Webinário A Arte da Aprendizagem Autodirigida — baixe o livro, assista à gravação e veja minhas respostas para as perguntas não respondidas

No dia 10 de maio, participei junto com o Conrado Schlochauer do webinário de lançamento da versão em português do livro A Arte da Aprendizagem Autodirigida, de Blake Boles. Eu já havia traduzido a obra e, agora, a Affero Lab juntou-se à Multiversidade para produzir uma edição à altura do original, que você pode baixar na íntegra aqui.

Durante a conversa, o Conrado introduziu o tema da aprendizagem autodirigida e eu pontuei alguns dos insights que mais me marcaram ao ler o livro. Se você não conseguiu assistir ao webinário, veja a gravação que fizemos abaixo:

No final, respondemos a algumas perguntas do público, mas não deu tempo de endereçar todas. Ficaram faltando as seguintes:

1. Como fazer o sistema público adotar tanto no nível fundamental e médio quanto no nível superior a educação inovadora?
2. Como persuadir pessoas que colocam o tempo como barreira para o aprendizado?
3. Já ouvi diversas definições de estilos de aprendizagem (visual, auditivo, sinestésico etc). Mas nunca havia visto o “emocional” envolvido, até começar a vivenciar a experiência na Multiversidade. Vocês acham que talvez esse elemento seja o que realmente faltava nos métodos tradicionais de aprendizagem?
4. Blake Boles diz que você pode ler um blog ou utilizar outros recursos para realizar a aprendizagem autodirigida. Como vocês percebem essa evolução em países onde os recursos são escassos?
5. Vocês acreditam que é possível a organização fomentar a aprendizagem autodirigida? Se sim, por onde começar?

Aqui vão minhas respostas:

1. Como fazer o sistema público adotar tanto no nível fundamental e médio quanto no nível superior a educação inovadora?

Já trabalhei no governo e sei como é complicado inovar na área pública. Gosto de experiências como os Pontos de Cultura do MinC e o Mapa da Inovação e Criatividade do MEC, que se propõem a potencializar o que já existe por meio da chancela e do apoio governamental. Infelizmente, ambas as políticas não tiveram muitos avanços no período recente.

2. Como persuadir pessoas que colocam o tempo como barreira para o aprendizado?

Se o tempo é uma barreira que sempre está lá, então provavelmente a motivação intrínseca não é grande o suficiente. Outro dia, li a seguinte história no livro A Arte de Pedir, da Amanda Palmer:

Um fazendeiro está sentado numa cadeira em sua varanda, relaxando.
Um amigo caminha até a varanda para dizer oi e escuta um ganido horrível, um som agudo vindo de dentro da casa.
“Que som assustador é esse?”, pergunta o amigo.
“É meu cachorro”, diz o fazendeiro. “Ele está sentado em um prego.”
“Por que ele não sai de cima do prego?”, pergunta o amigo.
“Porque ainda não dói o suficiente.”

Quando a “dor” for grande o suficiente — isto é, a paixão por descobrir mais sobre algum tema, construir uma habilidade ou criar algo novo — , quando ela nos incomodar profundamente, aí arrumaremos tempo. O desafio é encontrar o que dói mais em nós, ou, melhor dizendo, o desafio é concedermos a nós mesmos permissão para nos lançarmos nessa aventura que é sair de cima do prego.

3. Já ouvi diversas definições de estilos de aprendizagem (visual, auditivo, sinestésico etc). Mas nunca havia visto o “emocional” envolvido, até começar a vivenciar a experiência na Multiversidade. Vocês acham que talvez esse elemento seja o que realmente faltava nos métodos tradicionais de aprendizagem?

Não acredito em estilos de aprendizagem. Há boas evidências para sustentar isso. A emocionalidade, no entanto, não a vejo como um estilo, e sim como a base de qualquer empreendimento humano. Vale resgatar Humberto Maturana que diz que o amar é o fundamento da cooperação e, sem o amor, não haveria humanidade. O amor é o estado emocional que aceita o outro como legítimo outro incondicionalmente. Isso é válido também para a percepção de cada um em relação a si próprio. Na aprendizagem autônoma, isto é, ao construir sua própria aprendizagem, você automaticamente está trabalhando sua emocionalidade, ou, como o nome da moda diz, suas competências socioemocionais. Resiliência, coragem, autogestão, metacognição são alguns exemplos.

4. Blake Boles diz que você pode ler um blog ou utilizar outros recursos para realizar a aprendizagem autodirigida. Como vocês percebem essa evolução em países onde os recursos são escassos?

A distribuição desigual de recursos existe, mas a escassez frequentemente está mais nos olhos de quem vê do que na realidade em si. Por exemplo: no Vale do Jequitinhonha, região mais pobre de Minas Gerais, o CPCD (Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento) tem incentivado crianças a criarem seus próprios brinquedos. O desafio feito a elas, segundo Tião Rocha, fundador do CPCD, é mais ou menos assim: “no dia em que vocês não conseguirem construir seus próprios brinquedos com tudo que a gente tem aqui, eu comprarei um numa loja”. Essa aposta é feita há anos por lá e nunca foi preciso comprar nenhum brinquedo. Da mesma forma, se adotamos um olhar de abundância, ganhamos elasticidade para enxergar as riquezas que estão ao redor de nós. Uma das maiores é a rede: quem você conhece? O que elas sabem e poderiam compartilhar? O que elas fazem de melhor? Quem elas conhecem e poderiam te apresentar? Quem você poderia entrevistar, tomar um café? Com quem você poderia aprender aquilo que quer muito aprender? Quem você poderia convidar para acompanhar você no seu processo de aprendizagem? Pessoas existem em todos os lugares e a internet ampliou e facilitou muito nosso acesso a elas.

5. Vocês acreditam que é possível a organização fomentar a aprendizagem autodirigida? Se sim, por onde começar?

Sim, mas esse fomento deve vir acompanhado de possibilidades de libertação no que tange à hierarquia organizacional. Possibilidades de criar e investigar coisas, propor projetos e executá-los, experimentar, testar, errar. Se a liderança da organização quer promover aprendizado autodirigido entre os funcionários e não dá esse espaço, aí é território fértil para a frustração. Tem um artigo muito bom da Teresa Amabile, “How to kill creativity”, que toca justamente nesse ponto.


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