Os pensamentos que remoeram a minha cabeça após assistir 13 Reasons Why, na Netflix

Confesso não ser um cara religioso. Já fui um dia, mas hoje, vejo a religião como uma questão de necessidade. Cada um segue aquela que atende às suas, ou não.

Começar esse texto falando sobre religião não foi por acaso. O que pretendi ao iniciar assim, foi deixar claro que não vejo o suicídio como um pecado. Por outro lado, preciso dizer que amo muito a minha vida, mesmo com todos os problemas que enfrentamos em nosso dia a dia.

Antes de chegar em 13 Reasons Why, preciso contar um episódio que me marcou bastante. No ano passado, enquanto navegava aqui no Médium procurando histórias para ler, me deparei com uma carta de despedida de um rapaz, um designer que, mergulhado num vazio já fora do controle, resolveu tirar a própria vida. A história mexeu comigo, me deixou angustiado. Pode ser um pensamento meio megalomaníaco, mas a gente pensa que é capaz de ajudar. Não sei se você também sente isso, mas eu sinto.

Eu pretendia finalizar essa história aqui, mas vamos lá: assim como a Hannah, personagem principal da série que vim comentar aqui fez com as fitas, também preciso confessar que por conta da angústia que a história me causou, busquei o nome do rapaz no Face e, movido por uma curiosidade que para muitos pode ser considerada mórbida, fui ler se nos comentários havia alguma pista, alguma dica sobre como ele e seus amigos se relacionavam, tentar descobrir se aquele desconhecido deixará em sua timeline alguma pista sobre o que estava planejando fazer. É muito difícil pra mim aceitar que as vezes, essas coisas não deixam rastros. É isso o que mais me assusta.

O que encontrei lá foi uma história real, de amigos que, ao terminarem de ler a despedida do rapaz, comentavam incrédulos, perguntavam por ele até que alguém confirmou nos comentários o terrível final da história: ele havia morrido.

Se ler essa história e o seu desenrolar no perfil de um desconhecido já me deixou inquieto e angustiado, fico naus apavorado ainda com a possibilidade de acontecer algo semelhante com alguém próximo.

13 Reasons Why – a história

Fazendo um resumo, a série conta a história de uma garota chamada Hannah. Ela passou por várias situações difíceis até que não suportou a pressão e resolveu tirar a própria vida. Antes disso, Hannah gravou 13 fitas relatando os motivos que a levaram a desistir. Quando Clay recebe as fitas, começa a ouvir a história contada sob a ótica de Hannah. E esse ponto, esse conflito entre as visões do Clay e as visões da Hannah é o ponto chave, a própria lição de moral que a série nos dá.

Muitas vezes, nossas atitudes, nossas palavras e até mesmo a nossa falta de atitude podem magoar o outro com uma intensidade bem diferente do que podemos imaginar. Considerarmos apenas as nossas percepções, sem ouvirmos o outro, nos cega, não nos permite enxergar quando o outro precisa de uma mão ou um ombro amigo.

Sei que muitos acham que as pessoas estão se vitimizando demais, há quem chame as novas gerações de “geração mimími”, e eu até entendo essa percepção, essa opinião. A questão é: em meio a uma sociedade polarizada ao extremo, não existiriam pontos intermediários entre o “vou ignorar o seu mimimi” e o “não vou te repreender, amigo, sei que você fez besteira mas não quero te ver triste, jamais”?

Durante a série, vemos diversas situações que poderiam facilmente ser consideradas bobagens por mim e por você, mas o conjunto da obra consegue mostrar que para quem enfrenta, quem vivência as situações, nada é bobagem.

Assistir 13 Reasons Why nos traz mais perguntas do que respostas. Uma delas passa por algo que deveria ser o básico:

O que pretendo fazer ou falar vai te magoar, mas não é muito.

Se eu sei que as minhas palavras ou as minhas atitudes vão, de algum modo, mesmo que pouco, magoar alguém, será que eu preciso mesmo insistir nisso? Magoar o outro não é divertido, não pode ser jamais o objetivo de uma fala ou uma ação.

Um exemplo comum

Quando a gente comenta ou pergunta algo, a gente tem uma intenção, a gente também prevê as respostas possíveis. Sabe aquela pessoa que já te cumprimenta olhando para a sua barriga e fazendo comentários sobre o seu ganho de peso? Então, qual poderia ser a intenção de alguém que faz esse tipo de comentário?

  • Se mostrar superior: veja como você é um fracassado de merda! Como você deixou a situação chegar a esse ponto?
  • Te convencer a se cuidar: acredito que esta será a desculpa mais usada, talvez por falta de coragem de assumir que a verdadeira intenção está exposta no item acima, mas vamos questionar: se esta fosse realmente a intenção, será mesmo que esse tipo de comentário vai funcionar para convencer o outro de que ele deve se cuidar? Constranger o outro eria a melhor solução?

Da última vez que aconteceu isso comigo, perguntei qual seria a verdadeira intenção da pessoa com o comentário. Ela não soube me responder. E no dia-a-dia as pessoas seguem fazendo comentários nessa linha, meio que sem pensar nos efeitos que eles podem causar.

O suicídio como um grande Tabu

Na imprensa tradicional, o tema é praticamente proibido, e eu até consigo entender a preocupação. As matérias sobre o tema são superficiais e a justificativa para isso é a de que o detalhamento poderia incentivar novos casos.

A princípio, acho que essa falta de um diálogo mais apropriado sobre o tema é muito prejudicial. Sempre que a imprensa precisa, ela chama “especialistas” para dizer que o dólar vai subir ou descer, chama “especialistas” para dizer se o fulaninho mentiu ou falou a verdade num depoimento etc. então não seria possível convidar um grupo de psiquiatras e entender melhor qual seria a maneira apropriada de tratar o tema?

Sobre a angústia de perceber os sinais

Conforme as situações vão acontecendo na série, e Hannah vai ficando meio que sem uma referência, a angústia pot não vermos interesse das pessoas em ouvir o outro vai tomando conta. A falta de interesse por ouvir, acaba gerando uma falta de interesse por falar. E quando chegamos a esse ponto, complica.

Uma amiga que leu o livro comentou comigo que achou estranho, que passou uma ideia de que Hannah tirou a vida por vingança. Não li o livro, mas ouvi os mesmos comentários sobre a série.

Sobre o livro, não tenho como emitir opinião. Sobre a série, eu não enxerguei por esse lado. Se ela quisesse vingança, teria reagido, teria exposto as fitas para a polícia ou até mesmo para a imprensa, por exemplo.

Li também uma crítica sobre a falta de uma evolução do quadro depressivo de Hannah, mas discordo porque acredito que a depressão não é a única motivadora possível para um suicídio. A pessoa não precisa necessariamente doente (fisiologicamente) para isso.

No fim das contas, gostei da série por ter mostrado um pouco da visão de alguém que foi submetida a uma série de pressões e acabou não resistindo.

E você? Já assistiu? O que achou? Tem uma opinião formada sobre o tema? Compartilha comigo, vai…

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