Quando um filme sobre um palhaço consegue explicar muito sobre a vida fora dos picadeiros

Alex Vila Verde
Aug 28, 2017 · 4 min read

De uns anos pra cá, tenho ouvido vários relatos de pessoas que resolveram jogar para o alto suas carreiras promissoras e até mesmo a tal da “estabilidade”. Tudo isso em troca de um mundo competitivo e cheio de incertezas que é o empreendedorismo.

A princípio, pode não ficar muito claro o que exatamente afasta essas pessoas de um mundo mais previsível e seguro e as encoraja a desbravar um ambiente tão cheio de incertezas, mas nos últimos anos, todo esse mistério tem ficado cada vez mais claro para mim.

Ontem, fui ao cinema assistir ao “BINGO – O REI DAS MANHÃS”. Não sei se por conta do tema ou das ideias que estão fazendo a minha cabeça borbulhar nos últimos meses, mas quando assisti, vi no filme muito dessa realidade que suga a energia, suga a vontade das pessoas prosperarem nesses ambientes mais tradicionais e hierárquicos.

Não vou me prender a explicar o enredo do filme. Se você ainda não assistiu, recomendo que assista. A ideia aqui é abordar alguns tópicos que considero importantes sobre a vida no mundo corporativo que ficam bem claros no decorrer de um filme sobre um palhaço.

1 — Quando o trabalho nos afasta da família

Em alguns momentos, já ouvi a frase “trabalhar com isso aqui é uma cachaça”, com o objetivo de mostrar o caráter viciante de mergulhar de cabeça nas atividades do dia a dia corporativo. O tempo passa, e a gente percebe que no fim, isso não leva ninguém a lugar algum. Muitas vezes, serve mais como uma fuga, um distanciamento que afeta as relações com a família e consigo mesmo.

O filme mostra um trabalhador que, envolvido pelas suas atividades e por excessos em consequência da natureza do trabalho no mundo do entretenimento, se afastou da família, inclusive do próprio filho.

2 — As podas corporativas

No contrato do Bingo, há uma cláusula que o impede de se identificar como intérprete do palhaço. E essa cláusula mostra o quanto as corporações se importam com o reconhecimento dos seus empregados. São números, são apenas integrantes anônimos que possuem como identidade uma máscara padronizada e desenhada pela companhia. Se você vive nesse mundo, meu amigo, vem comigo: somos todos palhaços.

3 — Abstrações que valem bem mais que resultados

As corporações existem e possuem algum propósito, algum objetivo. E nessa realidade, elas precisam entregar produtos e resultados satisfatórios. Entretanto, existem outras áreas nas corporações com um propósito que eu classificaria, no mínimo como duvidosos: essas áreas existem meio que para justificar a própria existência.

No filme, vemos isso claramente quando Lúcia, a diretora do programa não permite improvisos do palhaço por medo de perder o próprio emprego. Por medo de discordar do seu superior, Lúcia também não leva ao seu superior a opinião de Augusto que cravou:

— Esse roteiro, essas piadas não vão funcionar com as crianças brasileiras.

As justificativas giram muito em torno “do meu emprego”, “da minha carreira”.

4 — As pressões, as humilhações e a vingança

Nesse ambiente hostil, aqueles que não conseguem manter a estrutura emocional necessária para aguentar as pressões e humilhações, seguem realizando as suas atividades, não pensando apenas em fazer um bom trabalho, mas em fazer um trabalho melhor que o do outro e, se possível, anular o outro, atrapalhar ao máximo. Isso sem falar nas situações em que essas pressões e humilhações levam as “vítimas” a uma busca insana por uma espécie de vingança.

Por conta da banalização do clima hostil e nada colaborativo existente, muitas vezes, os “algozes” nem se dão conta do quão mal estão causando nas “vítimas”. Se é que ainda restam vítimas nessa história toda.

No filme, a cena em que o Bingo perde a cabeça e cutuca os executivos da TV Mundial após conquistar o primeiro lugar na audiência mostra bem isso.

5 — A lição do palhaço

Talvez, a lição mais importante do filme e da própria vida, tenha sido revelada ainda na primeira parte do filme, quando o Augusto vai pesquisar um pouco sobre a arte da palhaçaria. A primeira vez que ouvi essa explicação, foi do ator / palhaço / mago Márcio Libar. O palhaço tem o nariz vermelho por ter dormido na rua, no frio, na chuva. O palhaço precisa saber que antes de começar esse jogo que é a vida, ele já perdeu. E que o fato de ter perdido, não justifica o “mimimi”, as mágoas, a culpa, nada disso, enfim.

No filme e na vida, importar-se com o que o outro pensa, culpa ou mesmo reconhece, acaba sendo um sentimento em vão. E nessa busca , nessa doação ao trabalho, Bingo acabou se afastando da própria família.


Bom, essa foi uma tentativa de comparar a realidade do filme à realidade da vida corporativa. O que você achou da comparação? Concorda? Discorda? Deixe aqui o seu comentário.

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