Beasts of no Nation: um filme sobre jovens, crianças, a perda da humanidade e a esperança

O longa do Netflix sofreu boicote das maiores empresas de cinema do mundo

Há alguns meses, enquanto aguardava a estreia de Narcos, assisti ao trailer de Beasts of no Nation. Com tantas notícias sobre o Boko Haram, eu estava curioso para entender um pouco sobre o que acontece no continente africano. O brasileiro fala muito sobre as origens portuguesas, sobre os europeus que também influenciaram na construção da nossa identidade, mas sobre a nossa origem africana, pouco é falado.

E em meio a tantas perguntas, tantas curiosidades, eis que me aparece o BON2. Confesso que, de lá pra cá, esqueci que se tratava de um filme, e ao ver disponível na minha lista, apertei o play ainda acreditando ser uma série.

No início, ao ver as crianças brincando em ambiente hostil, lembrei muito de Cidade de Deus. É impossível não traçar um paralelo entre o comportamento das crianças brasileiras e as da África. A alegria, o movimento, o sorriso, as cores, é tudo muito parecido.


O Netflix e o fetiche por pessoas urinando em túmulos e em outras pessoas

Posso estar enganado, mas acho que o precursor da modinha de sair urinando por aí foi o Frank Underwood, ao visitar o túmulo do seu pai. Em seguida, se não estou enganado, foi a vez de Wolfgang de Sense 8. Desta vez, o contexto foi um pouco diferente. Agu, o personagem principal do filme sobe até o telhado para urinar sobre o irmão mais velho que toma banho no quintal da casa.


O que podemos aprender ao compararmos a realidade de lá com a realidade de cá

Não precisamos de muito esforço para compararmos o que acontece lá, com os jovens e crianças recrutados por grupos criminosos na Nigéria e outros países africanos com o que acontece com os nossos jovens com menos recursos no Brasil, também recrutados pelo crime.

Crianças com pouca expectativa de vida, pais ausentes, poucas oportunidades de trabalho e a necessidade de, desde muito cedo, colaborar com os gastos da casa. O Estado, muitas vezes ausente para aquela parte da sociedade, acaba se tornando um inimigo, até que aparecem os grupos criminosos oferecendo a esses jovens o que o estado não ofereceu. Essa é a fórmula ideal para o recrutamento dessas crianças.

Muitos dizem que é uma questão de escolha, dão exemplos de pessoas muito pobres que viveram em ambientes hostis e ainda assim passaram por todas as adversidades e escolheram o caminho do bem. Concordo que é uma questão de escolha, mas a coisa não pode ser analisada apenas a partir do momento da escolha. Se não analisarmos o que aconteceu antes do momento da escolha, nunca entenderemos totalmente e, pior que isso, nunca iremos solucionar o problema.

Talvez por medo de chegar a conclusão de que podem estar enganados, alguns mais radicais se apegam às exceções e, com sarcasmo e ironia, banalizam e desprezam o discurso de que essas escolhas são produto da sociedade. Triste postura pois, se debatêssemos com mais seriedade sobre esses temas, talvez pudéssemos chegar a um meio termo capaz de solucionar grande parte desses problemas. Enquanto isso, seguimos considerando que esses radicais estão certos e apostando na solução para o problema visto por eles: as pessoas ruins. Gastamos fortunas com presídios e ignoramos totalmente tudo o que acontece antes das escolhas. O foco tem sido na busca por um culpado e, posteriormente, na punição.


Como o filme é muito recente, não quis entrar em muitos detalhes sobre o filme em si. Foi apenas um primeiro texto, mostrando algumas coisas que pensei após ter assistido. Vou ficando por aqui. Até a próxima.

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