E se as barragens ficassem na Av. Paulista?

Se a barragem ficasse no final da Avenida Paulista e tivesse se rompido em direção a rua da Consolação, teria arrancado tudo que estivesse até o sétimo andar de qualquer prédio, com sua onda inicial de aproximadamente 20 metros, pelos 3 quilômetros de extensão da avenida. Teria coberto a escadaria da Gazeta e entrado em todas as salas, arrastando estudantes, cadeiras, mesas, lousas, paredes e o que mais estivesse no caminho. Os 8 metros de altura do vão livre do Masp não seriam páreos para os quase 60 bilhões de litros de lama fétida que manchariam obra por obra do acervo e das exposições ativas, escorrendo pelo vão até chegarem a 9 de julho, sem praticamente perderem força alguma no caminho.

A lama seguiria a todo vapor pela Avenida Paulista, arrebentando o vidro das estações de metrô, se infiltrando uma a uma, sufocando os milhares de passageiros até obstruir completamente as entradas e saídas, sufocando aqueles que sobreviveram a primeira enxurrada de lama. Seguiria destruindo o bairro do jardins inteiro — quase sem querer — ao escorrer pela Pamplona, Eugênio de Lima e outras afluentes da região, escoando realmente sua porção mais robusta de lama pela Avenida Rebouças depois de ter destruído o conjunto nacional em praticamente todos os seus andares — nesse momento lama esta já carregada com os quase 1,5 milhão de pessoas que frequentam a região por dia.

A enxurrada de lama fétida, neste momento com corpos, carros, mesas, sanduíches e alimentos dos restaurantes, bicicletas, semáforos, ferros, portas, janelas, ternos, gravatas, bermudas, maços de cigarro, skates, computadores e eletrônicos, bancas de revista, vidros, galhos, lâmpadas, obras dos artistas de rua, antiguidades e a estrutura das barracas, xícaras de café, malas, máquinas fotográficas e muitas coisas mais, ganharia força ao descer a Avenida Rebouças estraçalhando passarelas, pontos de ônibus e tudo pelo caminho, dos jardins até a região de Pinheiros até chegar no Rio Pinheiros, infiltrada por cima e por baixo da ponte Eusébio Matoso.

A lama teria levado os produtos mais caros da rua Oscar Freire, bem como vários postes e bancos do boulevard. Teria juntado os ricos e os pobres no mesmo caos, arrastados sem diferenciação os donos dos carros mais caros com os importantes carroceiros que nada poderiam ajudar frente a essa enxurrada de lixo. A lama teria levado os que se amam e os que se odeiam; os mais velhos e as crianças, seus pais, seu filhos seus brinquedos favoritos e até aqueles que você nem gosta tanto. Levaria o celular que estava no seu bolso e aquele computador caríssimo que deixou em um lugar seguro para não estragar. Destruiria suas melhores e mais caras roupas, e inclusive sua blusa rasgada.

Antes de chegar ao rio Pinheiros, a onda de lama se infiltraria pelo piso térreo do Shopping Eldorado, estourando vidros e arrastando pessoas. A lama subiria pelos caixas do Carrefour, destruindo as gôndolas do supermercado inteiro e jogando produtos de todas as seções no rio de lama. Quebraria as vitrines das lojas e arrancaria os quiosques expositivos, com as pessoas correndo desesperadas para os andares mais altos e observando a lama entrando com força e saindo carregada de objetos e corpos. Aos que se refugiaram no estacionamento, estes seriam levados juntos com muitos carros diretamente pela marginal até entrarem no curso do rio Pinheiros.

Pelo rio, destroçaria o entorno da marginal, como os trilhos do trem e a pista de bicicleta. Engoliria os carros que ainda não estivessem informados sobre o que estava acontecendo até chegar ao rio Tiete e seguir seu rumo até a barragem de Jupiá, no rio Paraná, para virar energia suja e contaminar tudo ao seu redor. E ironicamente, com a vida destes rios não teríamos que nos preocupar porque já o matamos em outro momento, antes dessa nova catástrofe acontecer.

Descendo o Rio Paraná, a lama reduziria a quantidade de oxigênio disponível na água e intoxicaria todo o ecossistema que já não tivesse sido morto pela força da enxurrada ou pelo rejeitos do minério. Em seu percurso, deixaria um rastro de toneladas de peixes e animais mortos, até se encaminhar para a foz do Iguaçu e se dispersar pela tríplice fronteira dividindo os danos com Paraguai e Argentina. Nesse caminho, já teria afetado as comunidades ribeirinhas dos estados de São Paulo, Mato Grosso e Paraná e afetados pelo menos 6 hidrelétricas no caminho.

Se tudo isso tivesse acontecido na Av. Paulista, teria arrastado nossas melhores memórias paulistanas, muitas de nossas casas, trabalhos e espaços de lazer.

Teria levado nossa história, nossas vitórias e derrotas na cidade, nossos amigos e familiares com suas próprias histórias e conquistas. Seríamos obrigados a nos abrigar no interior, em outros bairros, em regiões pouco familiares ao nosso estilo de vida e estaríamos nas mãos de pessoas que não nos conhecem e que de alguma maneira fizeram parte desta destruição. Ficaríamos indignados, putos, por ninguém ter nos avisado dos riscos e não ter soado uma porcaria de um aviso, uma sirene, para que a gente pudesse salvar as pessoas e coisas que amamos, que construímos com suor.

Tempos depois, com a lama endurecida, endurecidos ficaríamos. Seríamos colocados em uma situação paradoxal na qual para dar sequência a nossas vidas, teríamos que retomar o mesmo modelo fracassado, por falta de uma alternativa melhor ou por falta de uma estrutura para transformar o ciclo ao qual estávamos e estaremos presos.

Teria sido um grande baque em nossas vidas, teria importado, seria importante no mundo e seria impossível de esquecer.

Este texto é uma homenagem aos atingidos direta e indiretamente pelo rompimento das barragens da Samarco/Vale/Bhp em 5.11.2015 e uma singela tentativa de gerar empatia sobre o que pode ter sido a sensação de ter sido atingido diretamente por um modelo fadado ao fracasso. Se você quiser escrever um texto ou fazer um desenho ou uma arte propondo o mesmo exercício na sua cidade, envie para alex@mochilasocial.com

Saiba mais em http://fisberg.wix.com/alexfisberg/nossas-barragens

Obs: O texto é baseado nos dados reais sobre a catástrofe. Falhas de precisão sobre os fatos devem ser desculpadas, as informações disponíveis muitas vezes são conflitantes.