para potencializar suas capacidades. Quando alguém que usa óculos vai fazer um exame de direção, ela vai com o óculos e o utiliza intensamente para ter sucesso na tarefa. Por que, então, seria diferente no caso do smartphone?

Não estou questionando o resultado do estudo, que me parece assertivo. Estou, por outra via, problematizando suas premissas. O que significa “desempenho”, “capacidade cognitiva”, “poder cerebral” em um mundo de humanos que se entremeiam com máquinas que “aprendem” mais “rápido” que eles próprios? Será possível, ainda hoje, medirmos cognição por meio de testes que nos forçam a abrir mão das tecnologias que já utilizamos comumente? Será possível, ainda hoje, medirmos cognição? Faz sentido isso? Para quem? Por quê?

Talvez eu utilizasse meu smartphone para olhar no Google as respostas do teste que me aplicaram, se eu fosse um dos sujeitos da pesquisa. Ou, se o teste fosse inédito, eu poderia entrar em fóruns sobre testes cognitivos e entender melhor como se dá esse processo e como fazer para “performar” melhor. Ou então eu poderia ler sobre como testes cognitivos são uma grande bobagem e me revoltar contra os pesquisadores… vai saber.

Uma hipótese que levanto para explicar porque há diferença entre as premissas de um exame de direção e o uso do óculos e um exame de cognição e o uso do smartphone é a crença, de alguns, de que a internet e as novas tecnologias podem ser “violadas” ou mesmo desaparecerem a qualquer momento. Um óculos seria algo mais concreto, mais “simples” e, por isso, mais confiável. A internet, afinal, vive caindo e os ciberataques são cada vez mais frequentes e estrondosos. De novo: será mesmo?

Dou apenas um argumento: a internet é muito importante para muitas pessoas, por diferentes motivos. Creio que seria mais fácil os óculos sumirem do que a internet.

Precisamos entender que as novas tecnologias estão cada vez mais “embedadas” em nós. Claro, há quem problematize também isso e aponte outros caminhos, o que é compreensível e fundamental. Há uma necessidade de equilíbrio aqui que é importante. Ainda assim, um fator é inegável: a cada geração que passa, a incorporação das tecnologias nos nossos corpos é maior.


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